Fernando Meirelles e Katia Lund: retrato de uma guerra brasileira
- Por Luiz Vita
- 07/01/2003
- Tempo de leitura 18 minutos
Filmado durante nove semanas na favela de Cidade Alta, o filme conseguiu a façanha de já estar totalmente pago, antes mesmo de começarem as sessões no Brasil. Graças ao grande sucesso obtido no último Festival de Cannes, onde foi exibido fora de competição, Cidade de Deus já se pagou com as vendas ao mercado externo.
Vendido a praticamente todos os países importantes, o filme tem distribuição nos Estados Unidos da Miramax, o grande estúdio responsável pelo lançamento de Abril Despedaçado, de Walter Salles. Distribuído no Brasil pela Lumière, a fita ganha na semana de abertura 90 cópias para exibição em todo o país.
"Acho que temos uma grande chance de fazer sucesso", acredita Fernando Meirelles. A grande expectativa concentra-se nos dois primeiros fins de semana de bilheteria. Depois, é esperar que o boca a boca faça o resto. "O duro é encher os cinemas nas primeiras semanas", explica nesta entrevista concedida em São Paulo.
Cineweb - Conte um pouco da história do projeto, como foi a sua parceria com Fernando Meirelles.
Katia Lund - Quando o Fernando chegou ao Rio, ele já estava com a quarta versão do roteiro e me procurou para a gente achar uma forma de encontrar os atores para esse filme. A gente sabia que não existiam 50 atores de comunidades, conhecidos, com esse perfil. Em junho de 2000 chamamos uma equipe com um coordenador e quatro atores de comunidades. O coordenador ligava para as comunidades, para os grupos de música e de teatro das favelas, e ia com os quatro atores até as comunidades para fazer um curso de cinema, em troca de vale-transporte e lanche. Nós resolvemos criar uma escola de atuação voltada para o cinema, chamada Nós e o Cinema, antes de entrar na pré-produção do filme. A pessoa que estivesse fazendo o curso se sentiria bem em estar completando um curso em vez de estar fazendo um teste para um filme.
Cineweb - Quantas pessoas foram entrevistadas?
Katia - Fizemos 2.300 entrevistas, que assistimos juntos com o Guti Fraga, um ator que trabalha com o Nós do Morro, uma ONG de teatro do Vidigal, e escolhemos 200 meninos para fazer o curso que rolou entre setembro e dezembro de 2000. Esse curso consistia principalmente de improvisação e de trabalho de grupo, com uma câmera filmando o tempo inteiro. O objetivo principal era deixar o pessoal mais à vontade possível, vivendo a situação. Nós não dávamos textos, dávamos uma situação. Eles se dividiam em grupos, ensaiavam e apresentavam uma improvisação para o resto do grupo. Eu e o Fernando participávamos do grupo para baixar o tom, do teatral para o coloquial, para respeitar o livro. O objetivo era viver a emoção, com pouca preocupação com câmera, marcação e texto.
Fernando Meirelles - No fim de cada aula nós sentávamos juntos e cada um fazia a sua ceninha. A preocupação era saber se o garoto estava vivendo o momento ou estava fingindo que viveu. Ele estava com medo ou parecia que estava com medo? Era um treinamento para sentir. Eu tenho uma teoria de que o ator nasce com o dom. É como um músico que pode ficar 40 anos no piano, mas nunca será um grande profissional se não tiver o dom. Entre essas 2.300 pessoas, puxávamos algumas que tinham carisma, num critério muito subjetivo. Devemos ter desperdiçado grandes talentos.
Cineweb - E como foi feita a preparação com os atores profissionais.
Katia - Alguns atores participaram desta primeira fase cujo objetivo era tirar a técnica dos profissionais. Eles tiveram muita dificuldade em perder a técnica. Ficavam fora do tom.
Cineweb - As crianças estão muito bem em cena. Naquela cena em que o Zé Pequeno faz um garoto dar um tiro na mão de outro, o menino parece estar mesmo chorando de verdade. Ele ficou com medo da situação?
