Vozes de mulheres e indígenas destacam-se na seleção da CineBH
- Por Neusa Barbosa, de Belo Horizonte
- 27/09/2024
- Tempo de leitura 3 minutos
Belo Horizonte - Diretora-revelação, a jovem chilena Laura Donoso impressiona no seu primeiro longa, Sariri, seu projeto de conclusão de curso na Universidad del Desarrollo. Um dos raros títulos de ficção da mostra competitiva Territórios, o filme assume uma marcada intenção de falar de questões de gênero, no ambiente de uma pequena vila mineradora no norte do Chile.
O local ficcional adota o nome de La Lagrima, denotando o clima de melancolia e desolação de uma região montanhosa e desértica, de escassa população, em que a única atividade econômica, a mineração, está visivelmente se esgotando.
As relações familiares são tradicionais, cabendo aos homens o exaustivo trabalho na mina, um ambiente proibido às mulheres, por superstição - reza a lenda que se elas adentrarem o ambiente, causarão desmoronamentos e outros desastres. O folclore local diz que o interior das minas é habitado por uma misteriosa besta, uma espécie de diaba de olhos vermelhos.
Duas irmãs, Dina (Catalina Ríos) e Sariri (Martina González), catalisam a discussão sobre a condição feminina que é central na história. Dina, a mais velha, com 17 anos, é casada e surpreendida por uma gravidez para ela, indesejada. Ela sonha em sair dali e centraliza seus planos num mirabolante projeto de vencer um concurso de talentos na cidade grande e ganhar dinheiro para fugir com a irmã menor.
Sariri, por sua vez, está às vésperas da primeira menstruação que, naquele ambiente primitivo, exige que ela se afaste da comunidade, ficando sozinha num abrigo nas montanhas desérticas até que o sangue deixe de correr. Depois disso, as meninas são encaminhadas a casamentos precoces, iniciando uma vida sem outras escolhas ou horizontes.
Presente em Belo Horizonte, a diretora contou que, mesmo não se tratando de um relato realista, inspirou-se livremente em crenças e superstições comuns em várias regiões, não só no Chile, e que nutrem a sujeição das mulheres a fenômenos naturais envolvendo seus corpos, subtraindo-lhes a livre escolha. Ela filmou no povoado de Condoriaco, região de Coquimbo, no norte chileno, um lugar que já teve atividade mineradora intensa e reuniu 3 mil habitantes, dos quais não restam mais do que dez.
Este ambiente, além da estreita colaboração dos moradores, que funcionam como extras no elenco, foi fundamental à organicidade da história. A equipe do filme viveu lá cerca de um mês. A menina Martina González, estreante, foi selecionada num casting na região. Catalina Ríos já era atriz profissional.
Memórias da rebelião
Raríssimo representante da cinematografia panamenha, o documentário Bila Burba, do também estreante diretor Duiren Wagua, resgata a memória de uma revolta promovida pelos indígenas Gunadule, em 1925, lutando contra a pretendida expropriação de suas terras pelo estado panamenho.
Desde essa data, há quase 100 anos, os Gunadule promovem reencenações dos episódios da rebelião, vestindo-se e maquiando-se como num espetáculo teatral que toma as ruas da comunidade e tem a participação de jovens e adultos. A intenção é manter viva a memória dessa luta, cuja vitória não é completa até os dias de hoje.
Embora cumprindo a contento sua intenção de dar voz a esse povo oprimido, o documentário gira um pouco em falso com uma repetição excessiva e, eventualmente, confusa, que dificulta a compreensão da sequência de fatos.
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