06/06/2026

Fernando Trueba filma declaração de amor ao jazz latino

Uma das grandes atrações desta edição do É Tudo Verdade - 7O Festival Internacional de Documentários, o musical espanhol Rua 54, de Fernando Trueba, está para o jazz latino assim como Buena Vista Social Club, de Wim Wenders, para a velha guarda da música cubana - ou seja, revela-se uma oportunidade de ouro para um retrato de toda uma riquíssima vertente musical que a grande indústria fonográfica quase nunca sabe valorizar.

Filmado com uma sofisticação visual e sonora, que passa ao largo do videoclipe e do concerto televisivo, pelo mesmo diretor que venceu o Oscar de melhor filme estrangeiro em 1994 com Sedução (Belle Époque), o trabalho alinha alguns dos maiores nomes deste gênero muito diversificado, em timbres e nacionalidades, inclusive a pianista brasileira Eliane Elias, a única mulher instrumentista da fita.

A presença brasileira, porém, não se esgota aí. A lembrança de Glauber Rocha e um de seus personagens mais marcantes, o Antonio das Mortes, personagem de Deus e o Diabo na Terra do Sol (64) e O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro (1969), é evocada com sincera saudade pelo saxofonista argentino Gato Barbieri. O também brasileiro Pernell Saturnino, percussionista, acompanha o saxofonista cubano Paquito D'Rivera, que abre este vibrante desfile musical, cuja apaixonada arquitetura o cineasta espanhol decifra neste entrevista exclusiva a Cineweb. Nascido em 1955, Trueba, aliás, é casado com uma brasileira, além de um profundo conhecedor da nossa música e fã de Caetano Veloso.

Cineweb - Por que decidiu fazer este musical, tão diferente de seus filmes anteriores?
Fernando Trueba - Na realidade, porque acho que se deve fazer aquilo em que se acredita e não o que os outros querem. Quando comecei a falar de minha intenção de fazer esta película, ninguém entendia. Diziam-me: "Por que você quer fazer um filme sobre jazz latino? Isto não é cinema...". E eu insistia que sim, que isto é cinema, isto é música e pode ter tanta emoção ou mais do que um filme de ficção. Por que não? Então, este foi um ato de fé e de amor a esta música. Apenas levei algum tempo para convencer as pessoas que um filme assim era possível de ser feito.

Cineweb - Quanto tempo levou para convencer os produtores?
Trueba - Cerca de dois anos. Acho que muitas vezes as pessoas não crêem que você vá realmente adiante com um projeto até que você comece. Foi o que fiz. É verdade que se trata de um filme imprevisto, embora seja tão pessoal quanto qualquer outro. É uma fita que pretende convidar as pessoas a compartilhar das coisas de que gosto. No final das contas, um filme é sempre isso. Há uma história que te agrada, que é divertida ou te impressiona e que você deseja dividir com os outros. É como levar as pessoas para jantar no teu restaurante favorito ou cozinhar para elas em sua casa.

Cineweb - Como surgiu esse interesse pelo jazz em geral e pelo jazz latino em particular?
Trueba - Sempre gostei de jazz desde jovem - Art Tatum, Bill Evans, Ben Webster. Mas quando ouvi pela primeira vez um disco de Paquito D'Rivera que um amigo me deu foi uma revolução para mim. Comecei a pesquisar o gênero e acabei tornando-me um grande fã, bem como amigo de alguns dos músicos. Quando filmei Quero Dizer que Te Amo (1995), coloquei a música de Michel Camilo, mas tocavam também Cachao, Paquito D'Rivera...

Cineweb - O jazz latino é o seu gênero musical favorito?
Trueba - Sou muito aberto em termos de gosto. Me agradam muitos gêneros de música. Na verdade, gosto de vários músicos. Gosto de Jobim, Caetano, Chico Buarque, Gilberto Gil. Isto não quer dizer que goste de toda a música brasileira. O mesmo acontece com o jazz e com o jazz latino. Retratei alguns de seus representantes e muito variados.

Cineweb - O senhor não quis, então, fazer nenhuma declaração teórica sobre música.
Trueba - Queria que o filme fosse uma experiência sensorial. No final das contas, reuni umas cem horas de entrevistas com os músicos abordando assuntos muito interessantes. Talvez algum dia eu aproveite todo esse material. Poderia ter feito a história do jazz latino mas esse não é o meu mundo. Procurei fazer com que as pessoas primeiro se apaixonassem por essa música. Depois, elas podem investigar, aprender algo sobre ela. Não quis fazer nada parecido com um documentário de televisão. Passei o tempo todo procurando evitar esse tom.

Cineweb - O senhor teve alguma preocupação especial, do ponto de vista técnico?
Trueba - Eu me perguntava: para que alguém vai ver este filme, se podem ir a um concerto? A resposta é que o público veria melhor os músicos do que num concerto. Para que iriam ouvir as músicas no filme, se poderiam muito bem ouvi-las num disco? Porque vão ouvi-las melhor do que em disco. Então, minha obsessão era que o som da fita fosse excepcional. O som foi gravado em 48 pistas e passado para DTS 5.1 [som digital] para que as pessoas pudessem sentir-se dentro da música.

