Ugo Giorgetti usa o futebol para falar da ética no País
Em seu novo filme, "Boleiros 2 - Vencedores e Vencidos", Ugo Giorgetti expõe o jogo de interesses por trás do esporte mais popular do Brasil.
- Por Neusa Barbosa
- 06/04/2006
- Tempo de leitura 4 minutos
Cineweb - Por que num país como o Brasil, tão apaixonado por futebol, há tão poucos filmes sobre o assunto?
Ugo Giorgetti - O cinema brasileiro não esgotou nenhum assunto, inclusive este. Acho que porque a gente produz poucos filmes, de modo geral. Aliás, até o Brasil ganhar a primeira Copa (1958), o esporte não tinha nenhuma importância. Nos anos 70, é que virou um assunto patriótico. Mesmo escritores apaixonados por futebol não escreveram sobre isso.
Cineweb - Quem, por exemplo?
Giorgetti - Nelson Rodrigues, que era fanático pelo Fluminense, não usou o futebol no teatro dele. José Lins do Rêgo, que foi enterrado com uma bandeira do Flamengo, também não colocou o tema em seus romances. Os dois só escreveram sobre isso em crônicas de jornal.
Cineweb - Em Boleiros 2, muitas histórias são inspiradas na vida real, como no primeiro filme?
Giorgetti - Algumas, sim. Como o caso do Nestor (Walter Portella), o jogador que volta do México e nem a família reconhece. Soube de um caso assim, mas era de um boxeador brasileiro que viveu muito tempo no Peru ou no Equador. Tem gente que enxerga semelhança da juíza Neidinha (Denise Fraga) com a bandeirinha Ana Paula. Mas juro que não me inspirei nela...
Cineweb - Nota-se em Boleiros 2 um tom mais amargo que no primeiro Boleiros (1998). Você está mais pessimista?
Ugo Giorgetti - Você conhece alguém otimista aqui neste momento ? O futebol reproduz a vida, é parte da sociedade. Se as coisas não vão bem numa área, com certeza não irão na outra.
Cineweb - Por isso a amargura tomou conta da maioria das histórias de Boleiros 2 ?
Giorgetti - No futebol e no País, tudo só mudou para pior. Há oito anos atrás, quando fiz Boleiros, jogadores importantes, como o Rivaldo, ainda jogavam no Brasil. Desde então, está todo mundo querendo ir embora, jogar no exterior, sempre alguém está querendo vender alguém.
Cineweb - Quando você fala de futebol, está falando também do estado da ética no País?
Giorgetti - Estou falando mais de pessoas. Futebol é mais um pretexto para falar de gente. Claro que isso implica em ética, em dignidade.
Cineweb - Mesmo assim, você coloca os velhos jogadores acima dessa falta de ética geral.
Giorgetti - Eles são reservas morais. A entrada do Sócrates, aliás, é exemplar. Ele é do tempo das Diretas-Já, da Democracia Corintiana, é alguém que não tem papas na língua. O fato de ele estar aí no filme é justamente para reforçar este discurso.
Cineweb - Bem diferente do ídolo moderno, o Marquinhos (José Trassi), um dos personagens do teu filme.
Giorgetti - O Marquinhos não sabe de nada. Ele entra no bar, dá entrevistas, come uma empanada e vai embora. Só faz aquilo que os empresários dele estipularam.
Cineweb - Você não teme que, por esse tom mais sombrio, o filme possa ser mal recebido pelo público?
Giorgetti - Não estou preocupado com isto. Primeiro, o cineasta tem que tentar responder ao dinheiro que recebeu para fazer seu filme. Tenho que responder ao que me é dado para fazer o melhor de mim. Sou subsidiado, como todos os cineastas. E é dinheiro público.
Cineweb - Qual é a tua maior preocupação, então, ao fazer um filme?
Giorgetti - Estou preocupado com que fique alguma coisa, em aumentar o patrimônio cultural do País. No fim, os filmes ficam por aí. Até hoje, de repente me liga alguém e fala de Jogo Duro (1985), que foi meu primeiro filme. Acho que não se pode fazer filmes para as pessoas não verem. Boleiros 2 não é hermético. Acho que nele há uma ironia, um humor. O problema é que estamos simplificando demais as coisas. Ninguém se lembra do último filme sobre futebol, aquele sobre o Palmeiras e o Corinthians (”O Casamento de Romeu e Julieta”, de Bruno Barreto). Então, em Boleiros 2, fiz o melhor que pude. Melhor do que isso, eu não sei fazer.
