Breno Silveira estréia no cinema com o ótimo "2 Filhos de Francisco"
- Por Neusa Barbosa
- 18/08/2005
- Tempo de leitura 9 minutos
Cineweb - Como começou o projeto deste filme?
Breno - O Zezé di Camargo e o Luciano queriam fazer um filme sobre a vida deles e estavam interessados na Conspiração como parceira. Eu não levei fé, não tinha uma proximidade muito grande com nenhum sertanejo. Era meu primeiro filme e eu não queria fazer nada que fosse fácil comercialmente. Pensei: “Não, vou fazer uma história em que eu acredite”. Mas foi justamente a história que me conquistou. A Patrícia Andrade, que fez o roteiro e é a nossa assessora de imprensa, foi conversar com o Zezé. Ela me pegou no corredor da Conspiração e disse: “Pára aqui e escuta essa história, que ela é a tua cara”. Eu gosto muito de trabalhar com coisa emocional, me encanta. Do dia em que a Patricia me contou a história em diante, isso mudou minha vida. Fazem três anos. Larguei tudo, larguei publicidade...
Cineweb - Você estava trabalhando num outro roteiro nessa época?
Breno – Sim. Eu tenho um outro roteiro, que está pronto, escrito junto com Paulo Lins, que começou ainda muito antes de Cidade de Deus – porque o primeiro filme que eu tentei fazer foi Cidade de Deus, eu e Andrucha (Waddington). Cidade de Deus foi o primeiro livro que eu li que falei “quero falar sobre isso”. Mas Paulo disse que Fernando (Meirelles) estava oferecendo o dobro. Foi isso. E graças a Deus ele fez, porque fez um filmaço! Ele merece, é um cara hipertalentoso.
Essa idéia tinha a ver com meu passado. Quando eu comecei a fotografar, a primeira coisa que eu trabalhei não era ficção, era documentário. Fiz muitos documentários com Eduardo Coutinho, inclusive alguns que foram exibidos lá fora. Depois fiz vários pro Channel Four em que eu era co-diretor. Fiz um sobre meninos de rua, um sobre domésticas. Com Sergio Goldenberg, que fez agora Bendito Fruto, fiz vários documentários. Nesses documentários, vi várias tragédias, coisas que não gostaria de ter visto na vida, que me deixaram muito doído, com menores de rua e que eram reais, nunca esqueci. Aí decidi dar uma distância dos documentários, porque isso estava me consumindo, eu sofria horrores. Você se sente um pouco culpado também. Então, decidi fazer Cidade de Deus. Não deu, então contratei o Paulo Lins e a gente ficou trabalhando três anos num roteiro. E esse roteiro está pronto. Aí, a Patricia me contou essa história.
Cineweb - Por que você optou em fazer primeiro Dois Filhos de Francisco?
Breno - Qual era a diferença? Essa história eu senti que seria muito mais fácil de levantar. Primeiro, porque Cidade de Deus tinha estourado e eu iria (com meu roteiro com o Paulo Lins) mexer no mesmo assunto de novo. Senti que tinha chance de parceiros comerciais mais fáceis de realizá-lo e que era uma história maravilhosa. Quando ela acabou de contar, eu falei: esse é um drama humano, universal, é obrigatório contar isso. Daí a cinco dias, fui pra Goiânia e o seu Chico Camargo me recebeu, sem me conhecer.
Cineweb - Como é o seu Chico, que você escolheu para dar nome ao filme?
Breno - Ele ainda mora por lá, não no sítio, mas em Goiânia. Mas ele volta sempre naquele sitiozinho, que não é mais deles, o avô vendeu. Então, quem mora lá são outras pessoas, mas ele tem a família nas redondezas, tem as irmãs de Helena (sua mulher) que moram ainda lá, toda a história dele está ligada àquele lugar, então ele volta muito. Ele é tão legal que ele até hoje conserva essa simplicidade. Às vezes, ele está plantando milho, às vezes, ele está colhendo. É uma figura maravilhosa. Ele fez todos os sacrifícios pelo sonho dele, porque ele queria uma vida para os filhos, não foi por dinheiro. Porque o Francisco foi tachado de louco naquele lugarejo. O Zezé (di Camargo) chegou a ficar até meio traumatizado com isso, ele tinha a sensação de que o avô estivesse falando a verdade, que o pai fosse mesmo maluco, como a cidade toda achava. E ele era um cara atrás do sonho dele. Francisco não migrou por causa da fome. Aquela é uma terra extremamente fértil. Tudo o que se planta, dá. Tem um rio que passa ali atrás. Ele migrou porque queria uma vida diferente para os filhos.
Cineweb - A história que está no filme é verdadeira ou foi romanceada?
Breno - A história deles ainda é mais violenta do que está no filme. Chegou uma hora em que eu falei “vamos tirar isso do roteiro, porque não está dando, aí ninguém vai conseguir assistir”. O próprio Daniel Filho pediu para tirar algumas coisas depois de pronto, que eu filmei. Falou: “olha, cara, deixa o pessoal respirar, porque senão...”. O Guel Arraes também falou isso. Então, tive que avaliar, porque a história real é mais pesada. Eu tinha decidido contar essa história e com a maior delicadeza do mundo, tinha tudo a ver comigo.
