06/06/2026

“Irma Vap” tenta repetir no cinema o sucesso do teatro

A montagem brasileira da peça O Mistério de Irma Vap fez tanto sucesso no teatro que entrou para o livro dos recordes. O espetáculo ficou 11 anos em cartaz com o mesmo elenco e fez mais de 3 milhões de espectadores. Com todo esse êxito, adaptá-lo para o cinema era um desafio, que acabou sendo aceito pela cineasta Carla Camuratti. Dirigida por ela, a comédia Irma Vap – O Retorno estreou no dia 7 de abril em todo o País, em pouco mais de 100 salas.

“É difícil traduzir para o cinema a rapidez do timing da comédia no teatro. E não dá para ter aquela interatividade com o público”, analisa Carla, que em seu currículo conta com o sucesso que abriu o caminho para a Retomada do cinema nacional, Carlota Joaquina – A Princesa do Brazil (1994) e Copacabana. Para a diretora, o principal era ter o elenco certo para fazer um bom trabalho. Por elenco certo, entenda-se Ney Latorraca e Marco Nanini, que fizeram a peça no teatro.

Para Latorraca, foi um prazer poder retomar os personagens quase dez anos depois da peça. “O longa é um exercício de humor. Num mundo com tanta coisa ruim, provocar um sorriso é uma vitória”, pondera o ator que no filme faz dois personagens, Darci e Odete Lopes, além dos outros quatro da peça.

Irma Vap – O Retorno não é uma mera transposição do espetáculo teatral para o cinema. Há uma nova estrutura cinematográfica que justifica a montagem da peça na tela. São duas as referências básicas no roteiro escrito por Carla, Adriana Falcão e Melanie Dimantas. A primeira é Rebecca – A Mulher Inesquecível, que vem do texto do teatro. A outra é o filme O Que Terá Acontecido a Baby Jane? (63), de Robert Aldrich.

Dos novos personagens criados para o cinema, Nanini faz a dupla que tem Baby Jane como pano-de-fundo. O ator faz os irmãos Cleide e Tony Albuquerque. Ele é um ator preso a uma cadeira de rodas; ela, uma estrela musical de outrora que parece ter perdido o juízo.

Para Nanini, seus dois personagens são complementares e figuras bem humanas, o que funciona como homenagem ao trabalho do ator, um profissional que tenta humanizar os tipos mais estranhos. “A Cleide é louca e é muito bom fazer loucos, porque eles têm muita nuance”, avalia.

No roteiro, Tony é o detentor dos direitos da montagem de Irma Vap para o teatro e fez sucesso quando era jovem na peça, ao lado do amigo Darci, que agora é um ator decadente. Dois produtores (Marcos Caruso e Leandro Hassum) decidem fazer uma nova montagem do espetáculo e tentam adquirir os direitos.

Cleide os vende, sem que o irmão saiba, e impõe uma série de condições. Entre elas, participar dos ensaios do espetáculo. E, por isso, acaba apaixonada por um jovem ator (Thiago Fragoso), que interpreta os personagens que seu irmão fez no passado no palco.

“O filme, como a peça, é uma brincadeira com uma série de clichês”, explica Carla. Ainda assim, ela deixa claro que entende que Irma Vap – O Retorno é para todos os públicos, não apenas para quem viu a peça.

Fragoso e Fernando Caruso, que fazem os atores da nova montagem da peça, não viram o espetáculo no teatro e acreditam que isso os ajudou na hora de compor seus personagens. “Isso foi bom, porque não tínhamos nenhuma influência na hora de criar”, explica Caruso (que faz os papéis que foram de Latorraca no teatro). Ainda assim, em alguns momentos os veteranos deram algumas dicas aos dois atores.

“Eu estava com dificuldade de fazer a Lady Enid [uma personagem feminina da peça] e o Nanini me ajudou bastante a encontrar o tom certo”, alega Fragoso, que também diz ter incluído algumas improvisações com a permissão da diretora.

Quanto a trabalharem novamente juntos, os amigos Latorraca e Nanini não escondem a alegria. “No teatro seria impossível, mas é ótimo poder voltar a fazer a peça dentro do filme”, explica Nanini, que repete a parceria com a diretora pela terceira vez.

Em sua base, Irma Vap – O Retorno é uma homenagem ao teatro, à profissão de ator. “A cena inicial apresenta diversos atores famosos declamando falas de peças conhecidas. Para mim, a mais importante é uma de Um Bonde Chamado Desejo, algo como ‘eu não digo a verdade. Eu digo o que deveria ser verdade”, confessa Carla.

Carla também tem uma relação estreita com Irma Vap. Seu segundo filme foi o curta “Bastidores”, no qual mostrava o que acontecia atrás do palco durante uma performance da peça, que foi escrita pelo norte-americano Charles Ludlam, em 84, e incluía inúmeras trocas de roupas rapidíssimas dos atores principais.

Desde o curta até Irma Vap – O Retorno passaram-se mais de 15 anos e muita coisa mudou na vida da diretora, que deixou de lado a profissão de atriz. Apesar da paixão pela atuação, ela diz que não pensa mais em atuar: “Sou muito mais feliz dirigindo”.