Fernando - Essa cena foi ensaiada várias vezes pela Fátima Toledo, uma preparadora de atores que trabalhou em muitos filmes brasileiros, como Pixote, Central do Brasil, Tainá, Eu Tu Eles. O papel dela era trabalhar cada ator dentro de seu personagem. Nesse caso, na hora de filmar a cena com o Felipinho, que tem 6 anos, o Leandro Firmino, que interpreta o Zé Pequeno, foi tão convincente que a fantasia e a realidade se misturaram. Eu queria parar a cena mas a Katia mandou seguir. Foi muito angustiante. Quando acabamos de filmar a cena, abraçamos e beijamos o Felipe para acabar com aquele clima.
Katia - O Felipe tem experiência. Ele faz parte do grupo Nós do Morro, um grupo de atores do Vidigal. Ele já tem bagagem para saber que aquilo não é verdade.
Fernando - Há uma história ótima do pai dele. Quando eu fui mostrar o filme para o elenco chamei o Wander, o pai do Felipe, e disse para ele: "Olhe, há uma cena com seu filho que é pesada. Vou te deixar preparado." Ele respondeu: "Eu já estou acostumado, meu filho é ator." Quando acabou o filme eu perguntei o que tinha achado e ele me disse que ficou chorando 15 minutos depois da cena.
Cineweb - Como foram escolhidas as histórias do livro?
Fernando - O nosso roteirista, o Braulio [Mantovani], fez um trabalho insano, maluco. Ele fez um fichamento do livro, com a lista de todos os personagens, de todos os bandidos, em que página estão, resumo da trama de cada um deles. Ele acessa por personagem, por situação, por época. Ele fez um banco de dados. Na hora de escolher o que ia entrar e o que ficaria de fora, li o livro novamente e anotava em vermelho cenas que deveriam entrar no filme de qualquer jeito. Selecionando isso já jogamos dois terços do livro fora. E aí foi um exercício de empacotar tudo isso em 110, 115 páginas do roteiro. Compactamos, juntamos personagens. Na primeira versão chegamos a 150 páginas, o que daria um filme com mais de quatro horas de duração. Fomos cortando até chegar ao quarto tratamento. Aí começamos a pensar na produção. Nesse processo, a Katia deu mais idéias de roteiro, os garotos inventaram cenas nos ensaios. Eu escrevia a cena e mandava à noite para o Braulio, que enviava um outro roteiro já incorporando as idéias que estavam chegando. Nesse processo do roteiro sendo alimentado pelos ensaios, chegamos até o 12º tratamento. A locução do Buscapé foi reescrita cinco vezes. O Alexandre [Rodrigues], que faz o papel do Buscapé, veio a São Paulo três vezes para refazer toda a narração. O roteirista entrou em 98 e saiu em 2002.
Cineweb - Os atores também improvisaram em algumas cenas.
Fernando - Vários diálogos foram improvisados e acabaram sendo aproveitados porque ficaram muito bons. Houve uma seqüência longa do filme na qual os caras criaram com a câmera rodando. Na hora em que o Mané Galinha e o Sandro Cenoura iam sair para fazer um ataque, um dos atores perguntou para mim se eles não iam rezar. "Temos de pedir proteção", ele justificou. Eu não estava entendendo nada. Ele disse "deixe que eu puxo" e rezou um Pai Nosso todo errado. [risos]
Cineweb - Como foi fazer um filme sobre uma situação tão particular das favelas cariocas, sendo paulistano?
Fernando - Essa situação nas comunidades do Rio chega a ser mais surpreendente para mim do que para um morador da cidade, que já cresceu nesse contexto. Para mim tudo era surpresa. É um pouco o olhar do estrangeiro. A surpresa que esse universo me causou é que me motivou a fazer o filme. Mas aí também entrou o trabalho da Katia, que tinha experiência e ficava o tempo todo me contando histórias, dizendo como funcionam as relações. Foi uma mão dupla de verdade.
Katia - O Fernando se mudou para o Rio um ano antes das filmagens. A gente sentava no chão, junto com os atores, num trabalho que durou cinco meses. A gente dava aulas das 9 da manhã às 10 da noite. Os atores também nos disseram que tiveram de pesquisar para fazer o papel deles. As pessoas acham que eles estão representando a vida deles, o que não é verdade.
Cineweb - Como vocês fizeram para filmar no local?
