"Manas" ecoa, em Veneza, vozes femininas de Marajó
- Por Neusa Barbosa, de Veneza
- 31/08/2024
- Tempo de leitura 7 minutos
Veneza - Segundo filme brasileiro a ser exibido em Veneza, na seção competitiva Jornada dos Autores,
Manas, da diretora Marianna Brennand, teve uma primeira sessão lotada nesta manhã de sábado (31), na sala Perla. Uma sessão para jornalistas, mas que terminou com aplausos que comoveram a diretora, presente à sessão.
Pesquisado ao longo de oito anos, Manas, que marca a estreia na ficção da documentarista pernambucana, aborda um tema tão duro quanto necessário: o abuso sexual infantil, tanto dentro da família quanto fora dela. No caso do filme, ambientado na ilha do Marajó, uma exploração sexual que ocorre dentro das balsas que circulam pelo rio Tajipuru, e se tornam um meio excuso de sobrevivência num lugar marcado pelo isolamento geográfico e pela pobreza.
A protagonista é a estreante Jamilli Corrêa, uma adolescente que tinha 13 anos na época da filmagem, e interpreta Tiellli, a menina mais velha de um grupo de irmãos e que sofre assédio do pai (Rômulo Braga). A atriz Dira Paes interpreta Aretha, a policial que representa a intervenção do Estado numa situação que não se limita a essa menina, sendo crônica e, infelizmente, não limitada àquela região do Brasil - um drama universal que repercutiu também junto ao público veneziano.
Fotografado por Pierre de Kerchove, o filme é muito eficiente em retratar a imensidão desse rio, que representa ao mesmo tempo a riqueza dessa natureza e o fator determinante desse isolamento - que finalmente, aprisiona também a mãe da família (Fátima Macedo), ela mesma no passado vítima desse mesmo círculo vicioso de abuso feminino. É importante a escolha de humanizar, acrescentando nuances, mesmo a personagens evidentemente negativos, como o do pai, contextualizando a ignorância e o machismo sem desculpá-lo. Muito pelo contrário. Manas é um filme que se acompanha com o coração na boca, sentindo e sofrendo por sua pequena protagonista tendo que tão cedo lidar por si mesma com questões tão avassaladoras num contexto em que não há apoio nem mesma da igreja evangélica que frequenta - onde a palavra de ordem é manter as famílias unidas a qualquer custo, sem dar escuta a dramas como o abuso infantil.
Marianna Brennand e Dira Paes concederam entrevista exclusiva a Neusa Barbosa em Veneza, que podem ser vistas nas redes sociais do Cineweb.
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Ousadia na competição
Babygirl, da diretora holandesa Halina Rejin, corre o risco de ser o filme mais incômodo da seleção competitiva deste ano. O que não é surpresa em se tratando de uma obra que aborda o desejo do ponto de vista feminino - e não um desejo qualquer e sim um que envolve jogos de poder, submissão e uma ponta de masoquismo. Chama mais atenção ainda um filme assim por ter à frente do elenco ninguém menos do que uma estrela internacional como Nicole Kidman - que, curiosamente, esteve neste mesmo festival, 25 anos atrás, para a exibição de outro filme polêmico envolvendo sexualidade e perversão, De Olhos Bem Fechados, de Stanley Kubrick, ainda ao lado do então marido Tom Cruise.
La Kidman tem coragem, não há dúvida, num filme em que ela expõe muito o próprio corpo, em cenas de sexo quentes, a primeira com o marido, Jacob (Antonio Banderas), as demais, em jogos eróticos com um jovem amante, Samuel (Harris Dickinson, visto em
Triângulo da Tristeza).
Há mais de um tabu, no entanto, neste roteiro, também assinado pela diretora. Além do sexo disparado por gatilhos proibidos e polêmicos, o do poder feminino, ambos articulados na figura da protagonista vivida por Kidman, Romy, uma executiva de sucesso numa empresa de robótica que galgou seu caminho na unha.
