Holandês Leo Alkemade transforma experiência triste numa comédia delicada
- Por Alysson Oliveira
- 05/08/2026
- Tempo de leitura 6 minutos
Leo Alkemade e Huub Stapel, em cena de Champagne – Uma viagem de pai e filho (Crédito: Divulgação/Autoral Filmes)
Alguns anos atrás, o ator, comediante, roteirista e cantor holandês Leo Alkemade planejava uma viagem de carro com o pai para a região de Champagne, na França. Porém, o pai, doente, não pode viajar, mas insistiu para que Alkemade fizesse o trajeto sozinho.
Dessa experiência nasce Champagne – Uma viagem de pai e filho, que chega aos cinemas brasileiros nessa quinta (6).
Alkemade, que assina o roteiro com Rik van den Bos e atua como o filho, imaginou como essa viagem poderia ter sido, e lá mesmo começou a escrever o roteiro. “No fim das contas, a primeira versão do roteiro foi escrita na mesma suíte onde acabamos filmando aquelas cenas”, diz em entrevista ao Cineweb.
Abaixo, a entrevista completa.
Como se sabe, o filme nasce de uma perda pessoal — especificamente, uma viagem que você teve de fazer sozinho, mas que originalmente planejara fazer com seu pai. Qual foi a importância de transformar essa experiência em um filme?
A viagem que nunca cheguei a fazer com meu pai, acabei fazendo sozinho. No dia em que fui buscá-lo para viajarmos à região de Champagne, ele se sentiu fraco demais para ir comigo e insistiu para que eu fosse sem ele. Pediu-me que trouxesse algumas garrafas lindas para que pudéssemos apreciá-las juntos mais tarde.
Durante a viagem, peguei-me pensando no significado daquela jornada e imaginando como teria sido se ele estivesse lá. Ao chegar ao hotel, abri meu laptop e comecei a escrever a história exatamente como a havia imaginado: a viagem que deveríamos ter feito juntos. No fim das contas, a primeira versão do roteiro foi escrita na mesma suíte onde acabamos filmando aquelas cenas.
O personagem do ator Huub Stapel é muito parecido com o seu pai? Ou você fez alterações significativas? E como foi trabalhar com Stapel?
O personagem de Huub Stapel é fortemente inspirado no meu pai. Muitos de seus traços de personalidade foram incorporados ao filme. Huub é um ator extraordinário e frequentemente me perguntava: "Como seu pai teria feito isso?", pois queria ser o mais fiel possível a ele. Foi lindo presenciar isso, mas, às vezes, também uma experiência desafiadora e profundamente emocionante. Após uma de nossas filmagens noturnas, Huub veio até mim e disse: "Leo, acho que este é o papel mais lindo que já interpretei". E acredito que ele tinha razão.

Alkemade e Stapel, como filho e pai na ficção (Crédito: Divulgação/Autoral Filmes)
Qual foi a importância de contar com Rik van den Bos no roteiro? Por que você decidiu trazer alguém de fora para ajudar a contar essa história?
Rik van den Bos é um grande amigo desde os tempos de estudante. Ele é um roteirista excepcionalmente talentoso e também conhecia bem meu pai. Parecia importante ter alguém como o Rik lendo o roteiro e colaborando comigo para elevar a história e garantir que ela funcionasse do ponto de vista dramático. Ele possui um talento incrível para diálogos e narrativa dramática.
Como você foi a escolha de Tim Kamps para dirigir o filme? E como foi a colaboração com ele?
Já trabalhei com Tim Kamps muitas vezes, principalmente em produções de comédia. Entreguei o roteiro a ele em um estágio bem inicial, e ele se conectou imediatamente com a história. Nunca duvidei de que ele era a pessoa certa para dirigir o filme. Ele tem um timing excepcional e cria imagens verdadeiramente lindas. Um de seus maiores pontos fortes é a capacidade de deixar a comédia surgir naturalmente de dentro do drama.
Seu longa aborda profundamente a conexão humana e as emoções — em um momento em que o mundo parece enfrentar uma crise de afetividade e uma onda de cinismo. Qual é a importância de um filme assim no cenário atual?
Acho que todos sentimos que o mundo pode ser um lugar bastante duro nos dias de hoje. Tudo acontece tão rápido, todo mundo tem uma opinião e, muitas vezes, há muito cinismo. É exatamente por isso que acredito que histórias sobre pessoas que realmente tentam se encontrar são tão importantes. Champagne – Uma viagem de pai e filho não é um filme que finge que tudo é lindo ou fácil. Muito pelo contrário. Mas ele mostra que sempre há espaço para compreensão, perdão e amor, mesmo quando a vida se complica.
Espero que o público saia do cinema não apenas comovido, mas talvez também olhando para si mesmo — e para o outro — com um pouco mais de gentileza. Se um filme consegue fazer isso, acredito que já alcançou algo significativo.
Você transita por diversas formas de arte e é um artista muito querido em seu país, conhecido especialmente pela comédia. Como foi para você trabalhar em um filme marcadamente dramático — ainda que contenha elementos cômicos?
Para mim, comédia e drama estão muito mais próximos do que as pessoas às vezes imaginam. O melhor humor muitas vezes nasce da dor, do desconforto ou da vulnerabilidade. E, por sua vez, uma cena dramática pode se tornar ainda mais poderosa quando há espaço para um momento de riso. Nunca senti que estava falando uma língua completamente diferente. A história ainda era sobre pessoas e emoções humanas genuínas. Desta vez, no entanto, a ênfase estava mais no silêncio, na vulnerabilidade e na jornada emocional dos personagens. Achei incrivelmente gratificante explorar isso.
O filme fez enorme sucesso na Holanda; como você acha que ele se conectou com o público de seu país? E como imagina que será recebido no Brasil?
Acho que o público holandês se reconheceu nos personagens — não porque tenham vivido exatamente as mesmas experiências, mas porque as emoções são universais. Todos conhecem a perda, a saudade, a família, o amor e a complexidade das relações humanas. O sucesso do filme na Holanda me mostra que as pessoas ainda anseiam por histórias honestas e sinceras.
Quanto ao Brasil, acho incrível que o filme tenha a oportunidade de chegar ao público daí. Claro, nossas culturas são diferentes, mas as emoções não reconhecem fronteiras nacionais. Estou muito curioso para ver como o público brasileiro reagirá ao filme, e se poderá descobrir camadas diferentes ou se conectar com aspectos distintos daqueles que o público holandês percebeu. Essa é uma das coisas maravilhosas do cinema: uma história profundamente pessoal pode, de repente, tornar-se algo universal.
