Cineastas palestinos e judeus se unem ao abordar ocupação israelense
- Por Alysson Oliveira e Neusa Barbosa
- 21/10/2024
- Tempo de leitura 11 minutos
No Other Land
Premiado em festivais como Berlim, IndieLisboa, CPH: Dox e Visions du Réel, o documentário assinado por um quarteto integrado por palestinos e judeus israelenses é a mais completa tradução do impasse insuportável vivido pelo povo palestino, abordando a ocupação e destruição constante de residências na localidade de Masafer Yatta.
Trata-se de um conjunto de aldeias palestinas, localizadas no sul da Cisjordânia, que são habitadas por famílias desse povo não raro desde o século XIX - como atestam fotos guardadas por eles. Recentemente, o local é alvo de constantes operações do exército israelense, que o declarou como área militar para manobras de seus tanques. Os moradores lutaram, por anos, na justiça israelense, que deu ganho de causa ao exército, assegurando, assim, a continuidade da ação de bulldozers para derrubar as casas palestinas - que não raro sofrem ataques também de colonos israelenses, inclusive acompanhados de soldados para protegê-los.
Dois dos diretores do filme, o advogado e ativista palestino Basel Adra e o jornalista e cineasta israelense Yuval Abraham, são personagens constantes diante das câmeras, filmando os conflitos que frequentemente acontecem à noite. Mas é à noite também que os resilientes moradores palestinos reconstróem suas casas, cobrindo-as com cobertores e tapetes para ocultá-las dos agressores. Quando não há outra opção, as famílias palestinas refugiam-se nas cavernas da região, em que também a ocupação humana, por pastores, seus parentes e também rebanhos, é igualmente antiga.
O filme, que foi realizado antes da mais recente guerra em Gaza, certamente não é a única região a sofrer esse tipo de assédio e ataque, numa tentativa sistemática de expulsar as populações palestinas de seus lugares tradicionais de moradia. Diante de tantas agressões, que não raro terminam em ferimentos e mortes, muitos desistem, mudando-se para outro lugar. Não Basel Adra e sua família. Até porque, como diz o título do filme, não há outra terra.
Não é fácil também a situação de Yuval e da diretora de fotografia do filme, Rachel Szor, que também assina a direção e o roteiro, com os demais. Sendo judeus israelenses, são agredidos verbalmente pelos militares, que os tratam como traidores e os filmam, ameaçando colocar suas imagens no Facebook para que outros venham vingar-se deles.
O quarto integrante da equipe de diretores e roteiristas é o palestino Hamdan Ballal, fotógrafo, cineasta e fazendeiro que atuou como pesquisador para diversos grupos antiocoupação. (Neusa Barbosa)
ESPAÇO AUGUSTA 2 - 22/10 - 20h15
CINEMATECA ESPAÇO PETROBRAS - 24/10 - 17h40
CINESYSTEM FREI CANECA 3 - 27/10 - 22h
Pequenas Coisas Como Estas
A produção belgo-irlandesa do diretor Tim Mielants foi o filme de abertura do Festival de Berlim, em fevereiro, adaptando o romance da autora Clare Keegan, com roteiro de Enda Walsh e produção de Matt Damon e Ben Affleck.
Apesar do protagonista masculino, Bill Furlong (Cillian Murphy, Oscar de melhor ator por Oppenheimer), o filme é uma história que toca profundamente as mulheres - porque são elas as únicas vítimas de uma situação abjeta e antiga, que vigorava na Irlanda ainda naquele ano de 1985. Entre os clientes de Furlong, um comerciante de carvão, está o convento das irmãs Madalenas, em cujos corredores dezenas de mulheres e meninas, por supostamente terem cometido alguma falta moral imperdoável pelos cânones católicos - como engravidar fora do casamento ou prostituir-se - , eram obrigadas a trabalhar, de sol a sol, em virtual regime de servidão, em lavanderias que propiciavam lucro à congregação. Uma vez ali dentro, elas não tinham mais direitos, nem cidadania, nem possibilidade de redenção. Suas próprias famílias as entregavam e concordavam com esse horror.