Fernando - A Cidade de Deus é na verdade dividida em quatro áreas. É um pouco instável. A gente tentava fazer um acordo para filmar, mas nunca sabíamos com quem estávamos falando. Você combinava uma coisa e não era exatamente com aquela pessoa. Muita gente dava palpite. Por isso resolvemos filmar na Cidade Alta que tinha um cara da associação de moradores que era responsável. O que você combinava com ele acontecia. Mesmo assim filmamos num cantinho de Cidade de Deus que se chama Jardim do Amanhã, onde ficava a boca do Sandro Cenoura. É uma parte mais nova da Cidade de Deus.
Cineweb - Em algum momento vocês viveram alguma situação de perigo?
Fernando - Foi um processo longo até a gente chegar à Cidade Alta e fazer uns acertos. Na realidade, a contrapartida de você filmar num lugar assim é dar possibilidade de trabalho para a comunidade. Toda a figuração, costureiras, pessoal de apoio, marceneiro, tudo isso era feito por gente da comunidade. Jogávamos areia no campinho de futebol, dávamos dinheiro para uma creche, um computador para outra associação. Tínhamos esse compromisso de trabalhar com a comunidade. O que os caras querem é trabalho.
Cineweb - Os meninos do grupo Nós do Morro já têm outros trabalhos engatilhados, não?
Katia - O elenco já terminou um curta, que participou do Festival Internacional de São Paulo, e está fazendo um documentário. Agora eles já estão trabalhando em quatro produtoras e com uma minissérie da Globo. Para o ano que vem estamos pensando em fazer um jornal comunitário. Na verdade eles já estão no mercado.
Cineweb - A grande curiosidade das pessoas é sobre a cena da fuga da galinha. Como ela foi feita?
Fernando - Deu um trabalho! Ficamos dois dias correndo atrás de galinha. Usamos uma pequena câmera e o César [Charlone, diretor de fotografia] a prendeu num cabo de vassoura . Ele saia correndo atrás da galinha dizendo "xô, galinha, xô, galinha", empurrando a galinha com a câmera. Como essa técnica era muito cansativa, arrumamos uma cadeira de rodas com a galinha e a câmera presas num sarrafo. A cadeira andava, o sarrafo balançava e dava a impressão que a galinha estava correndo. Eu fiquei com uma outra câmera no chão acompanhando a galinha correndo. Tinha que ficar arrumando melhores condições para filmar porque galinha é muito burra [risos]. Nas filmagens não morreu nenhuma galinha, mas depois elas viraram sopa.
Cineweb - Durante quanto tempo foram feitas as filmagens?
Fernando - Nove semanas. Filmamos 66 horas. É bastante, mas é quase um terço do Lavoura Arcaica, por exemplo.
Cineweb - Para quantos países o filme foi vendido.
Fernando - Muitos. Finlândia, Escandinávia, Turquia, Malásia, Japão. Entre os países importantes que ainda não compraram só faltam a Índia e a Alemanha, mas estão quase fechados. As vendas para a Europa e o resto do mundo são de uma empresa ligada à Vivendi. Tudo isso foi vendido apenas em Cannes. A Miramax tem o direito do filme nas Américas, inclusive Brasil, onde é distribuído pela Lumière. Em Cannes, a Miramax comprou os direitos também para a Inglaterra, Itália e Austrália. O lançamento no Canadá e nos Estados Unidos será no dia 23 de fevereiro. Eles vão lançar em 50 cidades nos EUA, o que para os padrões americanos é pouco, mas é o triplo do lançamento brasileiro. O filme foi pago com as vendas internacionais, como Madame Satã. Esses dois filmes, junto com Abril Despedaçado, representam receita para o país. São itens de exportação.
Cineweb - Quanto o filme custou?
Fernando - US$ 3,3 milhões. Ao câmbio atual [agosto] pouco mais de R$ 8 milhões.
Cineweb - Qual a sua expectativa para o lançamento no Brasil?
