Lúcia Murat olha no olho da juventude em "Hora do Recreio"
- Por Neusa Barbosa
- 11/03/2026
- Tempo de leitura 6 minutos
Lucia Murat com a Menção Honrosa que recebeu em Berlim
Lucia Murat é conhecida por uma obra que não perde o pé da realidade brasileira, seja nas memórias da ditadura (Que Bom Te Ver Viva, Quase Dois Irmãos, A Memória que Me Contam, O Mensageiro), temas indígenas
(A Nação que Não Esperou por Deus), seja sobre aspectos da identidade feminina (Em Três Atos, Ana. Sem Título), entre outros temas.
Em seu novo documentário, Hora do Recreio, vencedor de uma Menção Honrosa na mostra Generation Kplus no Festival de Berlim 2025, a cineasta olha nos olhos da juventude brasileira, ouvindo adolescentes alunos de escolas públicas do Rio de Janeiro. Falando da própria obra, em entrevista exclusiva ao Cineweb, Lucia observa que, apesar de sempre lembrarem que fez filmes sobre a ditadura, dos 15 longas que fez, menos da metade é sobre isso. “É minha história de vida, né?”. Mas admite que a violência está sempre no centro de suas preocupações, assim como nos depoimentos dos jovens personagens do filme, revelando vivências dolorosas sobre racismo, homofobia, transfobia e violência doméstica.
Tudo isso se sabe estar presente na vida das pessoas mas assim declarado, em primeira pessoa, torna-se muito mais urgente e vivo. Lucia completa: “E na voz de um jovem que você muitas vezes pensa que é uma pessoa alienada, boba, que não é capaz disso. O que chama a atenção é não somente os fatos, mas a coragem e a capacidade de articulação que eles demonstraram”. E admite que isso a surpreendeu e muito.
Locações fora da escola
A própria logística para a realização do documentário não foi nada simples. A cineasta começou o processo com professores progressistas que conhecia, em 2018. Depois vieram a pandemia, uma série de editais que recusaram o projeto. “Como se sabe, cinema é um processo muito longo”, observa. A ideia era o que ela chama de “um documentário padrão”, em que ela iria às escolas e daria a palavra aos alunos. Porque, como ela teve experiência desde o filme Quase Dois Irmãos (2005), particularmente com o grupo Nós do Morro, queria enfrentar o processo de estigmatização da comunidade, comumente associada à violência e à criminalidade e nada além disso. “Sabendo como eram pessoas capazes e inteligentes, queria desde o começo dar voz a eles”. Ao mesmo tempo, queria filmá-los na escola, para enfrentar o estigma, acreditando que a escola era um bom lugar para discutir todas as questões, contando com o apoio de professores. Nesse ponto, ela destaca como “apesar dos baixíssimos salários e da falta de recursos, temos excelentes professores que se dedicam. É impressionante. É uma dádiva para este País”.
Aí surgiu outro problema: ela não conseguiu liberação para filmar o Ensino Médio nas escolas. “A Secretaria da Educação não dava essa autorização. Não proibiu, mas também não dava a autorização. E eu não queria fazer somente com o ensino Fundamental 1 e 2. Eu queria também os alunos mais velhos, mais capazes de articular. Então, fizemos como se fosse uma ficção. Criei um ambiente. Pusemos vans, demos refeições, tudo direitinho”.
"Hora do Recreio" (Crédito: Taiga Filmes)
Grupos teatrais
Um aspecto marcante no documentário também é inserir uma representação teatral, levada pelos alunos, de Clara dos Anjos, romance de 1922 de Lima Barreto em que estão presentes os temas, infelizmente recorrentes até hoje, do racismo e do abuso sexual. A ideia de inserir este texto, segundo Lucia, fez parte do projeto desde o início, em que ela esteve trabalhando com três grupos de teatro: o Nós do Morro, do Vidigal, o Vozes, do Pavão, Pavãozinho e Cantagalo, e o Instituto Arteiros, de Cidade de Deus. E chamou para trabalhar na coordenação Luciana Bezerra, do Nós do Morro, que é atriz, que foi que a colocou em contato com esses grupos.
Desde o início, a diretora estava indo a esses lugares, selecionando elencos. No meio disso, acabou acontecendo algo imprevisto: uma operação policial no Morro do Alemão, que impediu a realização de uma filmagem numa escola. O resultado foi uma outra performance, criada pelos jovens, usando máscaras. Lucia tinha pensado em selecionar jovens dessa escola para fazer uma performance sobre operações policiais, já que elas são recorrentes ali no Alemão. “Mas não sabia, evidentemente, que uma delas ia ocorrer justo no dia em que íamos filmar”, comenta. Mas aí, junto com Vitor, do grupo Vozes, resolveram criar o Grupo de Máscaras, que ele coordenou: “Uma interpretação corporal do que são o medo e a dor, diante da operação. Todas as comunidades já viveram isso, então, não tinham dificuldade. Foi um processo muito bonito, em Berlim foi muito legal”.
Referindo-se à passagem do filme pelo Festival de Berlim em 2025, Lucia comenta; “Eles adoraram. De cara, houve empatia total com a trilha do filme”.
Voltando à encenação de Clara dos Anjos, a diretora comenta que, na primeira leitura do texto, com os meninos selecionados, “foi uma tragédia. Quase desisti. Realmente, é um texto muito antigo, um vocabulário difícil, lento. Quando terminou, eu falei: ‘Isto não é Inglaterra, não é Shakespeare, não vai dar certo’”. Porém, na segunda leitura, tudo engrenou: “Eles começaram a brincar com o texto, fazer piada com as coisas. São eles que estão mostrando o caminho, é só liberar, é só escutar, só deixar que aconteça’.
Exibições
Fazendo o caminho de volta, a diretora está realizando uma série de exibições do documentário para a rede pública de ensino. Algo cuja importância cresce na medida em que, como lembra a diretora, “muitos desses garotos não têm dinheiro para ir ao cinema, nunca foram ao cinema na vida”. Então, ela está levando o cinema até eles, fazendo projeções em espaços nas comunidades, em que os próprios jovens e suas famílias podem assistir, ver-se na tela e incorporar o cinema em seu cotidiano.