Cineweb - Como evitou a estética do videoclipe?
Trueba - A primeira diferença em relação ao videoclipe é que é tudo filmado ao vivo. Nenhum músico ali está fingindo que toca para a câmera, é tudo verdade. Não manipulei nada. A música também era o que contava para a escolha da melhor tomada - mesmo que outra tivesse sido mais bem filmada. Também quase não há planos gerais no filme, porque eu queria evitar esse lado televisivo de retransmissão de concerto. Queria a câmera viva e solidária com a música.

Cineweb - O senhor procurou sintonizar mais diretamente com a emoção do espectador...
Trueba - Exatamente. É uma forma mais direta de criar essa emoção, através da música. Há filmes que criam a emoção através do roteiro. Pode-se criar a mesma emoção por um olhar, uma imagem. Pode-se criar essa emoção através da música, também. Se você assiste a um filme de [François] Truffaut e tira a música de [Georges] Delerue, algo falta ali. Assim, vê-se que a música desempenha um papel muito importante no cinema. Mas para mim chegou o momento de dar-lhe o papel de protagonista. Queria que este fosse um filme que fizesse proselitismo, que atraísse as pessoas a este tipo de música, porque creio que reuni alguns dos maiores músicos do mundo.

Cineweb - Embora não seja a música mais popular
do mundo...
Trueba - Sim. O que mais se vende sempre são os lixos comerciais mais estúpidos. Mas isso não é culpa do público. Creio que os meios de comunicação e as companhias produtoras de discos só se dedicam a promover esse lixo. O público está deixando de ter acesso à música de qualidade. O mesmo se diga do cinema, da literatura. Creio na capacidade do público de desfrutar de coisas melhores. Quero ver o público ouvir esta música, vibrar e aplaudir, como tenho visto em várias projeções. Para mim, isto é uma alegria.

Cineweb - Eliane Elias é a única brasileira que aparece no filme. Pode explicar porque a escolheu?
Trueba - Além dela, há no filme mais um percussionista brasileiro, Pernell Saturnino, que toca com Paquito D'Rivera. Acreditei, desde o começo, que o Brasil não poderia faltar neste filme. Há muitos jazzistas brasileiros excelentes. Cláudio Roditi, por exemplo, que é um trompetista fantástico que mora em Nova York. Mas creio que Eliane tem uma grande categoria no jazz internacional. É uma pessoa que, ainda muito jovem, fazia duos de piano com Herbie Hancock. É uma grande pianista, com um toque absolutamente delicado e um domínio maravilhoso do piano. É uma super-pianista, que tocava música clássica desde criança. É uma pessoa que soube muito bem recuperar a música brasileira através do jazz. Seus primeiros discos eram mais jazzísticos. Mas, pouco a pouco, o Brasil começa a emergir do fundo, como se fosse um submarino, e aparecem Jobim e todas essas coisas.

Cineweb - O senhor escolheu filmar Eliane, aliás, de uma forma muito sensual, subindo a câmera a partir de seus
pés descalços...
Trueba - É porque ela toca assim. Ela é uma pessoa igual à sua música, muito sensual. Em geral a música brasileira tem essa característica, o ritmo brasileiro, a bossa. Tudo o que Jobim, João Gilberto criaram é único. Eles têm um sentido do tempo musical que está baseado não só na música brasileira que os precedeu como também sofre a influência do jazz americano da costa oeste, como Chet Baker. Mas também Debussy e os impressionistas franceses desempenharam uma grande influência sobre a música brasileira que é muito popular mas sem dúvida é também muito culta, muito sofisticada.

Cineweb - Uma referência curiosa e inesperada ao Brasil é quando Gato Barbieri se lembra de Glauber Rocha e do personagem Antonio das Mortes. Isso surgiu assim,
de improviso?
Trueba - Sim, porque essa era sua época. Gato Barbieri é uma pessoa nostálgica e para ele a melhor época foi esse período em que viveu com Glauber, com Bertolucci, com Godard. Gato fez um tema que se chama Antonio das Mortes. E quando veio ao estúdio para filmar seu número no meu filme, chamou minha atenção para o lenço que trazia nos ombros e disse: "Trouxe este lenço, como Antonio das Mortes". Aliás, Glauber teve grande influência sobre Gato.

Cineweb - Em que sentido?
Trueba - Glauber uma vez perguntou a Gato porque se fazia de idiota na Europa, estimulando-o a reencontrar sua vocação como músico latino-americano. Essa provocação de Glauber acabou levando Gato a de certa forma reconectar-se com suas raízes na música.

