29/07/2026

“É preciso encarar de frente o racismo do meu país”, diz argentina Lucrecia Martel

Lucrecia Martel no 2o FID:RIO, no qual fala sobre seu documentário Nossa Terra (Crédito: Julliana Costa/Divulgação)

A cineasta argentina Lucrecia Martel é categórica ao falar do racismo em seu pais. “O racismo não é detectado apenas na palavra, mas, em especial, nas ações, no rompimento com o direito dos cidadãos”, diz em entrevista ao
Cineweb por vídeo direto do Rio de Janeiro,
onde ela participa do FID:RIO – Festival Internacional de Artes e Cinema de Não Ficção do Rio de Janeiro. O festival acontece até o próximo domingo (02), e apresenta o documentário Nossa Terra, dirigido por Martel, e que também está disponível na Netflix.

O longa, que estreou no Festival de Veneza de 2025, parte do assassinato de Javier Chocobar, líder da comunidade indígena Chuschagasta, em 2009, durante um conflito por terras na província de Tucumán, noroeste da Argentina. Martel resgata essa história por meio de material de arquivo e entrevistas, acompanhando o julgamento dos culpados, algo que levou anos para acontecer.

“Esse é um crime de racismo contra os povos indígenas, e fazer um filme sobre Chocobar é abordar isso, o desrespeito tão enraizado na cultura argentina. É, também, falar a herança colonial que marca toda a América Latina”, explica. “É preciso encarar o racismo de frente, só assim o problema poderá ser superado.”

Ela lembra dos episódios recentes, na Copa do Mundo, em que surgiu uma espécie de reação internacional contra a Argentina, por conta de episódios claramente racistas de parte da torcida. “Isso foi um fenômeno de comunicação impressionante. Muitos argentinos se sentiram ofendidos, mas não deveriam se ofender, e, sim, refletir porquê as pessoas diziam isso. Um jornalista então disse que ‘a Argentina é o país menos racista do mundo’. O que é isso? Não há qualquer mérito em ser ‘o país menos racista do mundo’, é um país racista e pronto. E isso precisa ser encarado.”

Ela conta que, quando começou a trabalhar no roteiro com María Alché, pesquisou o que a comunidade Chuschagasta precisava fazer para retomar sua terra, e ficou impressionada com o nível da burocracia com o qual deveriam lidar. “Isso ocupa uma parte enorme da vida de uma pessoa. Esse é o poder do Estado: obrigar as pessoas a desperdiçar um tempo imenso. Acho que a sociedade inventou a burocracia justamente para impedir que elas obtenham o que querem, o que precisam, mesmo quando têm toda a documentação que comprova essa necessidade.”

No longa, a cineasta retrata a luta do povo Chuschagasta (Crédito: Divulgação)

Martel aponta tanto o crime, quanto o roubo da terras, como uma herança colonial, um processo no qual a Igreja Católica teve um papel fundamental. “As elites da América Latina souberam usar o poder do cristianismo católico para que as pessoas aceitassem a pobreza como uma virtude. Agora, a ordem está mudando, embora a opressão e exploração continuem e o protestantismo pentecostal mostra justamente a riqueza como a virtude.” É uma cultura, diz ela, que está enraizada na nova direita, propagada por figuras como Javier Milei e Jair Bolsonaro, de que “a riqueza não tem relação com o trabalho.”

Lidar com o tema da dizimação dos povos originários não é simples numa sociedade marcada por essas características, por isso, fazer Nossa Terra foi bater de frente com padrões tanto cinematográficos quanto sociais. “O governo de Milei sempre lança suspeitas sobre a indústria cinematográfica argentina, por isso tem se tornado cada vez mais complicado fazer filmes no país.”

Ainda assim, ela aponta que realizar o longa foi recompensador, pois a levou a lugares que desconhecia e a colocou em contato com um público novo. “Esse é o meu filme de maior repercussão. Mesmo com todas as dificuldades para fazê-lo e se lançá-lo na Argentina, chegou a um público ao qual meus outros trabalhos nunca chegaram.”

Atualmente, Martel está escrevendo um novo trabalho de ficção, e conta que Nossa Terra a transformou enquanto cineasta. “Já não sou mais a mesma, mudei, mas ainda não sei o quanto ou como isso é algo que só compreenderei com o tempo. Talvez só quando o novo longa estiver pronto.”

Para mais informações sobre o FID:RIO – Festival Internacional de Artes e Cinema de Não Ficção do Rio de Janeiro, acesse: https://fid-rio.com/2026/