05/06/2026

Mostra sobre mulheres no terror destaca autonomia das diretoras no gênero

Virtuosas, de Cíntia Domit Bittar, em cartaz na mostra Mestras do Macabro (Crédito: Divulgação)

Um dos gêneros cinematográficos com mais força para revelar as tensões sociais, o horror encontrou nas cineastas mulheres um novo vigor no presente.

A mostra Mestras do Macabro que começa amanhã no CCBB do Rio de Janeiro, e sábado no CCBB de São Paulo, coloca o gênero em evidência, com 38 títulos — sendo 31 filmes dirigidos por mulheres e outros sete com participação feminina em funções essenciais como roteiro, montagem, fotografia, trilha sonora, maquiagem e efeitos especiais

Beatriz Saldanha, curadora da Mostra, aponta que, no presente, as cineastas parecem ter uma autoconsciência e, sem dúvida, uma autonomia que as diretoras da década de 1970 e 1980 não tinham. No sentido de reconhecer como o horror pode ser um gênero que reforça opressões sexistas e usar isso de forma contrária, como uma maneira de rebeldia e libertação.”

A seleção permite revisitar clássicos e descobrir novidades, inclusive produções brasileiras, como de Love Kills, de Luiza Schelling Tubaldini, Virtuosas, de Cíntia Domit Bittar, de O despertar de Lilith, de Monica Demes, inéditas em circuito comercial.

Nessa entrevista, Saldanha, doutoranda em Comunicação Audiovisual pela UAM, fala mais sobre a Mostra, e como a presença das mulheres nas produções do gênero.

O que o público pode esperar dessa mostra?

Uma variedade surpreendente de filmes, do horror fantástico tradicional, como O Cemitério Maldito II, de Mary Lambert, a olhares mais autorais, como o da diretora em destaque Marina de Van, e até experimentais, como os da videomaker Cecelia Condit, homenageada nesta edição. O público também vai poder participar de debates com críticas de cinema, bate-papo com as diretoras, atividades de formação - entre elas um curso sobre atuação para filmes de horror com Gilda Nomacce; tudo de maneira gratuita. Eu vejo a mostra como uma grande imersão no cinema de horror feito por mulheres

Como você encara o horror contemporâneo dirigido por mulheres?

As diretoras contemporâneas parecem ter uma autoconsciência e, sem dúvida, uma autonomia que as diretoras da década de 1970 e 1980 não tinham. No sentido de reconhecer como o horror pode ser um gênero que reforça opressões sexistas e usar isso de forma contrária, como uma maneira de rebeldia e libertação. Não digo que as diretoras de décadas atrás não sabiam disso, inclusive muitas delas relataram que queriam fazer algo diferente, mas simplesmente eram impedidas pelos produtores. Eu gosto bastante da maior parte das produções recentes feitas por mulheres.

E quais as consequências dessa autonomia?

Quando elas têm a liberdade de fazer o filme que querem, elas arriscam, fazem coisas narrativa e esteticamente absurdas - no melhor sentido possível -, e apresentam pontos de vista super-interessantes sobre questões femininas que por muito tempo foram considerados tabu, como questões hormonais, o desejo feminino, maternidade, sexualidade, violência psicológica etc. Dos filmes mais recentes, dois dos que mais me impressionaram foram (Re)Nascer, de Laura Moss, e O Lago da Perdição, de Laura Casabé.

Vivemos em um momento de uma tentativa de transformação mais profunda, colocando o patriarcado em xeque. Como você acredita que o cinema de horror tem trabalhado com isso?

Eu acho que as mulheres estão realizando um ótimo trabalho nesse sentido, construindo personagens femininas super complexas, imperfeitas, anti-heroínas fascinantes, entre outras coisas.
Fora isso, tenho impressão que aquele horror escancaradamente sexista não tem mais espaço no mainstream, o que considero muito positivo. Ao mesmo tempo, fico desconfiada com gigantes do entretenimento que parecem abraçar pautas como o horror feminista e o horror negro por puro oportunismo. É fato que hoje as mulheres e as pessoas negras têm um pouco mais de acesso à cadeira da direção do que antes, mas é preciso permanecer vigilante.

E, no caso específico do Brasil, como você acredita que os filmes de horror dirigidos por mulheres respondem à nossa realidade contemporânea?

Em parte, eu acredito que os filmes buscam responder à nossa realidade. Filmes como Medusa, da Anita Rocha da Silveira, Rachel 1:1, da Mariana Bastos e Virtuosas, da Cíntia Domit Bittar - este será exibido na nossa mostra -, falam de um tema muito semelhante, que é o avanço do conservadorismo no Brasil através da religião, que chega até o discurso político e à vida cotidiana. Por outro lado, é impossível dar conta de falar da realidade de todas as mulheres do país, todas as classes sociais, pois as pessoas têm vivências e visões de mundo diferentes. Talvez uma questão que poderia fomentar um filme de horror em certa região ou certa comunidade seja algo sobre o qual certa diretora jamais pensou, pois aquilo jamais a afetou, e vice-versa. O horror sempre foi uma resposta à realidade, mas agora acho que essas respostas parecem, de certa forma, mais "setorizadas", mais subjetivas, o que é perfeitamente normal e é exatamente o que dá sentido à almejada pluralidade de perspectivas.

Programação CCBB - RJ https://ccbb.com.br/rio-de-janeiro/programacao/mestras-do-macabro-as-cineastas-do-horror-ao-redor-do-mundo-2a-edicao/

Programação CCBB - SP https://ccbb.com.br/sao-paulo/programacao/mostra-mestras-do-macabro-as-cineastas-do-horror-ao-redor-do-mundo/