Cineweb - A cena em que Chucho Valdez e seu pai, Bebo, tocam juntos, é muito especial. Como a planejou?
Trueba - Costumo dizer que esta é a cena de amor do filme, porque é o encontro entre um músico que está no exílio, outro, numa ilha, um pai e um filho que não se viam há cinco anos e se reúnem para tocar. Foi uma verdadeira dádiva. E o que eles tocam também.

Cineweb - O que eles tocam?
Trueba - Ernesto Lecuona, que foi o homem que inventou o piano contemporâneo, que mixou a música culta européia do começo do século, Debussy, etc., com a herança africana e assim criou a escola moderna de piano cubano. Bebo Valdez teve em Lecuona seu grande mestre e Chucho hospedou Lecuona quando esteve em Paris. Unir o pai e o filho com esta figura tão significativa para os dois foi, para mim, uma forma muito bela de fechar Rua 54. Especialmente como esse pai e esse filho se olham, como sorriem, como tocam juntos. E são olhares reais... É magnífico ver como Chucho, que é um virtuose, faz o acompanhamento do pai. Existe aí um respeito, um amor, várias coisas se passando paralelamente à música.

Cineweb - Por que escolheu uma cor de fundo diferente para cada número musical?
Trueba - Escolhi cada fundo de acordo com o sentimento que cada músico me sugeria, de uma forma natural. Não fiz nenhuma racionalização sobre isso. Quis colocar Tito [Puente] e sua orquestra de branco porque me pareceu a cor natural para eles. Da mesma maneira, filmei Chico O'Farrill em preto-e-branco porque queria dar-lhe o ar dos anos 40 e 50, que é a época em que ele compôs o número que toca no filme, The Afro-Cuban Jazz Suite, que é a primeira composição longa do jazz latino - cuja primeira gravação, há meio século, teve Charlie Parker como solista. Mesmo assim, O'Farrill era um arranjador tão completo que soa totalmente moderno.

Cineweb - O senhor tem uma predileção pela música do passado? É um cineasta nostálgico?
Trueba - Não, mas adoro fazer filmes de época, ambientados no passado. Sinto-me muito à vontade. Não gosto muito do tempo presente. Acho que vivemos numa época um pouco feia. Quando vou ao cinema, não gosto de ver pessoas falando ao celular ou escrevendo num computador. A imagem mais habitual do cinema contemporâneo é a tela de um computador. Sei que o computador é parte importante da nossa vida, eu mesmo tenho um. Mas cada vez que entro no cinema e vejo um computador na tela tenho vontade de pedir o meu dinheiro de volta!

Cineweb - O que há de tão especial num filme de época?
Trueba - Quando se faz uma fita de época, concentra-se nas coisas importantes - o amor, a morte, a amizade, os sentimentos fundamentais do ser humano. Nas películas contemporâneas, as pessoas se distraem com todas as merdas que rodeiam a nossa vida. Então, as pessoas às vezes me cobram porque não faço filmes sobre o que acontece agora, em minha cidade. Então eu respondo que o meu filme do presente é Rua 54. Esta música é a coisa mais bonita do mundo em que vivemos. É a única maneira de dizer algo de positivo sobre esta nossa época, onde toda a política e mesmo a tecnologia é muito feia. Por que é tão feia boa parte da arte contemporânea? Porque está imersa nesta tecnologia de nossa época. Eu gosto do pós-impressionismo. Gosto de ver Cézanne, Gauguin, Bonnard, eram maravilhosos. Na melhor das hipóteses, o que digo é um pouco reacionário...

Cineweb - Ganhar o Oscar mudou alguma coisa em
sua carreira?
Trueba - Não. Convidaram-me algumas vezes para dirigir alguns filmes na América e disse não a todos esses convites. Acho mais bonito trabalhar na Espanha.

Cineweb - Por causa da língua, da tradição cultural?
Trueba - Primeiro pela língua, depois pela forma como se trabalha. Na Espanha, se o diretor artístico passa no set e vê que a mesa do cenário está suja, ele a limpa. Nos EUA não, é preciso chamar o especialista da limpeza do setor. Os EUA são uma sociedade militarizada. Herdaram isto dos europeus e gostam de andar em fila, receber ordens, obedecer, ter um chefe, ter uma arma. E eu odeio isto, sou um anarquista. Detesto o estilo de vida americano, até o quanto comem mal.

Cineweb - O que acha dos efeitos especiais no cinema?
Trueba - Se preciso deles em meus filmes, eu os utilizo. Creio que o cinema americano atual é péssimo. Nos anos 30, esse mesmo cinema produzia coisas maravilhosas. Mas hoje é uma merda. Não tenho interesse em trabalhar numa fábrica e o cinema de Hollywood é como uma fábrica.

Cineweb - Como o senhor define o cinema europeu?
Trueba - O cinema europeu é como o ateliê de um artesão. Prefiro trabalhar num ateliê do que numa fábrica, mesmo que seja moderníssima. Há mais liberdade na Europa, na Espanha e isso me convém.

Cineweb - 12/04/2002