Adotar para a história o ponto de vista de um homem pode parecer arriscado, ou mesmo errado, aparentemente, mas justifica-se porque este relato não pretende mostrar o interior do convento (o que foi feito em outro filme sobre o tema, Em nome de Deus, de Peter Mullan, em 2001). Aqui, o que se pretende é colocar em foco a crise moral, ética, de alguém do lado de fora, que tem conhecimento do que se passa entre aquelas paredes e se vê desafiado a tomar partido, a tomar uma atitude, saindo da passividade - e confrontando o risco de comprar briga com o indiscutível poder da Igreja Católica na Irlanda, que ultrapassava e muito a esfera moral.
Esse conflito central é enriquecido por ter sido colocado nas mãos de dois dos maiores atores britânicos, o irlandês Cillian Murphy e a inglesa Emily Watson - que interpreta a irmã Mary, superiora do convento e que mantém um verdadeiro duelo numa longa cena com ele em que fica claro como ela joga seu jogo de persuasão, com pleno conhecimento dos pontos fracos de todos os integrantes da comunidade. Um jogo que Emily, grande atriz que é, sustenta no rosto e na voz. Perfeita.
Mas há também as razões pessoais de Bill para sentir-se tocado pelo drama dessas moças, o que o filme coloca no seu devido tempo. Como foi observado por Emily Watson na coletiva em Berlim, “Bill não é um homem politicamente articulado; o que ele faz não é nenhum tipo de protesto”. O que lhe acontece é uma espécie de processo de supuração, de uma longa e sufocada convivência com uma dor pessoal, que ele projeta nessas mulheres e finalmente deve ter uma saída.
Indagado sobre o preço desse drama coletivo, que envolveu cerca de 10.000 mulheres entre 1926 e 1996 (quando finalmente terminou), Murphy declarou: “Não posso falar pela nação sobre o preço desse drama coletivo. Acho que tudo isso ainda está sendo processado. A arte pode ser um bálsamo nessa ferida”. (Neusa Barbosa)
CINESYSTEM FREI CANECA 2 - 22/10 - 13h30
ESPAÇO AUGUSTA 1 - 25/10 - 14h
Abril
Vencedor do Prêmio Especial do Júri no Festival de Veneza 2024, este segundo longa da diretora georgiana Dea Kulumbegashvili confirma a boa impressão causada por ela em sua estreia há 4 anos com seu filme Beginning (que pode ser conferido na plataforma Mubi).
Neste segundo longa, a diretora escala novamente a mesma atriz do primeiro, Ia Sukhitashvili, agora interpretando Nina, uma ginecologista dedicada a ajudar mulheres numa região rural. A questão de gênero, envolvendo abuso sexual e necessidade de aborto - por ali, ilegal - estão no centro de um drama que aposta intensamente numa linguagem rigorosa, em termos da narrativa, da fotografia (do mesmo Arseni Khachaturan do primeiro longa), na montagem (de Mathieu Taponier), no ritmo dolorosamente controlado para entregar uma história que certamente tem repercussão universal.
Há também um toque fantástico, envolvendo uma criatura algo monstruosa, cujo significado caberá a cada espectador especular. Há muitos signos, aliás, distribuídos ao longo do filme, que tem momentos verdadeiramente exasperantes, nenhum deles gratuito e sim fortalecendo a composição geral de assinatura forte e marcante. (Neusa Barbosa)
CINESYSTEM FREI CANECA 1 - 22/10 - 21h30
CINEMATECA ESPAÇO PETROBRAS - 23/10 - 15h50
CINESESC - 30/10 - 15h
A Prisioneira de Bordeaux
Exibido na Quinzena dos Realizadores de Cannes, o filme de Patricia Mazuy extrai o fino suco de uma questão de gênero e luta de classes no relato da aproximação entre duas mulheres.
Alma (Isabelle Huppert) e Mina (Hafsia Herzi) não teriam se conhecido jamais, provavelmente, não fosse por uma circunstância: seus maridos foram presos e elas se esbarram no dia da visita na prisão de Bordeaux. Alma é rica e Mina, uma trabalhadora humilde, com dois filhos pequenos, que mora longe. Um incidente no dia de visita em que Alma defende o direito de Mina entrar, depois de ter chegado atrasada, une as duas numa amizade inusitada e não despida de contradições.