Fernando - A Lumière tem feito muita divulgação porque o filme não tem atores conhecidos, não tem diretor conhecido e é uma história difícil, que pode encontrar alguma resistência. Temos feito palestras em universidades também, para gerar uma expectativa, um boca a boca. Mesmo com isso eu acreditava que teríamos de entrar com 40 ou 50 cópias. Mas a Lumière está colocando 90 cópias. Acho que temos uma chance do filme fazer sucesso. O desafio é levar o público no primeiro e no segundo fim de semana. Acho que com o boca a boca o filme consegue se manter. O duro é encher os cinemas nas primeiras semanas.
Cineweb - Como foi a recepção do filme em Cannes?
Fernando - Foi muito acima do esperado. Quando chegamos lá, não tínhamos nem um cartazinho do filme. A gente achou que ia ter algumas entrevistas e só. Estava marcada uma sessão na noite de sábado e durante a tarde o filme foi apresentado para a imprensa. Começamos a dar algumas entrevistas e, depois da sessão da tarde, passaram a nos ligar. Tínhamos três dias agendados com entrevistas a acabamos ficando a semana inteira, das 10 da manhã até às 18 horas. Demos mais de cem entrevistas [mas apenas duas foram solicitadas pela imprensa brasileira, uma das quais por Neusa Barbosa de Cineweb, publicada durante o festival]. Qualquer jornal que você mencionar fez matérias boas. Quem detonou o filme, com uma bolinha preta, foi a Cahier du Cinema. O Le Monde deu duas matérias: uma muito boa e outra dizendo que o filme era um videoclipe.
Cineweb - Na época alguns críticos chegaram a comparar seu filme com Os Bons Companheiros, do Martin Scorsese.
Fernando - Visualmente, da forma que é contada a história, não tem nada a ver. Mas tem uma coisa muito parecida: em Os Bons Companheiros há um garoto que quer entrar para a Máfia. É um cara de fora que explica como é a Máfia. Os protagonistas são os patrões dele. Ele fica de fora contando a história. Tem sempre alguém mais importante que ele na cena. Em Cidade de Deus há essa coincidência. O Buscapé é um garoto que mora ali e não se envolve. Ele está contando a história do Zé Pequeno, do Mané Galinha, às vezes ele esbarra nos personagens. Na verdade, isso é uma coisa meio arriscada para o roteiro. Qualquer manual de roteiro americano estabelece que a primeira regra é que o protagonista é quem conduz a ação. Colocar o protagonista fora da ação já é meio arriscado. Mas é assim em Os Bons Companheiros para explicar a Máfia e é assim em Cidade de Deus para explicar a entrada do tráfico nos morros.
Cineweb - Como você atraiu o Matheus Nachtergaele para o filme?
Fernando - Eu tinha visto o trabalho do Matheus no Livro de Jó e fiquei muito impressionado. Eu sabia que ele tinha filmado O Que é Isso Companheiro? A primeira coisa que eu fiz ao comprar os direitos do Cidade de Deus foi procurá-lo. A princípio eu queria que ele fizesse o Zé Pequeno. Ele topou. Três anos depois eu o convidei para um jantar para falar do filme, e a primeira coisa que eu falei para ele foi: "Cara, você me ferrou. Você não era conhecido e agora fez o Auto da Compadecida, fez um monte de novela e vai estragar o meu filme." E é verdade, porque a idéia do filme era não ter esse filtro, do ator fazendo o personagem. Queria que o espectador tivesse contato com o próprio personagem. O Matheus prometeu que iria desaparecer. Ele me disse: "Deixa que eu vou sumir do seu filme, vai ser o meu antitrabalho de ator e já estou adorando. Vou entrar no clima que existir." Nós demos o roteiro para ele, mas como ele soube que os outros atores não haviam recebido o roteiro, o devolveu e fez o filme sem conhecer a história. E se saiu muito bem, não dá para reparar que ele está lá.
Cineweb - Ninguém recebeu o roteiro?
Katia - Eles conheciam a história toda porque ensaiaram todas as cenas, mas a gente não queria dar um papel para eles porque senão eles iriam decorar. Nem a gente tinha roteiro.
Fernando - Era uma esculhambação [risos].
Cineweb - Gostaria que você falasse um pouco da montagem, que é muito criativa.
