Matías Bize disseca a família e a maternidade em "O Castigo"
- Por Neusa Barbosa
- 12/12/2025
- Tempo de leitura 8 minutos
Matías Bize (Crédito: Reprodução/matiasbize.com)
No pequeno, mas valente e personalíssimo cinema chileno, Matías Bize é um dos nomes a distinguir. Vencedor de um prêmio Goya em 2011 pelo filme A Vida dos Peixes - um dos dois únicos filmes dele a estrear no Brasil, além de Na Cama (2005) -, o cineasta caracteriza-se por um estilo minimalista e intenso, não raro claustrofóbico, fechado num cenário único.
Em seu oitavo filme, O Castigo, este cenário é uma estrada perto de um bosque, onde um menino, Lucas (Santiago Urbina), está perdido, sendo procurado pelos pais (Antonia Zegers e Néstor Cantillana). Este é apenas o gatilho de uma história, brilhantemente roteirizada por Coral Cruz, que além do suspense mostra disposição a discutir muito mais, como a família, o casamento e especialmente a maternidade.
Nesta entrevista exclusiva, via zoom, o diretor explica mais sobre seu estilo e sua predileção por práticas teatrais.
Em seus filmes, você tem um estilo muito preciso, fechado em poucos cenários e atores. Isto requer muitos ensaios e concentração dos atores, não?
Primeiro, há que eliminar os momentos acessórios da história e concentrar-se no seu coração. Por isso, em geral meus filmes ocupam um determinado espaço narrativo, ocorrem numa noite, em uma hora, num momento e com poucos personagens. Gosto de trabalhar com momentos em que creio que se revela uma vida, ou alguma descoberta, ou nos damos conta de algo. Então, em geral são histórias que falam de relações de casais, namoros, separações, dores, reencontros, oportunidades. E no caso de O Castigo, trata-se de investigar temas como a maternidade, sobretudo desta mãe.
Sim, porque ela é a personagem central e foi dela a decisão do castigo - e também a culpa, se algo de mal acontecer ao menino. A roteirista é mulher (Coral Cruz), levando a que a história se transforme também numa discussão sobre a família, a condição feminina e o fato de que a maternidade, tão sacralizada, pode às vezes não ser uma boa opção.
Sim, começamos a ver o filme como a história de um casal que perde seu filho no bosque e terminamos vendo a história de uma mãe arrependida. E sempre na nossa sociedade latinoamericana está a figura desta mãe que tem que ser perfeita, que tem que ser feliz, sem contradições. Para começar, a mulher tem que ser mãe. Nesse sentido, o filme coloca um tema sobre a mesa que nos parecia muito interessante, que não estava sendo muito abordado.
Os atores Nestor Cantillana e Antonia Zegers (Crédito: Divulgação)
E você tem a vantagem de ter escolhido uma atriz muito precisa para o papel, Antonia Zegers, que conhecemos de outros filmes chilenos, de Pablo Larraín e Sebastián Lelio.
Sim, Antonia é brilhante, arrojada. O convite lhe foi feito para que descobríssemos juntos o que se passava com a personagem e o buscássemos sempre com verdade. Quando procurássemos Lucas no bosque, que o buscássemos de verdade. Para que chegássemos aí, o final também teria que ser de verdade. O texto que ela diz está no roteiro mas o lugar de onde seria dito também teria que ser de verdade. Esse era o desafio, como passarmos com verdade por esses lugares, que eram muito extremos, muito difíceis. O plano-sequência é a forma que permite esse trânsito do modo mais orgânico, assim como uma obra de teatro. Meu primeiro filme, que se chama Sábado, é de 2003, há mais de 20 anos, também era um plano-sequência. Demorei mais de 20 anos para tornar a fazer um plano-sequência porque necessitava que a história que eu contava se convertesse num filme melhor. Não um plano-sequência que fosse meramente um desafio de diretor ou um luxo, ou uma coisa técnica e sim que permitisse que a história chegasse de uma maneira mais direta e potente, no fundo.
