Novos de Kiarostami e Manoel de Oliveira têm exibição na primeira semana da Mostra
- Por Neusa Barbosa
- 24/10/2010
- Tempo de leitura 4 minutos
Para quem for ver o mais recente filme de Oliveira, ativo às vésperas do 102º. aniversário (em dezembro), um brinde extra é um curta-metragem do realizador, que foi apresentado no último Festival de Veneza, “Paineis de São Vicente de Fora, Visão Poética”. Atendendo a uma encomenda da Fundação Serralves, o cineasta português inspirou-se num antigo painel pintado em Portugal, reencenando o seu tema com atores.
Admirável jogo de verdades e mentiras de um casal, formado por Juliette Binoche (vencedora do prêmio de melhor atriz) e o cantor lírico William Shimell, “Cópia Fiel” constitui um dos trabalhos mais elaborados do iraniano Kiarostami (vencedor da Palma de Ouro por “Gosto de Cereja”).
Aliás, a verdadeira natureza do relacionamento destes dois é uma das chaves da história, cheia de pistas falsas, mantendo a surpresa do espectador, que perde o fio da meada mas é estimulado a seguir o enredo até o final.
Filmado em belos cenários da Toscana, na Itália, o filme é movido pelos altos e baixos da paixão na maturidade, usando um discurso amoroso que oscila também entre diversas línguas, inglês, francês e italiano. Uma atração à parte é o roteirista Jean-Claude Carrière, habitual parceiro de Luis Buñuel em filmes como “Bela da Tarde” (67), aqui fazendo uma ponta numa sequência bem divertida.
Apoiado numa história que Manoel de Oliveira imaginou pela primeira vez há mais de 50 anos, “O Estranho Caso de Angélica” é o primeiro filme da extensa obra do cineasta português em que ele recorre à animação 3D, usada em cenas de sonho.
Oliveira cogitou fazer este filme no pós-II Guerra, motivado pela matança de judeus na Europa por Hitler. O protagonista do filme é, aliás, um judeu sefardita, Isaac (Ricardo Trêpa, neto do diretor e seu ator-fetiche), um detalhe notável por si, diante do catolicismo majoritário em Portugal. A morte igualmente é uma presença constante, uma vez que Isaac, um fotógrafo, é assombrado por suas impressões sobre Angélica (Pilar López de Ayala, atriz que pode ser vista em “Lope”, também na programação da Mostra), uma jovem rica morta, cuja mãe (Leonor Silveira) pediu ao rapaz que a fotografasse antes do sepultamento, para guardar uma última imagem da filha.
A partir deste começo, toda a situação é mesmo muito surreal, com um toque macabro, especialmente porque o fotógrafo não consegue tirar da cabeça a bela morta – que ele vê como um fantasma que o leva para voar.
Este uso de uma tecnologia de última geração num filme que se relaciona a todo momento com a nostalgia do passado – como no apego do fotógrafo ao filme analógico e sua preferência por fotos de trabalhadores manuais – é apenas um dos detalhes da particular visão de Oliveira.
Em mais de um momento da história, o arcaico e o moderno se fundem. O personagem do fotógrafo tanto manifesta apego por registrar cenas do trabalho agrícola manual, em extinção, como entusiasma-se por discutir os mais graves dilemas contemporâneos, como a crise econômica mundial, a poluição e a complexidade da matéria e antimatéria – todos eles assuntos de uma conversa entre engenheiros, da qual participa a atriz brasileira Ana Maria Magalhães.
O ESTRANHO CASO DE ANGÉLICA
CINEMARK SHOPPING ELDORADO sala 7
CINESESC
CENTRO CULTURAL BANCO DO BRASIL
Duas das grandes atrações do Festival de Cannes 2010 têm suas últimas exibições nesta primeira semana da Mostra Internacional de Cinema: ”Cópia Fiel”, de Abbas Kiarostami – que garantiu o prêmio de melhor atriz a Juliette Binoche – e “O Estranho Caso de Angélica”, de Manoel de Oliveira, que abriu a seção Un Certain Regard no mesmo festival.
Para quem for ver o mais recente filme de Oliveira, ativo às vésperas do 102º. aniversário
(em dezembro), um brinde extra é um curta-metragem do realizador, que foi apresentado no último Festival de Veneza, “Paineis de São Vicente de Fora, Visão Poética”. Atendendo a uma encomenda da Fundação Serralves, o cineasta português inspirou-se num antigo painel pintado em Portugal, reencenando o seu tema com atores.
Admirável jogo de verdades e mentiras de um casal, formado por Juliette Binoche (vencedora do prêmio de melhor atriz) e o cantor lírico William Shimell, “Cópia Fiel” constitui um dos trabalhos mais elaborados do iraniano Kiarostami (vencedor da Palma de Ouro por “Gosto de Cereja”).
Aliás, a verdadeira natureza do relacionamento destes dois é uma das chaves da história, cheia de pistas falsas, mantendo a surpresa do espectador, que perde o fio da meada mas é estimulado a seguir o enredo até o final.
Filmado em belos cenários da Toscana, na Itália, o filme é movido pelos altos e baixos da paixão na maturidade, usando um discurso amoroso que oscila também entre diversas línguas, inglês, francês e italiano. Uma atração à parte é o roteirista Jean-Claude Carrière, habitual parceiro de Luis Buñuel em filmes como “Bela da Tarde” (67), aqui fazendo uma ponta numa sequência bem divertida.
Apoiado numa história que Manoel de Oliveira imaginou pela primeira vez há mais de 50 anos, “O Estranho Caso de Angélica” é o primeiro filme da extensa obra do cineasta português em que ele recorre à animação 3D, usada em cenas de sonho.
Oliveira cogitou fazer este filme no pós-II Guerra, motivado pela matança de judeus na Europa por Hitler. O protagonista do filme é, aliás, um judeu sefardita, Isaac (Ricardo Trêpa, neto do diretor e seu ator-fetiche), um detalhe notável por si, diante do catolicismo majoritário em Portugal. A morte igualmente é uma presença constante, uma vez que Isaac, um fotógrafo, é assombrado por suas impressões sobre Angélica (Pilar López de Ayala, atriz que pode ser vista em “Lope”, também na programação da Mostra), uma jovem rica morta, cuja mãe (Leonor Silveira) pediu ao rapaz que a fotografasse antes do sepultamento, para guardar uma última imagem da filha.
A partir deste começo, toda a situação é mesmo muito surreal, com um toque macabro, especialmente porque o fotógrafo não consegue tirar da cabeça a bela morta – que ele vê como um fantasma que o leva para voar.
Este uso de uma tecnologia de última geração num filme que se relaciona a todo momento com a nostalgia do passado – como no apego do fotógrafo ao filme analógico e sua preferência por fotos de trabalhadores manuais – é apenas um dos detalhes da particular visão de Oliveira.
Em mais de um momento da história, o arcaico e o moderno se fundem. O personagem do fotógrafo tanto manifesta apego por registrar cenas do trabalho agrícola manual, em extinção, como entusiasma-se por discutir os mais graves dilemas contemporâneos, como a crise econômica mundial, a poluição e a complexidade da matéria e antimatéria – todos eles assuntos de uma conversa entre engenheiros, da qual participa a atriz brasileira Ana Maria Magalhães.
O ESTRANHO CASO DE ANGÉLICA
CINEMARK SHOPPING ELDORADO sala 7
CINESESC
CENTRO CULTURAL BANCO DO BRASIL
(Domingo)
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