Essa mulher linda, ultra bem-tratada e no controle de todos os detalhes da vida profissional e das filhas cai sob o domínio de Samuel, um estagiário na sua firma, muito mais jovem e manipulador, que identifica uma brecha de fragilidade nesta construção de mulher que Romy armou para si mesma.
A diretora não teme ser provocativa na elaboração de suas cenas, em que o incômodo surge mais do que pelo sexo em si e muito mais por este jogo entre Romy e Samuel que inclui rituais de humilhação e colocam-na em perigo - porque ela não quer arriscar sua posição no mundo, muito menos sua família.
A tensão que a diretora habilmente constrói está não só na expectativa do que irá acontecer na vida de Romy mas do que move, afinal, esta mulher e seu jovem amante - ele quer ser um chantagista? Não há uma leitura banal de suas motivações. O mais interessante é como se consegue mover as engrenagens da história de um modo que acaba tendo uma leitura feminista, ainda que não pareça à primeira vista. Babygirl é, no fundo, um longo caminho para um empoderamento e não só de Romy, ainda que não se compartilhe seus peculiares gostos sexuais, que estão enraizados numa história pessoal - sem que o filme pretenda nenhuma psicologização desse aspecto. Há uma provocação em curso e ela não prevê o julgamento dos personagens, não aspira a ser um conto moral e nem punitivo.
E, sendo um filme conduzido por um olhar feminino, é capaz de produzir um admirável confronto de gerações masculinas numa de suas sequências finais, que é um primor de ironia. Essa ironia incomodou parte do público, mesmo numa das sessões de imprensa, a que eu assisti, em que não houve muitos aplausos, mas se ouviu um daqueles presentes na sala gritar, em espanhol: “Bochorno!” (literalmente, embaraço ou vergonha). A repercussão, quando passar nos cinemas, promete ser igualmente divisiva. Ponto para o filme ser capaz de despertar reações assim.
Crime e castigo
Fora da competição, a série Difamação (Disclaimer), do diretor mexicano Alfonso Cuarón, que foi exibida integralmente em duas partes, comunicou-se, tematicamente, com o filme de Halina Rejn, que também gira em torno de uma mulher poderosa, a premiada jornalista Catherine Ravenscroft (Cate Blanchett). Na meia-idade, ela é realizada, tem tudo o que quer, inclusive um casamento estável com o executivo Robert (Sacha Baron Cohen, surpreendendo pela solidez de interpretação num papel sério). Seu ponto fraco é o filho, Nicholas (Kodi Smit-McPhee), um jovem sem projeto de vida e que acaba contentando-se com um emprego modesto numa loja de aparelhos elétricos.
O pesadelo de Catherine, no entanto, vai começar a partir da publicação de um livro de ficção, que ela recebe pelo correio, em que o enredo é praticamente uma cópia fiel de episódios traumáticos de sua vida, décadas atrás, que ela escondeu de todos.
O mais interessante neste melodrama é a maneira como Cuarón, também autor do roteiro, adaptado de um livro de Renée Knight, explora as nuances das várias versões sobre fatos vividos pelas pessoas. Nos primeiros quatro capítulos, quem terá voz serão esses inimigos de Cate, que estão por trás do livro, na pessoa do professor aposentado Stephen Bridgestone (Kevin Kline, em grande forma). Stephen é um personagem movido por um intenso rancor pela morte de seu filho único, Jonathan (Louis Partridge), cujo envolvimento passado com Catherine é objeto de disputa.
Dependendo de quem fala, a versão dos fatos muda completamente. E só nos capítulos finais é que Catherine terá, definitivamente, os meios para se defender, depois de sofrer toda forma de constrangimento moral e até de cancelamento. É fácil entender por que Cate quis protagonizar e também produzir esta série, que dá chances enormes à talentosa atriz de brilhar em diversas nuances, num papel realmente avassalador. A estréia na Apple TV está prevista para outubro.
