21/07/2026

Filme argentino "Las Almas" vence a Cine BH

Belo Horizonte - O filme argentino Las Almas, de Laura Basombrío, foi o grande vencedor da 18ª Cine BH para o júri oficial, acumulando também o prêmio de melhor longa para o júri Abraccine (Associação Brasileira de Críticos de Cinema). Foi a consagração de um tipo de cinema híbrido, que se nutre visceralmente do documental mas recorre a algumas imprescindíveis reencenações, totalmente calcadas na realidade vivida, para reconstituir o modo de vida de uma pequena cidade, Tolar Grande, na região de Salta, norte argentino, a partir do ponto de vista de uma mulher, Estela.

Esta mulher madura, na meia-idade, é a grande força dentro de um filme que retrata de maneira singular a questão de gênero. Porque Estela, em crise com o casamento, com a violência doméstica, com a saudade que sente de sua mãe, morta há pouco, constrói suas reflexões de um modo tão consistente que, mesmo sem ser uma feminista clássica lato sensu, é afirmativa, autêntica, genuína da maneira mais honesta e forte, não lhe faltando igualmente um acento espiritual e místico.

É uma estreia marcante para uma jovem diretora, que já havia vencido três prêmios com o filme no Festival de Mar del Plata de 2023 - melhor direção, fotografia e menção especial para o som. Laura Basombrío, aliás, ao receber seu prêmio, fez um veemente protesto contra o desmonte pelo governo de Javier Milei das políticas públicas que sustentam a produção cinematográfica argentina, em torno do INCAA (Instituto Nacional de Cinema Argentino).

Outro prêmio, o Destaque do Júri, foi dado à coprodução colombiano-alemã Carropasajero, dos diretores Juan Pablo Polanco Carranza e Carlos Alejandro Jaimes, destacando sua “fotografia exuberante e poética”. Realmente, é uma fotografia especialmente construída, que lembra o claro-escuro dos filmes do português Pedro Costa e é a moldura precisa para uma rearticulação mítica das memórias dos indígenas Wayuu diante de um passado massacre.

Finalmente, o prêmio de melhor Presença foi atribuído à ativista uruguaia Karina Núñez, protagonista do documentário uruguaio-argentino Mala Reputación, das diretoras Sol Infante e Marta García, fazendo justiça à trajetória dessa incansável lutadora pelos direitos das trabalhadoras sexuais no Uruguai.

Outros títulos

Dentro de uma programação que destaca a produção latino-americana, o festival apresentou outros títulos notáveis em outra mostra paralela, a Continentes, como Praia Formosa, de Júlia de Simone, uma coprodução entre Brasil e Portugal que representa de maneira poética e dramaticamente muito consistente o tema da diáspora africana. O enredo desenvolve-se em torno de duas figuras femininas, Muanza e Kieza, tematizando o colonialismo, a escravização dentro de deslocamentos temporais, incorporando descobertas de vestígios de uma história apagada, como o cais do Valongo, no Rio de Janeiro. O filme foi exibido anteriormente nos festivais de Roterdã e no Olhar de Cinema.

Na mesma mostra, o documentário dominicano Ramona, da diretora Victoria Linares Villegas, esboça uma reflexão sobre a equação unindo pobreza, exclusão social e gravidez precoce a partir de uma alegada pesquisa de uma atriz para compor uma personagem com esse contexto num filme - o que dá oportunidade a que as próprias personagens reais falem por si dentro da narrativa.

Vencedor do prêmio de melhor direção no mais recente Festival de Berlim, Pepe, coprodução entre Colômbia, República Dominicana e Namíbia, do diretor Nelson Carlo de los Santos Arías,
cria uma ficção delirante em torno de um dos hipopótamos trazidos da África pelo narcotraficante Pablo Escobar para a Colômbia, dando-lhe voz e tornando-o o epicentro de uma alegoria sobre várias formas de violência, poder e desagregação, inclusive ambiental. Em parte, a história é contada do ponto de vista do animal, ouvido falando três línguas (espanhol africâner e mbukushu). E, para retratar esta história, incrivelmente baseada em fatos reais, o diretor vale-se de tudo: trechos documentais, animação, filme 16mm e muito mais, criando uma crônica acelerada e cínica de histórias de realismo mágico que muitas vezes ocorreram no subcontinente latino-americano.

Balanço

Ao longo dos seis dias do festival em Belo Horizonte, entre debates, sessões e exibições na praça da Liberdade, o evento registrou um público de mais de 15 mil pessoas, alcançou mais de 1,8 milhão de pessoas nas redes sociais e a plataforma do evento foi acessada por mais de 75 mil pessoas, de 49 países. A cobertura jornalística foi feita presencialmente por 42 veículos de imprensa de todo o Brasil, representados por 62 jornalistas, incluindo a revista uruguaia Latam Cinema. Mais de 250 veículos de comunicação fizeram a cobertura do evento.