O fato é que a solitária Alma convida Mina e suas crianças a virem morar com ela numa casa ampla e cheia de confortos, além de ajudar Mina a encontrar um emprego mais perto. A situação desencadeia expectativas mútuas que a história, a seu tempo, desenvolve a contento para tirar partido dos muitos recursos de suas duas intérpretes. (Neusa Barbosa)
CINESESC - 22/10 - 17h
CINESYSTEM FREI CANECA 2 - 24/10 - 13h30
KINOPLEX ITAIM 1 - 29/10 - 20h45
RESERVA CULTURAL 2 - 30/10 - 17h10
Mambembe
Quinze anos atrás, este deveria ter sido o filme de estreia do diretor Fábio Meira, que ficou conhecido por Tia Virginia (2023). Uma série de circunstâncias impediram que o filme inicial fosse concluído, o que acontece agora, num híbrido de ficção e documentário, que aproveita algumas partes filmadas em 2009 e incorpora o discurso do diretor sobre as intenções deixadas para trás.
É fácil entender o encanto que o jovem cineasta sentiu pelas personagens Índia Morena e Madona Show, duas estrelas do circo que ele conheceu em suas viagens de pesquisa para o roteiro, que incluiria também parte das vivências de um topógrafo, Rui, cujo trabalho itinerante, por sua vez, guardava semelhanças com o do pai do diretor. Uma outra personagem, Jessica, que também estrelaria o filme, afinal não pôde participar, sendo seu papel interpretado pela atriz Dandara Ohana. O topógrafo, por sua vez, foi interpretado pelo ator Murilo Grossi.
Mambembe, afinal, é o título ideal para a história, ambientada num pequeno circo do interior, seguindo as ligações entre o topógrafo viajante e as três mulheres do circo. Também traduz, num duplo sentido, a própria fragilidade da ficção, da luta de um jovem diretor para realizar um filme, ainda inseguro dos próprios meios para contar a história. Alguns bons momentos vêm do reencontro entre Meira, Índia e Madona, nos dias de hoje, elas também refletindo sobre aquele seu breve encontro com o cinema. De todo modo, o projeto, depois de 15 anos, encontrou uma conclusão, um formato e um destino. (Neusa Barbosa)
RESERVA CULTURAL 1 - 22/10 - 21h40
CINESYSTEM FREI CANECA 2 - 26/10 - 15h20
A Garota Adamante
O filme de P.S. Vinothraj não é exatamente o tipo de produção indiana com que o público internacional está acostumado. Ou seja, não se trata de um filme de ação tresloucado ou um musical extravagante. É quase um filme intimista em seus 100 minutos, com um olhar aguçado para relações de gênero e classe na Índia contemporânea.
Vinothraj, cujo filme de estreia, Pedregulhos, foi exibido na 45a Mostra, é um diretor com uma percepção aguçada para retratar relações humanas, ao mesmo tempo que cria imagens potentes e marcantes. Como na obra anterior, ele se concentra em papeis de gênero em seu país, revelando as fortes expectativas que recaem sobre as jovens mulheres em relação ao casamento enquanto a religião também desempenha um papel preponderante.
Os planos longos são o indício formal de observação das personagens em seu habitat, marcado por relações de classe bastante definidas. A protagonista é Meena (Anna Ben), que praticamente não fala, mas acompanhamos seu olhar atento ao mundo que a circunda. Ela resiste em casar com seu noivo, Pandi (Soori Muthuchamy), e ele e suas irmãs acreditam que a causa seja uma possessão espiritual.
A família do rapaz, então, leva a jovem ao encontro de uma espécie de xamã para uma espécie de exorcismo, levando um galo para um sacrifício. A ave presa a uma pedra, incapaz de fugir, é acompanhada pelo olhar de Meena, que viaja no riquixá, ao lado das mulheres, enquanto os homens seguem de motocicleta.
A questão central para Vinothraj é sobre o patriarcado e a misoginia da cultura indiana: até que ponto são uma tradição ou mera construção social conveniente para manter as dinâmicas de poder? São questões bastante complexas, que, obviamente, o filme não pretende responder. Mas o diretor joga luz sobre a questão na medida em que o destino de uma mulher é ditado pelas vontades de um grupo de homens. (Alysson Oliveira)
ESPAÇO AUGUSTA ANEXO 4 - 22/10/24 - 19:35
CIRCUITO SPCINE OLIDO - 24/10/24 – 14:00
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