06/06/2026

Andrucha Waddington faz em “Casa de Areia” seu filme mais pessoal

Em seu quarto filme, Casa de Areia, o diretor carioca Andrucha Waddington dá início a uma trajetória mais autoral. Deixando de lado a inspiração de Nelson Rodrigues, de cuja obra extraiu seu longa de estréia, Gêmeas (99), passando por uma saborosa comédia de costumes em Eu Tu Eles e um musical, Viva São João, aos 35 anos o cineasta dá sinais de que ambiciona vôos maiores.

O projeto de Casa de Areia começou com uma simples foto, que mostrava uma casa encoberta por uma duna. A foto foi vista no Ceará pelo produtor Luiz Carlos Barreto, que deu a Andrucha a idéia de desenvolver um enredo a partir desse ponto de partida mínimo. “Ele me dizia: ‘Esse filme é a tua cara’”, recorda-se Andrucha, em entrevista exclusiva. Conversando com Barreto, o cineasta quis saber mais detalhes, como quem morava na casa da foto. Tratava-se de uma mulher que ali morou a vida toda. Quando ela morreu, o lugar foi engolido pelo areal. Andrucha sonhou com a história e escreveu o argumento inicial, desenvolvido em parceria com Barreto e Elena Soárez, que também trabalhara em Gêmeas e Eu Tu Eles e acabou sendo a roteirista da versão final.

Uma história assim poética dependia fundamentalmente do elenco. O cineasta frisa que, desde o começo, o projeto foi feito tendo em vista “as duas Fernandas”, ou seja, Fernanda Torres, sua mulher, e Fernanda Montenegro, sua sogra. Que, além de duas atrizes de talento reconhecido, mostraram-se parceiras inestimáveis por suas sugestões e pela capacidade de enfrentar situações adversas no set, ambientado na paisagem bela mas árida dos Lençóis Maranhenses.

Gastou-se dois anos no estudo das locações. Depois, foi necessário o planejamento de toda uma logística para filmar 12 semanas dentro um parque nacional preservado pelo IBAMA, mantendo a sede das operações em Santo Amaro, uma vila de 1.900 habitantes a quase cinco horas de distância de São Luís do Maranhão. Para o preparo desta estrutura, Andrucha fez nada menos de 12 viagens, antes de começar a rodar. “Meu desafio era trabalhar nas paisagens mais bonitas que vi na vida e não transformá-las num filme turístico”, observa o diretor.

O forte sol da região também era um fator de preocupação para os iluminadores. Por isso, começava-se a filmar por volta das 6h30 da manhã. Mas, como recorda Andrucha, entre as 10h e as 14h, o calor era muito violento. “Era preciso proteger especialmente as atrizes. Essa luz muito dura ressalta as olheiras nas mulheres”. Cada dia de filmagem era uma luta contra a natureza. A equipe tinha que estar sempre preparada para filmar em cada situação, sob sol, chuva ou tempo nublado, para não estourar o prazo das filmagens, que foi de 12 semanas.

A produção dispunha de uma frota de 23 carros, mas em alguns dias só 7 funcionavam, apesar do permanente funcionamento de uma oficina instalada ali mesmo. O expediente do diretor era longo: filmava 12 horas por dia, depois esticava mais 8 na produção. Dormia não mais do que 3 horas por noite. “Foi o maior desafio que enfrentei até hoje”, confessa. Quanto à história, o cineasta descreve-a como “a fábula de um homem que leva a mulher para um lugar como se fosse a lua”. A mulher, no caso, é Áurea (Fernanda Torres), levada grávida, junto com sua mãe (Fernanda Montenegro), pelo marido Vasco (Ruy Guerra) para uma aventura num lugar que ele acredita próspero, mas vira uma armadilha para todos. A presença do veterano cineasta Ruy Guerra no set, nas duas primeiras semanas de filmagem, também é comemorada por Andrucha: “Foi maravilhoso tê-lo ao meu lado, passando toda aquela sua energia. Ele tem o vigor dos cineastas mais jovens no que faz”.

No elenco, estão igualmente dois músicos: seu Jorge e Luiz Melodia, que interpretam o mesmo personagem, Massu, na juventude e na maturidade. De qualquer modo, haveria um músico no elenco. Se tivesse vingado uma idéia inicial, de que a vila do filme fosse uma comunidade de albinos, pela vontade de Andrucha o pai de Massu seria interpretado por Hermeto Paschoal.