Cacá Diegues humaniza Deus para repensar o Brasil
- Por Neusa Barbosa
- 30/01/2003
- Tempo de leitura 5 minutos
Na trajetória que levou ao filme, João Ubaldo caiu fora, por pura falta de paciência com o longo processo de decantação peculiar aos roteiros. "Ele detesta roteiro, acha uma coisa burra", ironiza Cacá, na entrevista coletiva de lançamento do filme, em São Paulo, na quarta-feira(22). E entraram no barco João Emanuel Carneiro (de Central do Brasil) e a produtora Renata Almeida Magalhães, mulher de Cacá, colaborando na versão final da história, que acabou se distanciando bastante do conto original.
O resultado é um "filme de estrada", como Cacá Diegues houve por bem traduzir o termo "road movie". Uma atitude, aliás, bem fiel ao espírito do filme, que foi feito 100% no Brasil, inclusive os efeitos especiais - que são muitos, sofisticados e assinados por uma empresa de São Paulo, a TeleImage.
Filmado em Super-35 mm Scope, finalizado em digital, Deus é Brasileiro apresenta diferentes texturas e paisagens lindíssimas, entre Alagoas, Pernambuco e Tocantins. A primeira idéia era filmar na Bahia, ambiente do conto de João Ubaldo, mas uma série de coincidências levaram em sentido contrário. Alagoano de nascimento, radicado no Rio desde os seis anos, Cacá é filho de um jornalista, com quem costumava viajar bastante pelo Nordeste. Na procura de locações, o diretor se reencontrou com uma das paisagens que conheceu junto com o pai, a foz do Rio São Francisco. Redescobriu o encanto do lugar e decidiu fazer dele o marco inicial das filmagens. A partir dessa decisão, começou a armar uma certa lógica geográfica, que procurou também revelar lugares intocados pelo turismo.
Um desses lugares pouco vistos lhe foi apresentado por Sergio Machado, diretor de Onde a Terra Acaba. Co-roteirista de Abril Despedaçado, Machado fizera para esse filme uma extensa pesquisa de locações, onde descobriu o Jalapão, no Tocantins - uma região repleta de rios e cachoeiras, ideal, na visão de Cacá, para tornar-se o cenário do encontro entre Deus (Antonio Fagundes) e seu candidato a primeiro santo brasileiro (Bruce Gomlevsky).
Até por essa característica de filme de estrada, impossível não pensar numa comparação entre Deus é Brasileiro e Bye Bye Brasil (1980). Mas o diretor garante: "Não tinha pensado em Bye Bye Brasil até começarem as filmagens". Comparando os dois trabalhos, Cacá analisa: "Entre um filme e outro, o país mudou, o cinema, eu mesmo também mudei. Em Bye Bye havia uma certa perplexidade no olhar dos personagens para o que acontecia à sua volta. Era o final da ditadura. Em Deus é Brasileiro, há uma constatação de que esta é a nossa condição humana, este é o nosso país, e de que é preciso muita tolerância e persistência para atuar sobre isso, para modificar as coisas".
Uma das mudanças mais celebradas por Cacá, neste intervalo de quase 23 anos entre um filme e outro, está na política. "Acho ótimo estar lançando meu filme neste momento em que novas esperanças surgem no País. Entre estas esperanças, e também no meu filme, está uma idéia de tolerância, de que é preciso absorver as diferenças. Esta é uma coincidência que me deixa muito feliz".
Cacá é igualmente otimista em relação ao cinema brasileiro. "Me orgulho de ser um cineasta brasileiro neste momento. O conjunto de filmes brasileiros a cada ano está melhor, mais diversificado. Uma outra coisa positiva é que, nestes mais de 200 filmes da chamada Retomada dos anos 90, uns 70 são de novos cineastas, vários deles autores de filmes corajosos, com vontade de dizer alguma coisa, acontecendo no Brasil inteiro, não só no eixo Rio-São Paulo. O Brasil deve ter mesmo uma vocação irresistível para o cinema".
Veterano que se iniciou sob o signo do Cinema Novo, Cacá é um inimigo da nostalgia do passado, embora glorioso. "É preciso não aprisionar a imaginação dos cineastas nos cânones de 40 anos atrás. Não é justo. Eu mesmo, que participei de tudo aquilo, não me sinto preso a esses dogmas, que pertencem a um mundo que não existe mais", reverbera o cineasta, mostrando que não está disposto a colocar-se ao lado dos cultivadores da polêmica em torno de um suposto combate entre a estética e a cosmética da fome nas telas nacionais.
Indagado sobre a razão por que na Retomada atual figuram tão poucas comédias - que fizeram tão parte de uma antiga tradição no cinema brasileiro, desde as chanchadas da Atlântida à pornochanchada -, Cacá não arrisca uma explicação. Para ele, é tão difícil fazer uma comédia quanto qualquer outro gênero. Ele mesmo se diz um simpatizante declarado do humor. "O humor é a característica mais fantástica do ser humano. O humor introduz a inteligência ao colocar qualquer questão e permite, além do mais, que a gente não se leve excessivamente a sério".
Compondo uma história onde nem mesmo Deus não se leva nem é levado excessivamente a sério, Cacá não teme pôr o dedo numa polêmica envolvendo cultos religiosos. "Meu filme não é religioso, não tem nenhuma intenção teológica. Deus é um grande herói da cultura ocidental. Quando perguntam a mim se acredito em Deus, é como se fosse perguntado a Murnau se ele acreditava em vampiros ao fazer Nosferatu. Ele, como eu, podia acreditar ou não no objeto de sua história, mas com certeza isso não é importante".
Fotos: Luiz Vita/Cineweb
Cineweb-27/1/2003-18.10
