21/07/2026

Mohsen Makhmalbaf - a câmera atenta à pulsação do mundo

Mohsen Makhmalbaf ainda se lembra da primeira vez que esteve na Mostra de S. Paulo. Foi em 1997, para mostrar Salve o Cinema. O cineasta iraniano tinha vindo ao Rio de Janeiro para uma palestra política quando Renata de Almeida e Leon Cakoff o convocaram e ele veio conhecer o festival paulistano. Nesta 48ª edição, ele volta a São Paulo, onde esteve outras vezes, para ser júri da Mostra pela segunda vez.

Makhmalbaf foi, aliás, uma das descobertas de Cakoff em festivais internacionais, sendo um pioneiro para apresentar no Brasil uma talentosa geração de cineastas, que incluiu Abbas Kiarostami e Jafar Panahi, que também vieram a São Paulo apresentar suas obras.
Desde então, muita coisa mudou tanto no Irã, quanto na vida de Makhmalbaf. O diretor, de 67 anos, abandonou seu país há 18 anos e hoje vive na Inglaterra, assim como toda sua família, que inclui sua mulher, Marzieh, e suas filhas, Samira e Hana Makhmalbaf, todas também cineastas, além do filho Maysam, editor e diretor de fotografia. O motivo do auto-exílio é político, por oposição ao regime teocrático do Irã. Desde sua saída, a família moveu-se por Paris e pelo Afeganistão. Chegaram a viver dois anos em Paris, mas saíram depois de um atentado contra Mohsen. “Eu tinha que andar para todo lado com sete guarda-costas. Aí, mudei-me para a Inglaterra, onde eles têm maior controle da fronteira”, explica. O clã viaja muito, mas a Inglaterra é hoje sua base. “Somos refugiados do cinema”, define.

Mesmo de longe, ele não perde o contato com o Irã. Diz que o país “continua vivo”, especialmente em seus movimentos de protesto. Ele chama a atenção para o movimento das mulheres que, há dois anos sacode o país. “Elas querem livrar-se dos véus, querem um país menos fanático. E já prenderam cerca de 100.000 delas e atiraram contra elas nas ruas. Mas elas são fortes. Hoje, nas ruas das cidades iranianas, metade das mulheres não usam mais os hijabs. A polícia as prende, mas elas continuam lutando”.

Ele recorda que, em 2009, houve outro movimento político no Irã, o Movimento Verde, que era pela democracia. “´É um país vivo, sempre em movimento, porque os iranianos têm educação. Muitos tem mestrado, educação de alto nível. Especialmente as mulheres, elas são tão fortes. Têm educação, conexão com o mundo por meio da internet e querem se ver livres deste regime fundamentalista’.

Agnóstico e ativista, Makhmalbaf tem profundas reservas à equação que integra religião e política, vigente em seu país, como em outros. “Veja o Afeganistão, por exemplo. Eles proíbem as mulheres de ir à escola. Elas são prisioneiras em suas casas”. Ele destaca que aquele país foi destruído, e não só pelo Talibã, que voltou ao poder em 2021. “O Ocidente também tem culpa nisso, por causa da Guerra Fria. Houve uma combinação entre má política, ignorância, pela falta de educação, e dogmatismo religioso. Isso causou essa tragédia”.

Olhar para o Afeganistão

A tragédia do Afeganistão, aliás, esteve presente em vários filmes do diretor, incluindo um recente, o documentário Falando com Rios (ao lado). Sua filha, Hana Makhmalbaf, também aborda a tragédia afegã no documentário A Lista, igualmente parte da programação da Mostra, retratando o desespero de milhares de pessoas para saírem do país na iminência da volta do Talibã.
Makhmalbaf lembra que, no primeiro período de governo do Talibã (1996-2001), fugiram para o Irã três milhões de refugiados. Dentre eles, 700.000 crianças, que não podiam ir à escola, “porque o Irã queria expulsá-los de volta”. O cineasta, então, fez um filme, O Alfabeto, e mostrou às autoridades esta situação, com crianças do lado de fora, olhando as escolas, querendo entrar. “Naquele momento, tínhamos um presidente melhor, Mohammad Katami, mais democrático. Mostrei o fillme a membros do governo, do Parlamento. E eles mudaram a lei. Assim, meio milhão de crianças afegãs puderam finalmente ir à escola. Este é o papel do cinema, que pode produzir mudanças”.

Makhmalbaf também se mobilizou para salvar a vida de centenas de artistas, que estavam ameaçados de morte na iminência da volta do Talibã. “Sabíamos que muitos seriam mortos porque fizeram filmes, escreveram livros contra o fundamentalismo. Fizemos uma lista de 800 artistas de vários campos de atuação, pintores, atores, escritores, cineastas, músicos, dançarinos. E escrevemos cartas para 300 festivais de cinema de todo o mundo, pedindo-lhes ajuda para conseguir vistos de saída para eles, A maioria dos festivais respondeu que não havia embaixada de seus países lá, não estavam acontecendo festivais. Exceto um deles, o festival de Mannheim, na Alemanha. Eles nos ajudaram a evacuar 80 desses artistas. Continuamos a procurar os governos, E Emmanuel Macron aceitou outros 300 para a França. Você vê no filme da minha filha (A Lista, foto ao lado) como saíram 279 deles, num avião militar. Depois, outros 22 foram para os EUA, com o apoio de diferentes universidades, Chicago, Columbia, Harvard”.

