06/06/2026

Terry George troca a política da Irlanda pela da África

Roteirista renomado e indicado ao Oscar (por Em Nome do Pai, de Jim Sheridan), e também diretor, o irlandês Terry George visitou São Paulo no começo de agosto para o lançamento brasileiro de seu filme Hotel Ruanda.
Roteirista renomado e indicado ao Oscar (por Em Nome do Pai, de Jim Sheridan), e também diretor, o irlandês Terry George visitou São Paulo no começo de agosto para o lançamento brasileiro de seu filme Hotel Ruanda. O filme teve três indicações ao Oscar 2005, o que garantiu o que George mais procurava: visibilidade para o genocídio ocorrido em Ruanda em 1994, causador de 1 milhão de mortes, e que está no centro da história, que tem como protagonista um corajoso gerente de hotel, Paul Rusesabagina (Don Cheadle), que salvou a vida de mais de 1.200 pessoas - na maioria, da etnia tutsi, caçada até a morte pelos hutus.

Na cartilha de alguém tão politizado quanto George, visibilidade nada tem a ver com notoriedade ou fama. Na verdade, o que o cineasta visa é atenção para um massacre que, paradoxalmente, tornou-se invisível, a partir do momento em que as forças ocidentais, de países como a Bélgica, França e EUA e Inglaterra e a própria ONU, abandonaram o país, depois de retirarem todos os brancos. George não poupa de críticas por omissão nem mesmo o secretário-geral da ONU, Koffie Annan: “Muita gente viu o filme: George Bush, Condoleezza Rice, Bill Clinton. Não sei se Annan o assistiu. Afinal, ele era um dos conspiradores na época da evacuação de Ruanda”.

O diretor acha importante que o filme seja assistido em países como o Brasil, ou seja, fora do eixo EUA-Europa. Ele destaca que a recepção ao filme foi maior nos EUA do que na Europa, e atribui a diferença ao sentimento de culpa. “Na época, o Ocidente não se mostrou disposto a interferir. E a culpa por não ter interferido agora é tão grande que ninguém se mostra disposto a entrar nesse debate”.

O cineasta destaca a qualidade do cinema latino-americano: “É certamente o cinema mais vital hoje no mundo”. Cita entre seus expoentes os brasileiros Walter Salles e Fernando Meirelles e o mexicano Alfonso Cuarón. Falando de Meirelles, dispara o seu maior elogio, falando espontaneamente do primeiro filme em língua inglesa do diretor brasileiro, The Constant Gardener (baseado no livro de John Le Carré, O Jardineiro Fiel): “É o melhor filme sobre a África que já vi”.

Muito mais que dois elefantes e um macaco

O projeto de Hotel Ruanda começou há três anos atrás, quando George deixava de lado a explosiva política irlandesa, que esteve por trás de quase todos os seus roteiros anteriores, agora pesquisando para escrever um roteiro sobre a guerra civil liberiana. Já nesse momento, o cineasta se deu conta da quase inexistência da África pós-colonial no cinema. “Havia muito pouca coisa, relativa ao apartheid e a Mandela. Geralmente, os produtores americanos evitam histórias africanas que não tenham dois elefantes e um macaco ou então dois brancos bêbados”, ironiza George, que mora em Nova York.

Foi então que chegou às suas mãos o roteiro de Keir Pearson, abordando a guerra civil em Ruanda. Ali, George encontrou todos os elementos que procurava e partiu à procura de Paul Rusesabagina, hoje exilado em Bruxelas, onde é taxista. O cineasta levou-o para sua casa, em Nova York e dessas conversas nasceu a gênese da história.

Mas foi só quando levou Paul de volta a Ruanda, em 2003, pela primeira vez depois do massacre, que George se convenceu de que não podia deixar de fazer o filme. Quando voltou com o ex-gerente para o hotel em que ele trabalhava, o Mille Colines, o cineasta testemunhou seu emocionado reencontro com vários funcionários cuja vida ele tinha salvado. Mais tarde, dois amigos de Paul, Odette e Jean-Baptiste (que são personagens do filme), levaram o cineasta até o sul do país, em Marambi, onde 32.000 tutsis tinham sido mortos. Naquela região de solo calcário, os corpos dos mortos, ao invés de se decomporem, ficaram mumificados, permitindo com mais precisão a descoberta do que tinha acontecido ali. “Foi aí que percebi que era uma obrigação fazer este filme”, acentua George.

Levantar o orçamento foi uma tarefa das mais árduas. O cineasta percorreu diversos estúdios, ouvindo diversas mesmas a mesma resposta: que o roteiro era muito bom mas que só o produziriam se alguém como Denzel Washington ou Will Smith estivesse à frente do elenco. No final, quem levantou o dinheiro necessário foi o produtor independente Alex Hole, que reuniu recursos da África do Sul, Itália e incentivos fiscais da Inglaterra. Recursos esses que começaram a chegar quando as filmagens já haviam entrado no terceiro dia – até ali, George e Alex estavam bancando as despesas do próprio bolso.

Hotel Ruanda foi filmado entre Kigali, a capital ruandesa, e Alexander, o gueto mais antigo de Joanesburgo, na África do Sul. Mas só foi exibido em Ruanda há dois meses atrás. Duas exibições especiais, uma para o presidente e deputados do país, outra para 10.000 pessoas, no maior estádio da capital, o Kamahoro Stadium. Mesmo com uma boa recepção da platéia, George não ficou totalmente satisfeito, já que não foi uma exibição tão ampla quanto ele gostaria.

Aos que criticam Hotel Ruanda por não mostrar claramente os massacres, o cineasta responde: “Tento mostrar a violência sem na verdade representá-la porque queria que o filme fosse visto por adolescentes. Se fizesse um filme totalmente realista, aliás, ele seria quase pornográfico, já que a maioria dos mortos foi executada com machadinhas”. O que para ele é mais chocante, no caso de Ruanda, é que as execuções, ao contrário do Holocausto e do Cambodja, foram feitas pela população civil, não por militares.

George destaca que a grande maioria dos incidentes retratados no filme é real, baseada nas memórias de Paul. E que esse é um compromisso que procura manter em seu trabalho. “Aprendi pela minha experiência com filmes como Em Nome do Pai, Mães em Luta e outros, que se deve ser capaz de defender o que se representa na tela. Assim, mesmo o que é ficção tem que ter base na realidade”. Por conta disso, ele afirma: “Para o bem ou para o mal, meu filme se tornou educativo para o caso de Ruanda, da mesma maneira que A Lista de Schindler para o Holocausto, Desaparecido – Um Grande Mistério para a ditadura Pinochet e Os Gritos do Silêncio para o Cambodja”.