06/06/2026

Roberto Gervitz recria universo de Cortázar no metrô paulistano

Roberto Gervitz contrói história de amor insólita no metrô paulistano, a partir de Julio Cortázar
Dezessete anos separaram Feliz Ano Velho (1988) de Jogo Subterrâneo, este o novo filme dirigido por Roberto Gervitz, que estréia em 1o de abril em São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília, Belo Horizonte e Recife. Entre um e outro trabalho, o cineasta experimentou as dificuldades que paralisaram todo o cinema brasileiro, entre o final da Embrafilme, decretado pelo então presidente Fernando Collor, e a retomada que recuperou a produção, a partir de 1994.

Em entrevista exclusiva em São Paulo, Gervitz lembra o quanto era antigo o projeto de filmar Jogo Subterrâneo, uma livre adaptação do conto Manuscrito Encontrado em um Bolso, do livro Octaedro, do escritor argentino Julio Cortázar. Uma primeira versão do roteiro existia já em 1989, quando o diretor pensava em filmá-lo, na seqüência da boa acolhida de Feliz Ano Velho, adaptação do bestseller de Marcelo Rubens Paiva que foi vista por um milhão de espectadores. Por que Julio Cortázar? Ele explica: “Em 1980, eu tinha lido toda a obra do Cortázar. Aquela história tinha ficado dentro de mim”.

Trabalhando neste intervalo em publicidade e documentários institucionais – como o projeto Gente que Faz -, Gervitz só foi retomar a história entre 1996 e 1997. De lá para cá, duas novas versões inteiramente diferentes do roteiro foram elaboradas a quatro mãos por Gervitz e Jorge Durán (chileno premiado pelo filme A Cor do seu Destino). Sem contar outros sete tratamentos dados durante a produção. O enredo conta a história do pianista da noite Martin (Felipe Camargo), que inventou um jogo para conhecer uma mulher no trajeto das linhas de metrô. Ele mesmo acaba traindo as regras para envolver-se com a misteriosa e imprevisível Ana (Maria Luísa Mendonça). No elenco, estão também Daniela Escobar, Julia Lemmertz, Maitê Proença e a menina Thávyne Ferrari.

Até Gabriel García Márquez acabou dando uma mãozinha para a realização de Jogo Subterrâneo. Gervitz o havia conhecido durante um workshop de roteiro em Cuba, em 1989. O premiado escritor colombiano, por coincidência, era representado pela mesma agente que negocia os direitos da obra de Cortázar. “Como o Márquez era a galinha dos ovos de ouro dessa agente, ele acabou ligando para ela, para ajudar a baratear um pouquinho essa compra”, conta.

O desafio seguinte foi montar a logística da filmagem, realizada quase inteiramente dentro do metrô paulistano – certamente, é o filme que passa mais tempo dentro dele já visto até aqui no cinema brasileiro. É Gervitz quem descreve: “Foram seis semanas de filmagens noturnas.Um trabalho enorme, que tinha de ser feito com uma eficiência e uma rapidez muito grandes. O metrô pára de funcionar à 0h20, mas há trens andando nas linhas até 0h40. E a gente tinha de sair de lá no máximo às 4h30, porque às 4h40 já estavam entrando passageiros. Só tínhamos essas quatro horas”.

Para dar conta dessa filmagem, o diretor planejou com sua equipe todos os detalhes – “como se fosse para uma guerra”, observa. Assim, desenhou plano a plano as cenas do metrô, em story boards, para que nada saísse do esperado, iluminação, figurinos, continuidade, etc. E isto com seqüências que às vezes tinham 600 figurantes em cena, reproduzindo o funcionamento normal do metrô.

Para o diretor, porém, o maior desafio foi “obter alma e homogeneidade nas atuações”. Com este objetivo, ele ensaiou dois meses com os atores e acredita ter conseguido o tom que pretendia para o que ele chama de “fábula moderna”.