Dominik Moll investiga abusos policiais na França em filme premiado
- Por Alysson Oliveira
- 15/04/2026
- Tempo de leitura 3 minutos
Léa Drucker, em cena de Caso 137 (Crédito: Divulgação/Autoral Filmes)
Para o público brasileiro em especial,Caso 137, de Dominik Moll, é um filme que dialoga com o nosso presente ao abordar os abusos policiais. Seu tema é a ação violenta da polícia cometida numa manifestação em Paris, e a investigação da corregedoria, liderada por Stéphanie (Léa Drucker, premiada com o César de atuação feminina por esse trabalho). O filme se passa durante as manifestações de 2018, que começou quando foi anunciado o aumento dos combustíveis.
“A polícia francesa tem um longo histórico de brutalidade, abusos e uso da violência”, explica o diretor em entrevista ao Cineweb. “É a polícia mais militarizada da Europa, e isso fica claro em sua ação. Atualmente, não serve mais para proteger, mas, sim, para obedecer ordens daqueles que estão no poder. E suas ações nunca são questionadas.”
Nascido na Alemanha e radicado na França, Moll vai além e aponta que a maneira como a polícia faz o seu trabalho está ligada à democracia de seu país. “Numa democracia, é preciso haver a força policial, mas a maneira como ela age mostra se a democracia funciona ou não no país.”
Ele acrescenta que, no caso da França, há ainda o sindicato dos policiais que é dominado pela extrema-direita, “o que dificulta ainda mais as mudanças. Os políticos têm medo de intervir nas estruturas, na maneira como os policiais agem. Mas eu sou um otimista e acredito que é possível mudar. Talvez estejamos começando a mudança na Europa, com a derrota da extrema-direita nas eleições na Hungria [no domingo passado].”
Em seu filme anterior, A Noite do dia 12, Moll colocou em cena a polícia investigando um crime inspirado num caso real que nunca foi resolvido. Depois desse longa, o diretor se perguntou: e como seria se a polícia investigasse a si mesma? “É um assunto complicado, pois quem está na corregedoria sempre é visto com maus olhos pelos colegas. Temos uma cena no filme que deixa isso bem claro. Há um desconforto muito grande nesse trabalho, mas precisa ser feito.”
Dominik Moll, diretor de Caso 137 e A Noite do Dia 12, entre outros (Crédito: Divulgação/Festival do Rio)
Para escrever o filme, cujo roteiro é assinado por Moll e Gilles Marchand, o diretor acompanhou o trabalho da corregedoria, além de ler um vasto material produzido pela imprensa sobre o assunto. “Estar lá dentro, acompanhar como é o cotidiano e as investigações foi muito esclarecedor, e ajudou muito na construção do filme. Uma coisa que me chamou a atenção é que a maioria ali eram mulheres. E, a partir disso, decidi que o filme deveria ser protagonizado por uma mulher. A polícia é um universo muito masculino, e achei interessante, também, ter uma protagonista feminina desafiando essa estrutura.”
Quando escalada para o papel, Léa Drucker também passou uns dias com as policiais da corregedoria, entendendo como é o trabalho, os desafios e os dilemas. “As policiais que ela entrevistou foram unânimes em dizer que era preciso controlar a emoção nessa função. O trabalho da polícia é se ater aos fatos.”
Caso 137 fez sua estreia mundial na competição principal do Festival de Cannes 2025, e chegou aos cinemas do país em novembro. Moll conta que foi muito bem recebido pelo público e por boa parte dos policiais. “Muitos deles foram a sessões especiais, conversaram comigo, acharam o filme importante e honesto. Mas tenho certeza de que o sindicato não gostou.”