Um ponto que aumenta a tensão é que os detalhes do que realmente se passou vão sendo dados aos poucos. Como as marcas dos pneus na estrada, que só veremos depois da metade do filme.
O roteiro de Coral Cruz é brilhante, só vamos sabendo das coisas à medida que vamos avançando. Quando a história começa, não sabemos o que se passa, não sabemos porque esse menino está perdido. Pouco a pouco, vamos entendendo as coisas. Penso que o suspense da história está muito bem escrito nesse roteiro. Se fosse um filme convencional, de Hollywood, começaria com a família saindo de viagem, depois veríamos o incidente. Mas este filme começa 30 minutos depois, quando o conflito já está desatado. Me parece que o público é muito mais inteligente e por isso sinto que tem que completar a outra metade da história.
E depois a chegada da polícia acrescenta uma outra camada de tensão. Porque penso que nós, na América Latina, temos em geral uma relação bastante tensa com a polícia, com as autoridades, por causa das ditaduras e de tudo isso. Mas a figura da policial é também muito interessante.
Sim, na América Latina temos essa figura da polícia, que tememos, no Chile, principalmente, vemos com muito respeito e muito medo também. O fato de que essa policial seja uma mulher para mim era muito importante, é alguém que confronta Ana mas também está vendo seu papel de mãe, de mulher a mulher, e que é interpretada por Catalina Saavedra que é uma tremenda atriz que temos no Chile, que tem um grande currículo de teatro. Eu escolhi atores que não só vêm do teatro, mas que vêm e vão para o teatro, tanto Antonia, Catalina como Nestor Cantillana, que é um dos grandes atores do Chile. Todos estão constantemente fazendo teatro e me parecia muito importante que trabalhássemos o filme como uma obra de teatro, com muitos ensaios, muita preparação até chegar à filmagem.
A ausência do menino termina tornando-se uma presença, porque não se sabe o que se passou com ele, se está escondido, se se perdeu no bosque, se caiu num lago perto. Ouvem-se ruídos, sugestões.
Havia que manter-se num meio-termo em que podiam haver muitas possibilidades mas todas elas teriam que estar perto da realidade. Ali não há ameaças externas ou extraterrestres. Todas são coisas que podem acontecer num bosque do Chile, onde há pumas, há água, está anoitecendo, faz frio. Todas coisas possíveis mas pequenas, porque se procurava fazer um filme com poucos elementos. E cada elemento, no fundo, assumia muita potência.
E como está o cinema no Chile, quantos filmes se produzem a cada ano?
Vivemos hoje um bom momento no cinema chileno, com quatro ou cinco filmes que viajam muito em festivais internacionais. Há uma indústria também do documentário, super-importante. São cerca de 15 a 20 filmes chilenos que estreiam a cada ano. São poucos mas boa parte deles é muito interessante.
A relação entre quantidade e qualidade é muito boa. Também temos a sorte de ter uma tradição muito boa de teatro, então temos muitos bons atores.
Você gosta de ir ao teatro, descobrir atores?
Sim, gosto até mais de ir ao teatro porque já faço um casting (risos). Serve como uma preparação e não só para este filme. Eu copio muito do teatro para preparar um filme. Ou seja, meus atores aprendem seus textos muito tempo antes, lemos, conversamos, ensaiamos. Então, em geral, meu primeiro dia de filmagem é como se fosse uma estreia, os atores já sabem seus textos. Me encanta como se trabalham as obras de teatro.
O filme estreou no Chile em outubro. Como foi essa estreia?
Foi bem, tanto de público como de crítica. É um filme que sinto que funciona muito no boca a boca, nos comentários que se fazem. Porque o filme não tem muitas respostas, mas faz muitas perguntas. Então, nos identificamos como filhos, mães, pais, como esposos. Porque antes as crianças eram criadas em comunidades, em grupos familiares grandes. Agora, na vida moderna, ficam mais com seus próprios pais. E na América Latina especialmente essa responsabilidade acaba recaindo sobre as mães. Essa é a discussão colocada pelo filme porque, na verdade, não temos uma resposta, mas é preciso pensá-la desde o Estado, desde o trabalho, a família. É um tema com muitas arestas.
