Documentário radiografa dilemas da educação pós-pandemia
- Por Neusa Barbosa, de Belo Horizonte
- 28/09/2024
- Tempo de leitura 3 minutos
Belo Horizonte - Primeiro longa brasileiro da competição da mostra Território, o documentário Ausente marca a estreia em longas da diretora mineira Ana Carolina Soares, autora do premiado curta Estado Itinerante (2016).
Como naquele curta ficcional - disponível gratuitamente na plataforma Embaúba Play -, que retratava o cotidiano de uma cobradora de ônibus ansiosa por romper um relacionamento opressivo, neste documentário a diretora demonstra um agudo senso de observação, retratando o cotidiano de uma escola estadual, a Alaíde Lisboa, na região leste de Belo Horizonte, na volta às aulas depois da pandemia, em 2022.
Localizada na periferia da capital mineira, a escola defronta-se com imensos desafios com esse retorno às aulas. Às sequelas físicas e psicológicas da pandemia, somam-se as dificuldades dos alunos decorrentes do ensino remoto, as contradições da implantação do Novo Ensino Médio e problemas sociais agudos que atingem particularmente as camadas populares, como conflitos raciais, gravidez precoce e envolvimento com drogas.
Atravessando um período político e social sombrio no país, marcado ainda pela suspensão dos editais de captação de recursos para o cinema, a diretora compensa a escassez orçamentária redobrando o olhar atento aos detalhes, traçando um perfil multifacetado do coletivo, da instituição, que pulsa numa vida cotidiano repleta de desafios, assumindo a inspiração na obra do documentarista norte-americano Frederick Wiseman, um notável retratista de instituições, em filmes como Titicut Follies (1967), A Dança - O Balé da Ópera de Paris (2009) e City Hall (2022).
O título, Ausente, traduz um quadro de carências, ou seja, aquilo que está faltando à educação, à adolescência, e que na escola se verifica com um alto índice de evasão escolar que um dedicado corpo docente e administrativo procura desesperadamente conter - o que evidencia outro aspecto desta realidade, a precariedade de recursos que, na educação, foi agravada por cortes provocados por mudanças de governo e políticas como o congelamento de recursos por 20 anos decretado em 2017 (felizmente revertido depois).
A longa duração do documentário - 150 minutos - é reconhecida pela diretora como uma dificuldade para sua exibição em cinemas, projeto com o qual ela continua a sonhar. Mas Ana Carolina, que trabalhou como professora temporária entre 2015 e 2016, num debate após o filme, comenta que gostaria também de vê-lo exibido nos ambientes escolares.
Vários dos alunos retratados compareceram à sessão do documentário, na noite de sexta (27), no Cine Humberto Mauro. Infelizmente, devido ao adiantado da hora, não ficaram para o debate. Teria sido interessante ouvi-los sobre o que foi projetado na tela.
Performances
Já o concorrente colombiano Posesión Suprema, de Lucas Silva, enveredou pelo caminho experimental, focado na performance, para resgatar as influências da figura de Domingos Benkos Biohó, Trazido como escravo da Guiné Bissau, Beko tornou-se um líder na região de Cartagena das Índias, onde fundou o Palenque de San Basilio, considerado o primeiro território negro livre das Américas.
Com uma montagem acelerada e o recurso a uma variada malha sonora, o filme compõe esse trajeto mítico de Benko entre diversos cenários e épocas, enfatizando a visibilidade das raízes africanas da Colômbia.
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