Fernando - A montagem é o trabalho de estréia do Daniel Rezende, um garoto de 24 anos. Ele era finalizador de publicidade. Às vezes, ao montar um filme publicitário, eu pedia para ele mudar alguma coisinha. Ele fazia o que eu pedia e apresentava também uma outra versão da montagem. E a dele era sempre melhor que a minha. Na segunda ou terceira vez que ele me humilhou eu o chamei para montar os filmes. Em Cidade de Deus, a descontinuidade é uma coisa que ele inventou. Ele desmontou muito mais o filme do que eu imaginava. Ele também sugeriu um terço das músicas que estão no filme. Ele era DJ. Fico muito feliz também porque nosso filme ainda nem foi lançado e ele já foi convidado pela Eliane Café e foi consultado pelo Walter Salles para montar os Diários de Motocicleta.
Cineweb - Como vocês chegaram ao Seu Jorge para fazer o personagem do Mané Galinha?
Katia - O papel do Mané Galinha foi o mais difícil. Era difícil achar o ator. Ele tinha de ser um negro muito bonito e ainda por cima de olho azul e cabelo liso, como é no livro. O personagem não podia ser piegas. Não podia ser o bonzinho que virou mau. Tinha de ser uma pessoa que entendesse aquela realidade e que tivesse dignidade. Ele é um sobrevivente. Quando ele aceita a humilhação, é uma escolha dele. Você não pode sentir pena. Testamos vários atores até conhecidos, mas eles não convenciam. O Seu Jorge estava se preparando para fazer o Madame Satã, mas houve uma troca de elenco: o Lázaro Ramos entrou e ele saiu. Já estávamos rodando quando o Seu Jorge entrou na filmagem. Ele foi preparado pela Fátima Toledo. Naquela cena em que aparece o Zé Pequeno e ele vira e coloca o braço no ombro da mulher e vai embora, o corpo dele conta tudo. Você sente que ele tem uma dignidade e, apesar de estar curvado naquela situação, é uma escolha dele. Ele não deixa de ser uma pessoa digna. E ele conhece esse universo. O irmão dele foi assassinado. Ele ficou ao lado irmão durante 12 horas até chegar o rabecão.
Fernando - Ele saiu de casa e foi morar na rua porque estava sendo perseguido pelo pessoal que matou o irmão.
Katia - Por uma semana ele pegou uma arma para ir atrás dos matadores. Mas desistiu e foi morar na rua e não pôde mais voltar para o bairro dele. Foi uma coincidência que a gente só ficou sabendo depois. Você sente isso no gestual, no olhar.
Cineweb - Você vê algum paralelo entre seu filme e O Invasor, do Beto Brant?
Fernando - Os dois filmes falam da exclusão social e da violência urbana. Na verdade, não só esses dois filmes. Como houve o ciclo do cangaço no fim dos anos 60, a gente está vivendo agora um ciclo da violência da periferia urbana. Nessa linha você tem ainda Uma Onda no Ar, O Redentor, O Homem do Ano, Carandiru. É um tema que se impôs.
Cineweb - Quais os próximos projetos de vocês?
Fernando - De 9 a 12 de outubro entra na Globo uma série de quatro programas chamada Cidade dos Homens, com gente do Cidade de Deus também participando como ator ou atrás das câmeras. São quatro episódios com os dois garotos do curta Palace II, que moram num morro que a gente inventou. É uma comédia estranha. Eu fiz um episódio, o César Charlone fez outro, a Katia e o Paulo Lins vão dirigir outros dois. Fora isso estou fazendo um projeto com o Braulio que se chama Intolerância 2, um filme sobre globalização que estou levando no dia 27 de setembro para a Miramax. Eles vão me pagar o desenvolvimento do projeto. São cinco histórias, em cinco países diferentes, que falam sobre como todo o mundo está interligado. Uma mulher na Califórnia faz alguma coisa, uma criança no Quênia sofre uma reação. Fala um pouquinho dessa divisão de Primeiro e Terceiro Mundos, com o Primeiro barrando o crescimento do Terceiro. Quem inventou esse nome foi o Jorge Furtado. É uma ironia porque a cidade é um morro, uma favela, e os homens são dois moleques tentando se virar no morro.
Fotos: Ana Vidotti/Cineweb
Cineweb - 30/08/2002
