Diane Kurys resgata últimos anos do casamento de Simone Signoret e Yves Montand
- Por Alysson Oliveira
- 19/12/2025
- Tempo de leitura 3 minutos
Roschdy Zem e Marina Foïs, em cena, como Yves Montand e Simone Signoret (Crédito: Divulgação)
Em sua época, Simone Signoret e Yves Montand foram dois ícones, um casal de artistas de esquerda politizados que não tinham receio de usar sua fama por causas sociais. É assim que a diretora e roteirista francesa Diane Kurys os define, e foram essas características que a atraíram para fazer Eu, que te amei
– um filme sobre os últimos anos desse casamento conturbado.
“Hoje, com as redes sociais, as pessoas têm receio de se posicionar. Eu compreendo isso, é bem complicado. Mas, na época de Yves e Simone, eles foram muito importantes para nós, franceses, ao usar sua voz para dar visibilidade a questões sociais”, explica em entrevista ao Cineweb a diretora do longa, que chega aos cinemas brasileiros nessa quinta (01/01).
Kurys, que tem no currículo filmes célebres como Refrigerante de Menta (1977) e Entre Nós (1973), conta que escolheu os últimos anos da vida do casal como uma maneira de encapsular todo o relacionamento deles. “Eu acho que toda a vida deles pode ser compreendida por esse momento. Mesmo o filme não mostrando que foi amor à primeira vista, é possível compreender isso”.
Montand e Signoret foram casados entre 1951 e 1985, até a morte dela. Por muitos anos, militaram na esquerda francesa, até quando fizeram uma viagem à União Soviética e se decepcionaram com o que viram. “O que aconteceu nas URSS foi um choque para a esquerda, isso afetou demais o casal. Ele acabou se alinhando à direita depois dessa viagem.”
Na tela, os artistas são interpretados por Marina Foïs e Roschdy Zem, dois atores completamente comprometidos, segundo Kurys, com os papeis. “Marina me contou que desde pequena admirava Simone profundamente, brincava que queria ser ela quando crescesse.”
O longa abre exatamente com os dois atores, como eles mesmos, preparando-se para interpretar Signoret e Montand. Kurys confessa que isso foi uma ideia do diretor de arte do filme: “Eu achei que parecia algo meio experimental, que não tinha a ver com meu tipo de cinema, mas fui compreendendo que era uma forma de mostrar como estávamos fazendo um filme, uma versão ficcional dessas pessoas reais. Assim, também, evitava a cobrança de que os atores não eram parecidos com Signoret e Montand. É o tipo de coisa, a semelhança física, que nem me interessa, estou buscando a vida interior”.
Para construir essa versão ficcional das pessoas reais, a diretora comenta que partiu das biografias existentes sobre o casal e também do vasto material de arquivo que encontrou deles, desde entrevistas escritas até longas participações na televisão em programas de entrevistas e eventos. “É um material muito rico, que nos deu muita base, a mim e aos atores, para construir esses personagens, nossos personagens.”
Kurys começou sua carreira como atriz, no começo dos anos de 1970, chegando a trabalhar com Federico Fellini, em Casanova (1976), mas conta que considerava o trabalho de atriz “frustrante, por ter papeis tão pequenos que não lhe permitiam se expressar.” Foi escrevendo roteiros que ela se encontrou como artista.
Em Eu, que te amei, a narrativa se dá pelo ponto de vista de Signoret, uma mulher tentando compreender seu casamento, o mundo em que vive. “Yves era um homem terrível com a mulher, mas eu tentei, ao mesmo tempo, compreendê-lo como ser humano. Não queria torná-lo um vilão raso, maniqueísta.
“Eu nunca tinha parado para pensar, mas foi meu filho quem apontou, pouco tempo atrás, que praticamente todos meus filmes são sobre mulheres em busca de se libertar, mulheres fortes. Eu sou uma cineasta feminista, mas essas personagens acabaram aparecendo de forma subconsciente. No meu cinema, tento evitar o maniqueísmo. Eu sou uma cineasta mulher, mas não quero que isso seja um rótulo.”
