22/07/2026

Competição focaliza contradições da América do Sul, com minorias vulneráveis

Belo Horizonte - Dando início à mostra competitiva Territórios, o documentário Mala Reputación, das diretoras Sol Infante e Marta García [assista ao trailer aqui], trouxe à luz a luta pela legalização do trabalho sexual no Uruguai, centralizando-se na figura da ativista Karina Núñez.
Tema controverso em qualquer país, o assunto é traduzido com admirável clareza por esta militante incansável, cujo corpo traz as marcas de uma labuta ingrata e marcada pela exploração desde a pré-adolescência. Por isso, é evidente porque as diretoras ficaram tão impactadas por essa mulher, que conheceram há oito anos e se tornou sua guia neste mundo clandestino, levando-as ao encontro de diversas outras personagens. Ao final desta jornada, conforme relatou em Belo Horizonte a diretora Sol Infante, elas tinham reunido nada menos do que 100 horas de material, exigindo um longo processo de montagem, realizado em duas etapas. A primeira delas, realizada por Veronica de Cata na Argentina (que é coprodutora do filme), sem a participação das diretoras - por sua própria hesitação -, a segunda no Uruguai, com Guillero Madeiro, com sua ativa participação, depois de terem assumido que tipo de filme realmente desejavam, no formato atual.

É mesmo Karina quem consegue materializar as contradições da lei uruguaia, que descriminaliza desde 2002 o trabalho sexual mas tem em vista não a proteção dos trabalhadores, mas de seus clientes - pensando neles é que exige exames médicos mensais para que possam continuar atuando. Esses trabalhadores, em grande parte mulheres, não estão, no entanto, registrados no Ministério do Trabalho, e sim no do Interior, o que significa sob o poder da polícia.

Viajando por todo o país para organizar suas colegas, Karina se torna porta-voz de uma luta por um marco legal mais abrangente, que garanta a elas direitos como aposentadoria. Ao mesmo tempo, o documentário não mascara o fato de que a própria organização destas mulheres tem como foco o gradual desaparecimento de sua atividade, substituindo-a por outras mais dignas. A história da própria Karina mostra o quanto é difícil abandonar esta vida, relatando sua tentativa frustrada, anos atrás, de obter uma vaga de faxineira de banheiros.

No curto prazo, a atuação da Karina à frente do coletivo OTRAS (Organización de Trabajadoras Sexuales) tem fortalecido também a luta contra a exploração sexual, especialmente de menores, negando o acesso a quaisquer pessoas envolvidas com esse tipo de atividade.

No mundo Wayuu

No mesmo cenário do potente Pássaros de Verão, de Ciro Guerra e Cristina Gallego, o deserto de La Guajira, no norte colombiano, o híbrido Carropasajero, dos diretores Juan Pablo Polanco Carranza e Cesar Alejandro Jaimes, focalizou o universo do povo indígena Wayuu, marcando a memória de um massacre ocorrido em 2004.

Utilizando-se do dispositivo de uma velha caminhonete adaptada que circula por esse imenso deserto, trazendo a bordo indígenas de volta ao território de onde foram expulsos por paramilitares, o filme enfatiza o lado místico da cultura Wayuu, em que a convivência com as memórias dos mortos é uma afirmação da continuidade da vida, pela reafirmação dos laços com os ancestrais.

Presente a BH, o diretor Juan Pablo Polanco enfatizou a busca de deixar em segundo plano a narração de uma história em favor das imagens e sons que habitam de forma particularmente poderosa este filme - que circulou em festivais como Visions du Réel, Cartagena e Guadalajara. O próprio Polanco assina a montage, o som é de Yesid Vásquez e a fotografia, que não raro lembra o chiaroscuro dos filmes do português Pedro Costa, é de Angelito Faccini.

Assistir ao filme é, de várias maneiras, manter uma vivência com esses indígenas de várias idades - há uma sequência toda com crianças que é particularmente eloquente - trocando relatos que intercalam vários tempos que se tocam, sem fronteiras entre a vida e a morte. Como não poderia deixar de ser, falados nas línguas originais, com pouquíssimas falas em castelhano.

Como relatou o diretor, Carropasajero constitui um díptico com o filme anterior dos mesmos cineastas, Lapú (2019), que igualmente retratava o universo dos Wayuu, mas cujo resultado, segundo Polanco, não os agradou o suficiente. Neste segundo filme, ele detalhou que procuraram escolher melhor os laboratórios em que trabalharam o roteiro para que obtivessem uma linguagem mais fiel, além de fortalecer a parceria com os próprios Wayuu, com quem convivem há sete anos.