01/08/2026

“Margeado” retrata uma vila de pescadores depois de tragédia ecológica

Personagens enfrentam tragédia ecoloógica em Margeado (Crédito: Renato Ogata/Divulgação)

Margeado, em cartaz nos cinemas, é um filme de um tempo próprio. Nas palavras de seu diretor e roteirista, Diego Zon, “é aquele tempo da cadência da natureza, mais do que o da ação humana.”
E isso fica evidente a todo momento.

A tensão dialética existente no filme é exatamente mediada pela intervenção humana na natureza, o que, aliás, dá o centro da narrativa: uma vila capixaba de pescadores precisa enfrentar grandes transformações quando uma barragem no Rio Doce estoura, contaminando as águas de onde tiram o sustento.

Zon, que nasceu em Linhares, no norte do estado, conhecida como a cidade das águas e dos lagos, explica que o local é composto por duas vilas – uma delas como aquela retratada em Margeado. Em 2015, ele tinha filmado um curta sobre a vida e o trabalho de pescadores, Das águas que passam, quando a barragem do Fundão rompeu em Mariana (MG).

“Quando aconteceu isso, voltei à vila, para reencontrar as pessoas, ver como estavam, e percebi que a vida havia mudado radicalmente. Diferente de Mariana, eles tiveram um tempo para se preparar até a lama chegar ali, mas mesmo assim, o que fazer? Como se preparar para isso? Não tem como evitar o desastre. É muito doloroso.”

Margeado nasce exatamente dessa dor, de personagens que perdem o rumo diante da tragédia contra a natureza, que lhes tira o sustento. “Esse sentimento invadiu a vida das pessoas, ao mesmo tempo que precisavam encontrar novas maneiras para sobreviver. Queria explorar no filme como as pessoas carregam isso com elas.”

O cineasta Diego Zon, no set do filme (Crédito: Divulgação)

Os dois personagens centrais do longa são Dingue (Danilo Andrade) e Yara (Verônica Gomes), dois jovens cujas vidas são marcadas pelas memórias de antes da calamidade ecológica e pela busca no presente. “Eu queria muito um elenco de capixabas, e eles dois já eram atores, mas nunca tinham trabalhado no cinema. E trouxe também atores não profissionais.”

Um papel de destaque, no entanto, pertence a um veterano, Antônio Pitanga, numa participação especial marcante. Zon define o personagem como alguém que “semeia uma projeção da história do próprio Pitanga. Não tinha como ser outro ator, e ele foi muito generoso em topar participar do nosso filme, e trouxe muito de si para Margeado.”

Já formalmente, o longa mimetiza a cadência do rio, dilatando um tempo muito particular. O próprio título do filme só aparece na tela depois de cerca de meia hora, quando a lama chega à vila, dividindo o rio em duas partes, uma azul cristalina e outra marrom.

“Depois da catástrofe, o rio continua a correr. Como a realidade já estava dada, minha intenção, no filme, foi romper com o naturalismo e propor algo quase espiritual da relação das pessoas com o rio, tratar de forma sutil, num caminho menos direto”, explica.

Nesse sentido, que aproxima o longa de um realismo mágico, as águas fazem uma espécie de caminho inverso ao curso natural. A nascente do rio, nas montanhas em Minas Gerais, representam o final. “Simbolicamente, é a busca pelo passado, retomar laços de afeto rompidos, reencontrar as pessoas num tempo de mais amor.”