Compositores criaram moldura sonora para apoiar "A Sombra do Meu Pai"
- Por Neusa Barbosa
- 29/04/2026
- Tempo de leitura 4 minutos
Duval Timothy e CJ Mirra visitaram o Brasil, junto com o diretor (Crédito: Neusa Barbosa)
Autores da trilha sonora de A Sombra do Meu Pai, de Akinola Davies Jr., os britânicos Duval Timothy e CJ Mirra visitaram o Brasil, junto com o diretor, neste final de abril. Promovendo o filme, que estreia no dia 30, e visitando o país pela primeira vez, os dois tiveram experiências marcantes, como tocar com músicos locais em Salvador, numa das igrejas coloniais da capital baiana.
O lançamento do filme faz parte da programação do Ano Cultural Brasil-Reino Unido,
temporada realizada pelo British Council, em parceria com o Instituto Guimarães Rosa (IGR), e conta com o apoio do governo do Reino Unido e da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.
Vencedor de uma menção especial na mostra Un Certain Regard de Cannes em 2025, onde aconteceu sua première mundial, e de um prêmio Bafta como melhor filme britânico de diretor estreante em 2026, A Sombra do Meu Pai registra uma impressionante série de estreias: é a primeira trilha sonora para cinema do também pianista Timothy; para CJ Mirra, um australiano radicado em Londres, foi a primeira experiência como supervisor de som - um aspecto fundamental à organicidade do filme; e no elenco, essa também foi a primeira atuação dos dois esplêndidos meninos protagonistas, Godwin Egbo e Chibuike Marvellous Egbo; e do diretor de fotografia, Jermaine Edwards, que fez um trabalho excepcional, recorrendo ao 16 mm para obter uma textura granulada que remete à lembrança e ao sonho, essenciais ao clima da história.
Morador de Londres, como Akinola, Timothy conta, em entrevista ao Cineweb, em São Paulo, que o conheceu socialmente. Então, o futuro cineasta, que fazia vídeos musicais que o músico apreciava - “eram muito experimentais e anticonvencionais” - falou-lhe sobre um projeto de curta-metragem que tinha, sobre sua mãe. Depois, Davies lhe entregou um pacote de imagens digitais, materiais familiares muito íntimos, que serviram de base para o que seria esse curta, Lizard (2020) que, como ressalta Timothy”, apesar de curta, diz tanto e é tão cinematográfico. É sobre uma criança e vemos as coisas sob o seu olhar”. Um aspecto, afinal que se repete no longa A Sombra do Meu Pai, refletindo também o ponto de vista das duas crianças.
Esta primeira experiência em comum os aproximou e se tornaram amigos. Recentemente, Timothy se tornou pai e isto facilitou sua conexão com o roteiro de A Sombra do Meu Pai, que Davies lhe entregou e foi o ponto de partida para uma nova parceria na trilha sonora, como no curta.Timothy estava em Sierra Leoa, onde tem raízes familiares, quando as filmagens começaram e começou a escrever algumas melodias relacionando-se com a atmosfera da história. E estava na Nigéria quando começaram as filmagens. “Era minha primeira experiência como compositor de uma trilha de longas e eu estava ansioso para provar que podia fazê-lo”, comenta.
Além da música, o diretor estava particularmente interessado em introduzir ruídos de fundo, como os sons de Lagos, cidade que os dois meninos estão descobrindo numa visita com o pai, sons que vão se imiscuindo na atmosfera e se tornando mais densos, à medida que acontecimentos políticos tensionam a trama. Depois, Timothy e CJ trabalharam em cima desse conceito em Londres, onde o último tem um estúdio, o que lhes permitiu avançar mais na construção de uma moldura sonora: “Porque você pode gravar os diálogos, depois ruídos, mas queríamos mais camadas, para evidenciar as partes escondidas da história, as partes emocionais, reforçando os temas deste filme, o sentido de espiritualidade, o sentido de atemporalidade, os temas universais. Então, havia que procurar a perspectiva para fazer isso, para que o coração e a abordagem das composições se encaixassem”. O que se mostrou fundamental num filme em que muito do que se mostra não é explícito nem está sendo dito através de diálogos.
Além das composições originais, também integram a trilha músicas tradicionais, como um canto fúnebre, executado no final do filme, que Timothy e CJ
descobriram, em Salvador, que tem enorme semelhança com um canto iorubá na Bahia, como lhe disseram músicos locais. O próprio Timothy, um inglês cuja família paterna vem de Serra Leoa, tem uma experiência direta nesse cruzamento intercontinental de influências, mantendo uma ativa conexão entre Londres, onde mora, e aquele país, terra natal de seu pai, onde estabeleceu um estúdio e participa de frequentes iniciativas com músicos locais.
Leia também a entrevista com Akinola Davies Jr, diretor de "A Sombra do Meu Pai"
