22/07/2026

Ouro Preto destaca raridades e experiências de animadoras

Ouro Preto - Numa mostra que tem como um de seus lemas o cinema como patrimônio, fez todo sentido incluir uma sessão do raro Uma vida para dois, drama brasileiro de 1953 dirigido por Armando Miranda e Sérgio Britto - o único título dirigido pelo ator, que assina também os diálogos e morreu em 2011.
O filme marca o centenário do produtor Mário Civelli (1923-1993), cuja filha, Patrícia Civelli, à frente do Memória Civelli, lidera o esforço para restaurar este filme, exibido numa versão escaneada a partir de uma cópia 16mm que já apresentava sinais de deterioração. Como lembrou Patrícia na apresentação, encontrar esta cópia salvou o filme, cujos negativos foram perdidos há cerca de 40 anos. A partir de agora é que terão início os trabalhos de recuperação de imagem e som, para os quais ainda se terá que obter recursos.

De todo modo, a sessão de Uma vida para dois permitiu tomar conhecimento desta obra de 71 anos, que assimila influências do cinema noir ao contar a história de dois amigos, Mário e Marco (Orlando Villar e Luigi Picchi), que vivem pobremente, um tentando firmar-se como compositor, o outro como escritor. Os dois se apaixonam pela mesma mulher, Marina (Liana Duval), e, a partir dessa rivalidade amorosa, estabelece-se um estranho pacto entre os dois que terá consequências drásticas, mudando o tom do filme.

Brasileiros no Benin

Na mostra Contemporânea, a atração foi o documentário Agudás - os brasileiros do Benin, de Aída Marques, que examina a experiência dos descendentes de africanos escravizados no Brasil que retornaram à África depois da Abolição, no século XIX. No Benin - antigo reino do Daomé, de onde muitos deles provinham -, estes retornados estabeleceram-se, formando uma comunidade diferenciada, introduzindo traços da cultura brasileira, como a música e a culinária, além de guardarem os sobrenomes de seus senhores, como Lima, De Medeiros e Souza, que subsistem até hoje.

Uma parte mais polêmica desta comunidade surge do fato de que alguns destes chamados “Agudás” teriam se envolvido no comércio de escravos - um tema que é polêmico e tratado de diferentes formas pelos diversos entrevistados, entre eles artistas e escritores.

Animadoras em ação

Um dos debates mais interessantes do festival ocorreu na manhã do sábado (22) entre animadoras de diferentes gerações que compartilharam suas diferentes experiências no ramo. A veterana Helena Lustosa, uma artista plástica que trabalhou com Hélio Oiticica, lembrou seu desejo de experimentação em curtas como Gineceu (1986) - visto por um milhão de espectadores durante a vigência da Lei do Curta - e Mademoiselle Cinéma (1996), uma ousada incursão no gênero erótico que teve reconhecimento internacional.

Outra veterana, Rosana Urbes, que trabalhou oito anos nos EUA, nos estúdios Disney, recordou a trajetória de seu celebrado curta Guida (2014), premiado no Festival de Annecy 2015 como melhor primeiro filme e que acompanha as emoções de uma arquivista de meia-idade, prestes a se aposentar e que assume um desafio ao candidatar-se a posar como modelo vivo. Os traços da personagem foram inspirados na atriz Tuna Dwek.

Ingrid Wagner, do coletivo paranaense Irmãos Wagner - de quem o festival mostrou em sua noite inaugural o curta Respeitável Público (1987) - destacou a experiência do clã a partir de uma câmera familiar super-8, o que levou que ela e os irmãos partissem para uma experimentação que começou com materiais caseiros, como guache e uma copiadora, para depois utilizarem o papel e o acetato, numa época em que ainda não existiam internet, Youtube nem meios digitais - e a formação era autodidata.

Da geração mais jovem, Nara Normande destacou ter-se iniciado com o curta Dia Estrelado (2007), aos 19 anos, num tempo em que o Recife, onde ela morava, não dispunha ainda de uma escola de cinema (ela estudava Jornalismo e Letras). Ou seja, foi também, uma entrada na animação a partir da cara e da coragem, da experimentação e da troca com outros profissionais.

Em 2018, Nara realizou o premiado Guaxuma, uma animação autobiográfica em que decidiu usar várias técnicas de animação em areia - o que dificultou a obtenção de recursos e a levou a recorrer a editais na França, onde finalmente teve que trabalhar por seis meses.

Obter recursos para um gênero que custa um tempo maior do que outras produções é sempre um desafio, independente da geração. A jovem Camila Kater, diretora do premiado curta Carne (2019), conta que o projeto começou a partir de um edital da SPCine de apenas R$ 80.000,00 - orçamento muito reduzido em termos de animação. Como a diretora sentiu necessidade de usar também várias técnicas para dar conta das diferentes histórias narradas nos depoimentos que colheu de mulheres, a partir de sua relação com o próprio corpo, ela também acabou partindo para procurar recursos fora do Brasil, no caso na Espanha - o que, segundo ela, lhe abriu um caminho para a distribuição internacional, que mudou a trajetória que o curta percorreu.

A boa notícia é que, apesar de todas as dificuldades, todas as diretoras estão com projetos prontos ou engatilhados. Helena Lustosa completou Buda woman, ainda inédito, um longa híbrido de live action e animação, inspirado numa viagem da diretora à Índia. Rosana Urbes concluiu o curta Safo, sobre a famosa poeta grega da Antiguidade e que está recebendo trilha sonora. Nara Normande produz Terra nua, um longa live action com sequências em animação. Camila Kater tem um projeto de realização da série Carne, desta vez focalizando pessoas não-binárias em diversos países. E Ingrid Wagner destacou ter projetos centrados em ecologia e no fandango, gênero de dança paranaense.