Fundamentalismo como vírus

Até hoje, o cineasta não desistiu dos que ficaram para trás no Afeganistão. “Ainda estamos lutando para evacuar os remanescentes. Mostramos o filme A Lista para os membros do Parlamento inglês, para tocar seus corações, para que vissem o quanto estas pessoas estão correndo perigo. Infelizmente, alguns deles já foram mortos. Mataram um músico na frente de seus filhos. Jogaram uma atriz da sacada de seu apartamento. Outros estão na prisão. Imagine isso. Metade do país fugiu e já não é de hoje. Desde os anos 2000, para o Irã, para o Paquistão, porque lá a vida é impossível de ser vivida. Não há empregos. Não há escolas para as meninas. Não há serviço de saúde e, por isso, muitas crianças morrem. É muito trágico. Precisamos de mais filmes sobre esta situação. Só nós fizemos 12”.

Ele observa que, em 100 anos de cinema, no Afeganistão foram feitos apenas 40 filmes. Ou seja, um filme a cada dois anos e meio. Enquanto isso, na Índia, faziam 2 ou 3.000 filmes por ano. No Irã, 100. “Ou seja, o Afeganistão é um país sem imagem”, sintetiza. Ele destaca que, há 40 anos, “o Afeganistão era um país normal. Eles eram pobres, sim, pastores. Mas um país normal. Mas depois, chegaram os soviéticos, os EUA vieram e usaram os pastores como soldados, encorajaram os fundamentalistas contra o comunismo e aí está o resultado. Foi criado o fundamentalismo do Talibã e você não consegue livrar-se mais dele. É como um vírus”.

Ele recorda a intervenção norte-americana do passado em seu próprio país, orquestrando um golpe de estado em 1953, contra o primeiro-ministro Mohammed Mossadegh. “Eles o colocaram em prisão domiciliar, trouxeram o rei, que estava pronto a fugir”, recorda. Makhmalbaf, ainda adolescente, militou contra a ditadura do xá (Reza Pahlevi). Lembra de sua prisão: “A polícia me deu um tiro, me torturaram. Fiquei no hospital duas semanas. Carrego comigo as marcas disso nas minhas pernas”.

Ele destaca que o problema são as ditaduras. “Com o xá, tínhamos uma ditadura civil. Depois de 1979, é uma ditadura religiosa. Quando eu era adolescente, eu achava que, se nos livrássemos do xá, que o Ocidente colocou no governo com um golpe de Estado, seríamos livres. E olhe que nos tempos do xá tínhamos liberdade em nossa vida privada. Ninguém nos perguntava com quem íamos casar ou qual era nossa religião. Depois da Revolução Islâmica, foi criado outro problema. O problema é a cultura”.

Por acreditar que é preciso mudar a cultura é que ele passou a usar o cinema como sua arma. Ele recorda um poema iraniano que diz que a verdade era um espelho no céu. Depois, caiu e quebrou-se em mil pedaços. Cada pessoa pegou um de seus fragmento e diz que toda a verdade está com ela. “Mas ela está espalhada e precisa ser compartilhada. Devemos conversar e concordar com alguma coisa entre nós”.

A questão palestina

O diretor fez um outro documentário sobre Jerusalém, As crianças Não Brincam Juntas Aqui (ao lado, e parte da repescagem da Mostra), em que essa perspectiva de diálogo é particularmente crucial. “Não é um problema somente político, é cultural e social. A maioria dos judeus e dos palestinos quer viver em paz, quer que seus filhos possam conviver em segurança. Mas então as crianças vão para escolas separadas, não se conhecem uns aos outros. Eles não podem se apaixonar, os vizinhos não conversam. Imagine que, por mais de 1.000 anos, o judaísmo, o islamismo e o cristianismo existiram naquela cidade. De 70 anos para cá, desde a criação de Israel, começou esta tragédia. Eles eram democráticos para eles mesmos, mas não para os palestinos. Aí começou a ocupação e todo o resto. Imagine agora, mais de 40.000 palestinos morreram diretamente. E, segundo organizações da Inglaterra, 186.000 estariam morrendo indiretamente. Isso é 10% de Gaza. 14.000 desses mortos são crianças. A Unicef diz que esta é uma guerra contra as crianças. Israel está investindo num ódio futuro. As crianças que sobreviverem só poderão sentir ódio. Isto não traz segurança para os judeus. Só mais guerras no futuro. E, infelizmente, os EUA, a Alemanha e a Inglaterra apoiam incondicionalmente Israel. É uma vergonha”.

Hoje ele faz mais documentários do que ficções? Ele diz que depende do que se apresenta. Acha que às vezes há vantagem no documentário, como é o caso de As crianças Não Brincam Juntas Aqui - “nele eu pude colocar bem mais coisas do que poderia numa ficção”, observa. Já fez 20 longas, mais 10 curtas, escreveu 60 livros. Já fez filmes em 10 países diferentes.Tudo depende do assunto, da sua disposição, da situação que encontra. O assunto, muitas vezes, é que o encontra, assim como a inspiração. Ele lembra que, em 1997, depois de sua primeira visita ao Brasil, foi à Grécia. Ficando 12 horas no avião, lhe veio a idéia do roteiro do que seria o filme Um Instante de Inocência, que ele escreveu inteiro nessa viagem. É assim que ele costuma trabalhar. E continua achando que “o cinema é um espelho que se projeta diante da sociedade para mudar a cultura. Não é apenas entretenimento, embora concorde que seja uma das funções da arte, mas não a única. “Sou partisan no cinema, é como uma arma em minha mão. Se vejo um ditador matar uma criança, pego minha câmera e filmo. É preciso ao mesmo tempo desfrutar da criatividade e também ter responsabilidade pela sociedade ”.