05/06/2026

Karol Maia dá protagonismo a trabalhadoras domésticas em “Aqui não entra luz”

Mãe Flor, uma das empregadas domésticas que conta sua história no filme (Crédito: Divulgação)

Enquanto alguns cineastas, especialmente estreantes, querem ver seus filmes logo na tela, os oitos anos que a jovem cineasta Karol Maia levou para fazer seu premiado documentário Aqui não entra luz não foram um problema para ela. “Eu vejo o resultado como uma linha do tempo da minha maturidade,” explica em entrevista ao Cineweb. “Parece menos tempo hoje, um tempo de que eu precisava.” O longa chega aos cinemas brasileiros nessa hoje (07/04).

Duplamente premiado no Festival de Brasília, com melhor direção e prêmio Zózimo Bullbul, o filme é construído a partir dos relatos de trabalhadoras domésticas de diversos estados brasileiros – uma delas é a mãe da diretora, Miriam Mendes. No processo de pesquisa para encontrar essas mulheres, Maia explica que os sindicatos locais foram fundamentais. “Recebemos muitos nãos [de trabalhadoras com quem tentávamos contato], mas entendo, não são histórias fáceis. As mulheres que aceitavam falar com a gente já tinham elaborado o trauma.”

As histórias contadas na tela realmente não são simples, envolvendo sempre exploração e humilhações. Mas o filme injeta um tom humanista, destacando quem são essas mulheres e, não poucas vezes, algo de humor nas falas delas. “Minha perspectiva é a de dar mais dignidade a elas. Nas entrevistas, eu também compartilhava minhas histórias e me aproximava delas, estabelecia um diálogo. A ideia era de não deixá-las sozinhas nessa partilha de histórias.”


Karol Maia, diretora do longa (Crédito: Lucas Raion/Divulgação)

As entrevistas são costuradas pelas falas da própria diretora, além de sua própria voz em alguns momentos das conversas. Ela conta que desde o início sabia que estaria presente no filme, mas não imaginava o quanto. “Eu não queria me envolver demais, me expor, já estava muito envolvida como diretora. Mas cheguei num ponto em que queria colocar minha história, que também passa pela da minha mãe. Precisava ser de um jeito que não virasse um filme sobre mim.”

Ela se confessa bastante otimista com a representação do trabalho de trabalhadoras domésticas no audiovisual nacional, pois sente que mais filhas e filhos de profissionais da categoria estão contando histórias. “Já deu de ver a empregada doméstica como sombra. Temos o outro lado, e vamos mostrar com cinema, literatura.” Por isso mesmo, Maia conta que ainda vai falar muito sobre o assunto. “Ainda vou fazer mais algum filme sobre o tema. Não sei ainda o que vai ser, estou me investigando e, em breve, vou me encontrar.”

Depois do Festival de Brasília, o longa fez sua estreia mundial no Festival Internacional de Documentários de Amsterdã (IDFA), o maior do mundo dedicado ao gênero, e a diretora conta que sentiu o estranhamento do público diante da realidade mostrada no filme, pois a dinâmica entre patrão e trabalhadora doméstica é algo que não existe lá, e ficaram impressionadas.

Agora em maio,
Aqui não entra luz será exibido no Festival Jean Rouch, em Paris. “Acredito que o público francês terá uma reação muito parecida. São países colonizadores, e nos deixaram esses problemas. É bom que eles vejam isso, para sentirem um pouco do que ficou de herança da dominação europeia.”