22/07/2026

Memória de viagem dos anos 1970 tem primeira sessão na CineOP

Ouro Preto - A grande atração deste domingo na CineOP foi um filme cuja mera existência é quase um milagre. Boom Shankar - o filme perdido do Guará, de Sergio Gag, resgata a memória de uma viagem feita em 1972, num trajeto que começa em Amsterdã, na Holanda, e passa por Bulgária, Turquia, Paquistão, Afeganistão e Irã até chegar a Goa, na Índia. Uma viagem que foi documentada em filme, dirigido e interpretado por Guará Rodrigues (1943-2006), o ator de obras como O anjo nasceu e Matou a família e foi ao cinema, de Julio Bressane. Rodrigues pretendia realizar, com um grupo de amigos, uma viagem inspirada em Marco Polo - evidentemente atualizada no registro da liberdade sexual e do desbunde dos anos 1970, uma reação à repressão da ditadura militar brasileira, então no seu auge, em pleno enfrentamento pela geração sexo, drogas e rock’n’roll.
A viagem aconteceu, em parte a bordo de uma Kombi, na companhia de Toni Nogueira, que assina a fotografia, e Célia Messias - que depois se casaram -, Carlos Figueiredo, o Carlão, a alemã Cornelia, dona da Kombi e o namorado, entre outros que foram se incorporando e saindo da trupe ao longo do caminho. O resultado foram duas horas de filme, revelados, base de uma primeira montagem em Londres, com a qual Guará não ficou satisfeito. Depois, o material desapareceu e ficou perdido até recentemente, quando Toni Nogueira encontrou cerca de uma hora de imagens, que sofreu os inevitáveis danos do tempo.

Comentários

Esse material serviu de base ao filme de Gag, que aproveita sequências dos viajantes por esses países hoje tão diferentes - especialmente o Afeganistão -, em momentos de atuação claramente influenciados pelo Cinema Marginal do qual Guará fazia parte e com inserções de narrações em off dos personagens ainda vivos, como Toni, Célia e Carlão, comentando o que faziam e viviam naquele momento.

Apresentando a sessão de ontem, Toni e Célia contaram que se apaixonaram durante a filmagem. Ela conheceu Guará quando era uma jovem repórter de jornal em Minas Gerais e foi entrevistá-lo, junto com outros cineastas, e os dois tornaram-se amigos.
Toni recordou que se auto-exilara por conta da ditadura, primeiro no Chile, depois na Europa. Lá encontrou Guará e partiram nessa viagem rumo à Índia, na época um lugar celebrado pelos hippies. Não era um trajeto simples. Havia guerra na região, na fronteira entre Índia e Paquistão e tiveram que esconder a câmera debaixo do banco da Kombi. Em Goa, que havia sido colônia portuguesa até 1961, Toni diz que encontraram “um paraíso tropical”. Vários outros brasileiros estavam lá, caso do também cineasta Andrea Tonacci.

De todo modo, esta que foi a primeira sessão pública de Boom Shankar - o filme perdido do Guará e teve o mérito de compartilhar o sonho cinematográfico de Guará, que seus parceiros de jornada confessam que não sabiam exatamente o que era, ou seja, que tipo de filme ele queria fazer. Mas, ao menos, a memória da viagem não foi perdida. E os seus participantes, na plateia do Cine-Teatro do Centro de Convenções, estavam visivelmente emocionados ao reencontrar-se consigo mesmos na tela, mais de 50 anos atrás.

Encerramento

Nesta noite de segunda, a CineOP encerra-se com vários debates ao longo do dia e um inédito Cine-Concerto francês,
Tela Sonora, de Xavier Garcia e Jérôme Lopez, a partir das 20h, na praça Tiradentes.