Hirokazu Kore-Eda filma crianças numa história de sobrevivência
Um dos maiores diretores atuais do Japão, Hirokazu Kore-Eda chega ao quarto filme, trocando o tema da morte pelo da luta pela vida, segundo o olhar de crianças.
- Por Neusa Barbosa
- 14/04/2005
- Tempo de leitura 6 minutos
Cineweb - Seus filmes anteriores falavam de morte. Este é muito diferente. Gostaria que comentasse essa mudança de tema.
Kore-eda – Nos meus últimos filmes, eu não falava da morte diretamente, mas de múltiplos aspectos relacionados com ela. Neste filme, há crianças e eu procuro salientar aspectos positivos de uma situação muitas vezes aflitiva. Meus personagens tentam ser positivos e sobreviver, era isso que pretendia destacar. Se consegui isto, fico satisfeito.
Cineweb - Como foi o casting e o trabalho com os atores infantis?
Kore-eda – Na escolha, usei um processo de testes. Trabalhei com os garotos individualmente e em grupos, fiz vários ensaios. Deixei que a minha intuição me guiasse sobre o melhor método a seguir. O mais difícil foi Hiei Kimura (que faz o personagem Shigeru). Ele não respondia a nenhuma das minhas perguntas. Dizia simplesmente: “Não posso lhe contar isto”. Além do mais, era muito inquieto. Mas ele era muito interessante diante da câmera. Mas eu me questionava se ele teria a concentração necessária para permanecer nas filmagens até o fim. Até que eu lhe perguntei diretamente: “Você acha que pode fazer isto ?”. E ele respondeu que sim e confiei nele. Acho que tudo funcionou bem também porque as crianças tiveram um período de adaptação. Durou dois meses, o que é bastante longo.
Cineweb - As crianças de algum modo colocaram uma nova perspectiva em seu trabalho?
Kore-eda – Foi muito interessante trabalhar com crianças porque de muitas formas elas são muito inesperadas. Fiquei filmando com elas um ano, o que é uma maneira muito anticonvencional de fazer um filme. Na verdade, foi uma forma muito peculiar de fazê-lo, porque eles não sabiam a história desde o princípio, não havia roteiro para eles. Eu ia lhes sussurrando suas falas, conduzindo. Neste sentido é que foi muito anticonvencional. Mas, afinal de contas, mesmo não sendo fácil, cheguei à conclusão de que as crianças são muito mais flexíveis do que adultos.
Cineweb - Como assim?
Kore-Eda – A mãe, neste filme, é muito infantil. Ela age como criança. Por outro lado, o filho mais velho, Akira, está procurando agir como adulto, assumir responsabilidade. Então, não sabemos se a mãe vai assumir as suas responsabilidades e também manter suas promessas. Ela sai um dia prometendo voltar e não sabemos se fará isto. Akira, por outro lado, promete aos irmãos levá-los para ver o avião e cumpre o prometido. Mas o que eu pretendia não era tanto mostrar este contraste entre as formas como adultos e crianças lidam com suas promessas, nem traçar uma linha entre adultos e crianças, mas sim mostrar pressão que se tem de suportar para realmente mantê-las.
Cineweb - Então, o sr. é pessimista em relação aos adultos e somente otimista em relação às crianças? Porque parece não haver nada positivo no caráter dos adultos no filme.
Kore-eda – Realmente, não vejo esta situação do filme como otimista. A pergunta que realmente quero colocar à platéia é como essas crianças conseguem viver sem que ninguém saiba da existência delas. Não quero julgar a mãe, dizer que ela é terrível, nada disto. Quis retratar de um modo bem realista como é que essas pessoas vivem, tanto a mãe, como a senhoria do prédio, o gerente da loja de conveniência. Todos eles são muito típicos e é isto que leva as pessoas a pensarem que tudo isso realmente acontece, dar-se conta do risco de que isso realmente aconteça numa cidade como Tóquio, na vida real. Mesmo assim, não gostaria que isto fosse encarado como muito pessimista.
Cineweb - Seu filme pretende mostrar que o Japão moderno seria menos familiar do que era tradicionalmente?
Kore-eda – Quando fiz o filme, não estava pretendendo realmente mostrar: “Isto é o Japão moderno”. Claro que acho importante retratar uma situação na Tóquio atual que me afetava. Mas de modo nenhum quis colocar isso em contraste com o comportamento tradicional para dizer que está errado. Falando de um diretor tradicional, como Ozu, ele não tinha a intenção de mostrar como era a sociedade japonesa mas, como resultado de ele fazer seus filmes, isso naturalmente transparecia. Então, quando isso aparece nos filmes, não é que seja intencional, também no meu caso.
Cineweb - Por que resolveu filmar em Tóquio?
Kore-eda - Nasci na cidade, cresci aqui, moro nela há 40 anos, então ela é muito conveniente. Mas ao mesmo tempo é muito frágil, então isso se reflete no relacionamento das pessoas. Há muitas pessoas que só se interessam por elas mesmas. Este é background social que paira sobre tudo e as crianças caem nesta rede. Mas não era bem no caso do menino que é deixado sozinho e tem de cuidar dos irmãos que eu estava interessado quando resolvi filmar esta história. Apesar de tudo, ele estava procurando apoiar e proteger sua família. Ao mesmo tempo, as pessoas em torno dele estão procurando fugir à sua responsabilidade como a mãe, o pai, etc. Então, embora esta seja uma família questionável, ele ainda estava tentando proteger sua família. Era isto o que me interessava.
Cineweb - Gostaria que falasse um pouco sobre a música neste filme, até porque o sr. a usa bem mais do que nos seus filmes anteriores. E também sobre a canção inteira (que aparece na cena em que os meninos tomam um metrô).
Kore-eda – A decisão de usar mais música veio junto com a de que o elenco principal seria de crianças. Isto foi um desafio para mim porque nunca o havia feito em nenhum outro filme antes. A canção que usamos inteira na cena do metrô (chamada Jewel) foi cantada na verdade pela própria cantora que interpreta a atendente da loja de conveniência, Takako Tate. Ela é uma cantora na verdade, mas eu a encontrei na etapa de testes e a convidei para atuar. Só depois tomei conhecimento de sua canção. É uma canção muito boa, porque descreve os sentimentos do menino. Creio que a percepção dela deve ser bem diferente no Japão – onde a audiência pode apenas ouvi-la – e no exterior, onde aparecem legendas da letra, enfatizando seu significado. De toda maneira, o que eu queria transmitir aqui, no final da canção, é esta sensação de segurança, de proteção, é como se Akira sentisse uma série de mãos sobre ele, apoiando-o. Através da canção, eu queria colocar meus braços em torno dele. Era algo que eu queria fazer e a canção o faz por mim. Sei que algumas pessoas julgarão que a música não era necessária. Mas eu queria enfrentar este desafio neste filme.
