Cineastas belgas discutem abuso parental em drama potente
- Por Alysson Oliveira
- 02/07/2026
- Tempo de leitura 4 minutos
Myriem Akheddiou e Laurent Capelluto, em cena de Nós acreditamos em você (Crédito: Divulgação)
Para realizar o drama
Nós acreditamos em vocês, a diretora e roteirista Charlotte Devillers se preparou sua vida profissional toda.Não foi exatamente uma escolha, mas seu trabalho com enfermeira especialista em casos de abuso parental serviu de base para o longa que roteirizou e dirigiu com seu marido, o cineasta Arnaud Dufeys. O longa está em cartaz nos cinemas brasileiros.
“Como enfermeira, venho apoiando e tratando vítimas de violência sexual e, especificamente, vítimas de incesto, há vários anos. Foi ao perceber a dimensão desse fenômeno que reconhecemos a necessidade urgente de abordar o assunto no cinema”, disse em entrevista ao Cineweb por email.
O longa coloca em cena uma mãe, Alice Piron (Myriem Akheddiou), que entra na justiça para impedir que o ex-marido, Goossens (Laurent Capelluto), volte a ter contato com a filha adolescente, Lila (Adèle Pinckaers), e o caçula pré-adolescente, Etienne (Ulysse Goffin). O longa acompanha a audiência, presidida por uma juíza (Natali Broods) que decidirá o caso. Ao longo da narrativa, acompanhamos os depoimentos dos pais e advogados, e, aos poucos, fortes revelações são feitas.
As mães, nesses processos, explica Devillers, são chamadas de “mãe protetora”, e “a questão do lugar de fala delas e das crianças se tornou o núcleo central da história.
“Começamos a escrever o filme em 2023 e, logo no início do processo de escrita, passamos a conversar com mães protetoras. Ficamos impressionados pela maneira como processos judiciais se sobrepõem constantemente entre a Justiça criminal, a Vara da Infância e Juventude e a Vara de Família, tanto na Bélgica quanto na França, criando um sistema extremamente complexo para as vítimas, especialmente para as crianças, que têm de relatar repetidamente os mesmos acontecimentos traumáticos. Muitas acabam sentindo que simplesmente não são acreditadas,” explica Dufeys.
A dupla destaca não apenas a importância de abordar o tema como denúncia, mas de trabalhar com o elenco para encontrar a medida da dramaticidade de um filme com um tema tão forte – especialmente a preparação do pequeno Goffin, que faz uma das vítimas.
“Trabalhamos com os pais dele e planejamos tudo em conjunto. Como enfermeira de saúde preventiva, eu dispunha de recursos adequados para crianças, incluindo livretos para conversar sobre o corpo. Então, Ulysse perguntou: ‘O que o pai fez?’. Respondemos de forma bem simples: ‘Ele tocou nas partes íntimas do filho. Isso é contra a lei’. Ulysse respondeu: ‘Tá bom!’ e foi só isso”, recorda a diretora.
Myriem Akheddiou, por sua vez, contribuiu diretamente na construção da personagem após dizer que a via como uma loba protegendo os filhotes. “Reescrevemos então algumas partes do roteiro, introduzindo discretamente características animalescas na fisicalidade, no comportamento e até mesmo em parte dos diálogos da personagem. As cenas físicas antes e depois das audiências passaram gradualmente a ser concebidas como uma relação entre predador e presa, cujo equilíbrio vai se transformando ao longo do filme”, conta o diretor.
Charlotte Devillers e Arnaud Dufeys, na estreia do filme no Festival de Berlim (Crédito: Divulgação/Berlinale)
Já para o trio de advogados em cena, os cineastas convidaram advogados reais, Alisa Laub, Marion de Nanteuil e Mounir Ben-Naoum. Eles foram chamados, primeiro para trazer um olhar experiente sobre o assunto, e também para alcançar rapidamente a autenticidade.
“Filmar com eles acabou sendo surpreendentemente simples. Pedimos especificamente que não decorassem um roteiro. Em vez disso, entregávamos as partes relevantes do caso e deixávamos que preparassem seus argumentos da forma como fariam naturalmente em sua prática profissional. Como filmamos todas as sequências do tribunal em tempo real, utilizando um esquema de três câmeras, os advogados podiam fazer suas sustentações de maneira espontânea, enquanto os atores seguiam seus diálogos roteirizados. Isso criou uma sensação de imprevisibilidade”, explica Dufeys.
Nós acreditamos em vocês fez sua première mundial no Festival de Berlim de 2025 e, desde então, estreando em diversos países e gerando debates, além de conquistar prêmios.
“Creio que seja um filme importante — importante para as vítimas. Testemunhamos isso pessoalmente após as exibições em Berlim, e durante a exibição em festivais e nas salas de cinema. Sempre que havia debates, as pessoas se manifestavam. O filme, que dá a todos a oportunidade de falar, também concede voz às vítimas após as sessões. Ele também permitiu que profissionais se envolvessem com o tema, especialmente em contextos de treinamento”, conclui Devillers.
