Akinola Davies Jr. parte de questões pessoais para resgatar história da Nigéria
- Por Alysson Oliveira
- 27/04/2026
- Tempo de leitura 4 minutos
A Sombra do meu pai: uma história de pai e filhos (Crédito: Divulgação/Lakin Ogunbanwo)
Primeiro filme nigeriano exibido no Festival de Cannes, A Sombra do Meu Pai, merece reconhecimento não apenas por esse feito, mas, em especial, por suas qualidades sócio-históricas e cinematográficas. Dirigido por Akinola Davies Jr., a partir de um roteiro escrito por ele e seu irmão, o rapper Wale Davies, o filme acompanha um dia na vida de dois irmãos. Esse dia, no entanto, não é um dia qualquer – é 12 de junho de 1993, quando aconteceu a primeira eleição presidencial na Nigéria.O candidato do então ditador militar Ibrahim Babangida, Bashir Tofa, foi derrotado pelo oposicionista Moshood Abiola. Diante disso, Babangida declarou que as eleições foram irregulares e deu a vitória a Tofa, o que desencadeou uma onda de protestos em todo o país, forçando o militar a renunciar. Esse dia crucial na história do país é visto pelo olhar de dois pequenos irmãos, que viajam com o pai da pequena vila rural onde vivem para a capital do país, Lagos, para comemorar a esperada vitória da oposição.
Ganhador de uma menção especial no prêmio Caméra D’Or (concedido a diretores estreantes no Festival de Cannes), Davies Jr. conta em entrevista que o longa não é exatamente autobiográfico, mas os dois irmãos são construídos a partir de experiências e vivências dele e de Wale. “Meu pai morreu quando eu tinha 20 meses. Meu irmão era um pouco mais velho, mas se lembra muito pouco dele. E todo mundo sempre me fala como meu pai era uma figura popular e querida por seus amigos. Foi pensando nisso, imaginando como era o meu pai, que construí a figura paterna no filme”, conta em entrevista ao
Cineweb em São Paulo.
No longa, o personagem paterno é interpretado por Sopé Dìrísù, experiente ator britânico, que assumiu a incumbência de cuidar dos dois pequenos atores estreantes, e também irmãos, Chibuike Marvellous Egbo e Godwin Egbo. “Ele estabeleceu uma relação muito especial com os meninos, não apenas como pai na tela, mas, também, fora dela. Foi muito acolhedor, protegendo os meninos o tempo todo”.
Akinola Davies Jr, premiado diretor do longa (Crédito: Mario Miranda Filho:Age?ncia Foto/Divulgação)
Akinola comenta que, inicialmente, seria um filme sobre pais e filhos. O pai trabalha fora da cidade o tempo todo, e vê os meninos raramente. Então nesse dia, enquanto a mãe deles está fora, pega os meninos e os leva consigo a Lagos.
“Mas só isso não seria suficiente. Ainda na fase do roteiro, meu irmão e eu percebemos que seria preciso trazer elementos mais complexos, e foi aí que a política entrou. Aquele foi um momento crucial à história do nosso país e traz consequências até hoje. Acredito que em qualquer país que tenha vivido uma ditadura, como é o caso da Nigéria e do Brasil, as feridas históricas ficam para sempre. E é preciso sempre tratar desse assunto, para que uma ditadura não volte a acontecer”.
Ele aponta como vê no cinema uma ferramenta de memória histórica coletiva e, por meio dele, também, leva a cultura de seu país para outros lugares. “Eu vi muitos filmes sobre questões políticas. Muitos deles eram latino-americanos, lidando com os traumas do passado. Eu acho importante falar sobre esses temas, e, também, desconstruir estereótipos como o que a Europa tem sobre a Nigéria. Nós temos uma cultura muito vibrante. O mundo conhece a Chimamanda Ngozi Adichie [escritora nigeriana, autora de livros como Americanah], e tenho muito orgulho disso, porque ela é muito inteligente e articulada.”
Para seu primeiro longa, Akinola também se cercou de estreantes, como o diretor de fotografia Jermaine Edwards, que até então só trabalhara como operador de câmera. “Eu pensei, num momento, que deveria contratar pessoas mais experientes para me ajudar. Mas como as pessoas irão ter experiência se ninguém lhes der uma chance? Então muitas pessoas estavam estreando como eu. Foi um trabalho que planejamos muito juntos. E filmar em película foi muito especial. Que diretor estreante consegue esse feito?”, celebra
Entrevista concedida durante a 49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, quando o diretor veio à cidade a convite do evento.
