06/06/2026

Diretor de “Mondovino” destaca as paixões por trás da produção do vinho

Cineasta com passado de sommelier, Jonathan Nossiter coloca em questão o conflito entre a busca de um sabor global do vinho e a luta pela individualidade na produção de vinicultores em vários países, inclusive o Brasil.
Bem antes de Sideways – Entre Umas e Outras, do diretor americano Alexander Payne, levantar polêmica e paixão, um outro filme sobre vinhos já havia despertado emoções em pleno Festival de Cannes, em maio de 2004. Tratava-se de Mondovino, documentário de outro americano, Jonathan Nossiter, que entrou de última hora na competição principal pela Palma de Ouro. Mesmo não levando prêmios, conquistou admiração geral pela profundidade e leveza com que abordava a cultura vinícola na Itália, França, EUA, Argentina, Chile e até no Brasil. O filme estréia em São Paulo, Rio de Janeiro e Porto Alegre no dia 6 de maio.

Confesso cidadão do mundo, que cresceu entre França, Itália, Grécia, Inglaterra e Índia, Nossiter passou a viver no Brasil em janeiro de 2005. Casado com a fotógrafa paulista Paula Prandini, ele tem duas filhas gêmeas, Miranda e Capitu, recém-nascidas no Rio de Janeiro, onde a família reside. Nossiter conta, em entrevista exclusiva, num português bastante fluente, que seu caso de amor com o Brasil começou no ano de 2000. Nesse ano, visitou pela primeira vez o país já na condição de cineasta, convidado pela Mostra Internacional de São Paulo, que exibiu seu filme Signos e Desejos, estrelado pela atriz Charlotte Rampling. “Fiquei enlouquecido pelo Brasil, antes mesmo de conhecê-lo bem.Vi aqui uma cultura que parecia conter o melhor da Europa e da América, de um jeito muito simples e completamente original”, recorda.

Fazer um filme sobre vinhos para quem, como ele, tem um diploma de sommelier e trabalhou profissionalmente nesta área parece uma escolha natural. Mas não foi bem assim – tanto que, antes de Mondovino, ele realizou três outros filmes sobre outros assuntos. O diretor conta que, por muito tempo, amigos o pressionaram para que fizesse um filme na área que ele conhecia tão bem, mas ele resistia. “Achava que iria trair o vinho se fizesse um filme cheio daquela falação pretensiosa insuportável que tantas vezes contamina esse mundo. Tinha medo de não conseguir exprimir a complexidade humana por trás de tudo isso”, justifica.

Foi numa viagem com o cineasta uruguaio Juan Pittaluga que Nossiter acabou encontrando, na Borgonha, o personagem que o convenceu da viabilidade do filme: o vinicultor Hubert de Montille. Dono de uma pequena propriedade na tradicional Borgonha, Montille mantém-se apegado à individualidade dos sabores de seus vinhos, recusando-se a homogeneizá-los para conquistar um público maior, como fazem vários de seus colegas, com a assessoria de consultores. Em outras palavras, Montille recusa-se à globalização, uma atitude que tem a simpatia do cineasta. “A maior expressão da beleza do vinho é a idéia da identidade. Cada pedaço de terra tem sua história singular. Tanto um vinho do Vale do São Francisco, em Pernambuco, que tem uma história de apenas 19 anos, quanto um terroir cultivado há séculos na França ou na Itália. Cada um deles tem sua dignidade”. O cineasta destaca que não fez Mondovino para os experts, os enólogos. Por isso buscou uma linguagem acessível e que evidenciasse as ligações da cultura do vinho com a história, a família e o prazer de viver. “Ao mesmo tempo que por trás do vinho há uma idéia muito simples, seu mundo tem a intensidade do drama. Tive a sorte de poder mostrar isso porque achei personagens reais tão bons quanto os do cinema narrativo, com tensões familiares tão fortes e complexas, amores que se exprimiam pela terra. Este é, para mim, o terreno do cinema”.

Quanto às suas admirações no cinema brasileiro, Nossiter não hesita: é fã ardoroso do diretor Nelson Pereira dos Santos. “Queria um dia fazer um filme tão engraçado e humanista quanto Como Era Gostoso o meu Francês. Seu próximo projeto, que será feito no Brasil, será um filme de ficção, que deverá ter no elenco os internacionais Charlotte Rampling, Irène Jacob (a estrela de A Fraternidade é Vermelha, de Krzysztof Kieslowski) e Stellan Skarsgaard (de Dogville). Nossiter não definiu ainda como será esse roteiro. Só tem claro seu método de trabalho: “Quero fazê-lo com a mesma liberdade com que fiz Mondovino.