Cineweb - Teu filme encerra um desafio, esse diálogo entre a música popular e a a sofisticação inerente ao cinema. Nunca você sentiu que este projeto era meio loucura?
Breno - Me senti um pouco como seu Chico, porque pra todo mundo que eu falava que queria fazer aquela história, todo mundo ria. Sempre quis fazer um filme muito brasileiro, acho que eu sou muito brasileiro. Queria passar isso no meu filme, muito. Morei muito tempo fora, fiz escola de cinema na França. Enquanto eu estava lá, eu sentia muito saudade da nossa cultura. Saudade de feijão, saudade do jeito. Comecei a ver o Brasil com o olho estrangeiro. Comecei a ver quanta coisa bonita tinha no Brasil. Saí daqui com 20 anos, doido pra ir embora do Brasil. Ganhei uma bolsa, exatamente por causa de um documentário que eu fiz, de uma organização que é uma espécie de ONG de Terceiro Mundo, um sindicato grande lá. Fiz um vídeo sobre favela, eles gostaram muito, conheceram outros documentários meus e disseram: “você pode vir para Paris para editar?” Eu devia ter 20 anos de idade, estava começando a fazer documentários. Fui. Aí, me pagaram não em dinheiro, mas com a bolsa. E eu me apaixonei pelo Brasil ali. Então quando voltei queria muito fazer uma coisa brasileira. O próprio Carlota Joaquina, que foi o primeiro longa que eu fotografei, acho que é reflexo disso.
Cineweb - Como foi isso de fazer logo de cara “Carlota Joaquina”?
Breno- Meu primeiro longa-metragem foi Carlota Joaquina, sem nunca primeiro nem ter feito um curta. E a Carla (Camuratti), só de conversar comigo, falou: “Você vai fazer meu filme”. Até hoje, é uma amiga do coração e talvez a única pessoa a quem eu tenha mostrado o roteiro de Dois Filhos de Francisco, antes de fazer.
Cineweb - Como foi o casting dos meninos?
Breno – Com o passar do tempo, percebi que precisava muito mais de cantores do que de atores. Eu tinha que convencer que eles cantavam no primeiro plot. Comecei a ver que os filmes que deram certo no Brasil, era porque as crianças não representavam, elas eram aquilo – seja um Pixote, o Central do Brasil, até os meninos de Cidade de Deus. Um garoto atuando não seria verdadeiro. Fomos procurar uma dupla mirim que quisesse ser eles. Fiz muitos testes, com mais de 300 duplas. Por coincidência, os dois são de Goiás, lá de perto.
Cineweb - Com um filme com todo esse potencial para ser popular, você se preocupa com o público mais elitizado do cinema?
Breno - É só a preocupação que eu tenho. Meu maior medo, que eu tenho todo dia que eu acordo é que as pessoas vão julgar antes, por preconceito, e não assistir ao filme. Então eu posso conseguir um público grande, num lugar-chave, e talvez não conseguir dobrar a cidade grande. Se isso acontecer, vou ficar muito triste. Porque eu queria um pouco passar o que aconteceu comigo.
Cineweb - Fora isso, você estréia com a responsabilidade de ser o primeiro grande sucesso nacional do ano...
Breno - Estou ficando preocupado. Primeiro porque eu jamais imaginei que eu ia estrear no pior momento do cinema. Porque quando estava filmando, no começo do ano passado, a expectativa era exatamente o contrário. Não sei exatamente o que aconteceu este ano, se foram os nossos filmes, se é uma crise mundial. Cada um dá um palpite. Quanto ao meu filme, fico preocupado. Porque ele tem um potencial, mas também uma negação muito forte. Eu tenho muita certeza de que grande parte do público deles talvez não tenha dinheiro para ir ao cinema. O ingresso é caro. Isso me preocupa. Embora eu sinta que eles atinjam todas as camadas. Estou com uma dúvida na testa. Mas se ele acontecer, ficarei muito feliz. Sempre quis fazer um filme brasileiro, para brasileiros. Não fiz filme para passar lá fora. Fiz filme de Brasil para Brasil.
Cineweb - E o nome do filme, de onde saiu?
Breno - Me criticam por isso também. Queriam “É o amor”, para atingir o grande público e estourar na bilheteria. Eu não quis. O título que eu dei vem de uma frase do Luciano. O Zezé indo pro primeiro show, começou a chorar, lembrando de Emival (irmão deles que morreu). E Luciano fala: “Isto não tinha que acontecer com Emival, tinha que acontecer com dois filhos de Francisco”. Essa história aconteceu mesmo, mas a cena nós tiramos do filme, porque ficou ruim.
Cineweb - Você viu Na Estrada da Vida, do Nelson Pereira dos Santos? Vê alguma semelhança do seu filme com ele?
Breno – Vi sim, é lindo. Eu vi até porque me falaram que foi o último que deu certo, fez um grande sucesso até na China. É outra coisa, talvez o Nelson seja muito mais autoral que eu, tiro meu chapéu pra ele. Mas eu abracei essa causa, e não tenho vergonha nenhuma dela. Ao contrário, tenho muito orgulho de ter feito.
