05/06/2026

Documentário resgata a resistência do carnaval pernambucano durante a pandemia

O Homem da Meia-Noite, figura clássica do carnaval de Olinda (Crédito: Divulgação)

O carnaval de 2020 foi especial para o paulistano Bruno Mazzoco, que conheceu a festa em Recife e Olinda, ao lado de sua namorada na época, a pernambucana Mariana Soares. “Foi uma experiência que me tocou tão profundamente que tinha certeza que no ano seguinte estaria nas ladeiras para viver toda aquela catarse novamente,” recorda ele.

Em 2021, no entanto, a folia foi cancelada, e em 2022, também. Só dez dias antes daquele que teria sido o carnaval em fevereiro de 2021 que Mazzoco e Soares se deram conta de que não haveria carnaval naquele ano. “Surgiu a ideia de fazer o documentário. Ato contínuo, começamos a falar como seria o filme, elaborar uma hipótese de trabalho e contatar as pessoas para montar uma equipe – reduzida e entusiasmada – para começar a filmar na semana seguinte.”

O resultado é o documentário O ano em que o frevo não foi pra rua, em cartaz em diversas cidades do país, dirigido pela dupla. Nessa entrevista, o diretor conta sobre o processo de fazer o filme, e a importância de registrar a resistência das pessoas para que a festava pudesse voltar em 2023.


Como vocês se uniram para realizar o projeto?

Mariana e eu éramos namorados na época. Eu já tinha interesse pela cultura pernambucana, que acompanhava desde a adolescência por conta do mangue beat. Depois, mais tarde, ao entrar na faculdade, no início dos anos 2000, fui capturado pela produção de cineastas como Cláudio Assis, Lírio Ferreira, Marcelo Gomes e Paulo Caldas, que fizeram do cinema pernambucano uma das expressões mais potentes do que se convencionou chamar de “cinema da retomada”.

Nessa mesma época também a passei a me interessar cada vez mais pelas manifestações da cultura popular e, naturalmente, o frevo e as manifestações do carnaval de Recife e Olinda, de que já tinha ouvido falar, por conta da circulação que eles têm no comunicação e no imaginário brasileiro como um todo, entraram também para o meu universo de interesses. Acho que tudo isso se deve, um pouco, à minha formação como jornalista, o que sempre privilegiou um olhar para a cultura brasileira.

E como a experiência de ambos no jornalismo ajudou no cinema?

Acho que a experiência como jornalistas trouxe a sensibilidade para poder ter a intuição de que, em meio a tudo que vivíamos por conta da pandemia, a ausência do carnaval reverberaria profundamente na alma de quem ama o carnaval, principalmente em se tratando de recifenses e olindenses, que têm nessa festa quase que um traço constitutivo de suas identidades.

Como começou o projeto?

Apesar de todo o interesse na festa, só tive a oportunidade de viver o carnaval de Recife e Olinda em 2020. E foi uma experiência que me tocou tão profundamente que tinha certeza de que no ano seguinte estaria nas ladeiras para viver toda aquela catarse novamente. Só que veio a pandemia e, com ela, o cancelamento do carnaval de 2021. Embora já soubéssemos disso com alguma antecedência, a “ficha caiu” somente uns dez dias antes do que seria o carnaval naquele ano.

Enquanto Mariana e eu lamentávamos o fato de não poder ir para Recife e Olinda para celebrar, surgiu a ideia de fazer o documentário. Ato contínuo, começamos a falar como seria o filme, elaborar uma hipótese de trabalho e contatar as pessoas para montar uma equipe – reduzida e entusiasmada – para começar a filmar na semana seguinte.

Quais foram os maiores desafios de filmar durante a pandemia?

Acho que além de todas as restrições sanitárias a que todos estávamos sujeitos naquela época – e que buscamos seguir estritamente durante as filmagens – havia o desafio de fazer um filme sobre uma festa que não estava acontecendo. Então, para isso, além da decisão mais óbvia de filmar as ruas, ladeiras e outros lugares de desfile de blocos vazios, buscamos uma maneira de acessar as emoções das pessoas, para que elas falassem da festa, do pesar e da saudade que o momento trazia, de uma forma vivaz e autêntica.

Acho que conseguimos isso ao decidir que gravaríamos com a maioria dos participantes nos locais em que eles costumam viver a apoteose do carnaval. Decisão que acabou se mostrando acertada. Além disso, havia a dificuldade inicial de estarmos em São Paulo e não termos como ficar – por motivos pessoais, econômicos e profissionais – por longos períodos em Pernambuco. Isso, de partida, já nos fez entender que o nosso arco narrativo seria construído a partir de um registro de ausência, expectativa e retorno da festa.


Em 2023, a festa foi retomada nas ruas de Recife e Olinda (Crédito: Divulgação)

Olhando para trás, hoje, como você vê o momento da pandemia, que ficou registrado para sempre nesse filme?

Acho que a pandemia deixou marcas profundas em todo mundo. Marcas pessoais e coletivas com as quais ainda estamos tendo que lidar. E acho que construção de narrativas é uma forma de elaborarmos essas dores, esses traumas que ainda não foram muito explorados.

E de alguma forma, a gente teve a sensibilidade de perceber isso enquanto os fatos se davam e tentamos fazer um esforço de capturar um evento histórico, ainda que de uma forma mais delimitada a um aspecto específico, que não é exatamente o cerne da questão.

Como foi o processo de montagem com Ari Arauto?

O Ari é um profissional experiente e um contador de histórias muito sensível. Lembro que fizemos uma conversa, antes de mandarmos o material para ele, em que eu estava preocupado em falar como eu via a história, mandar uma escaleta, mostrar as cenas que eu já tinha montado e ele, com muita sutileza, mas de modo assertivo, rejeitou tudo isso, dizendo que ele precisava ver que história o material contava para ele, que na montagem o material é soberano. E a partir daí ele monta algumas sequências iniciais e começamos uma troca intensa para entender a melhor forma de alinhavar aquelas cenas e relatos. A contribuição dele foi tão fundamental que, ao final do processo, percebemos que ele deveria, além da montagem, assinar o roteiro junto com Mariana, Renata Pimentel e eu.

O que você acha que o filme tem a dizer para o Brasil de hoje?

Eu gosto muito de um depoimento que a cantora Nena Queiroga nos dá quando estamos registrando o retorno do carnaval, em 2023. Ela diz que para além da parte de entretenimento da festa, ela gostaria que os dois anos que ficamos sem o carnaval fizesse as pessoas darem mais importância para seus elementos históricos e culturais, de conhecer mais profundamente as diferentes manifestações.

Nosso filme, de alguma, forma traz um pouco esse olhar sobre a importância da cultura popular não só como festa, mas como um elemento que valoriza a autenticidade de diferentes manifestações como uma forma de resistência à pandemia – no contexto mais específico do filme – mas também de resistência cultural, diante de iniciativas de massificação cada vez mais presentes na indústria cultural.