Brasília inicia com a utopia cinematográfica de Sidarta Ribeiro e Marcelo Gomes
- Por Neusa Barbosa, de Brasília
- 01/12/2024
- Tempo de leitura 4 minutos
Pode-se aprender muitas coisas com o documentário Criaturas da Mente, de Marcelo Gomes, que abriu, fora de competição, o 57º Festival de Brasília. Embora nunca seja nem se pretenda didático, descobrimos constantemente novas coisas acompanhando estas estimulantes imagens - como que até os polvos sonham e aprendem tarefas.
Se até os polvos sonham, como se constata numa das instigantes pesquisas dos Instituto do Cérebro da UFRN, muito mais sonham os seres humanos, cujos povos ancestrais aprenderam, há vários séculos, a usar esses sonhos como matéria-prima de sua sabedoria e cosmogonia. As ciências correram e correm atrás.
Mas o ponto de partida do diretor é, antes de mais nada, a ausência de sonhos que o acometeu durante a pandemia.
Uma ausência que forneceu uma metáfora perfeita para os tempos bicudos do governo autoritário de Jair Bolsonaro, marcado,entre outras mazelas, por uma perseguição sistemática à arte e à ciência. E foi justamente na ciência, através da parceria com o neurocientista Sidarta Ribeiro, que o cineasta pernambucano encontrou o fio da meada deste documentário, que explora as imensas possibilidades do inconsciente humano, expresso nos sonhos, nessas “criaturas da mente” que vivem dentro de nós e que são objeto de tantas abordagens, dentro das religiões de matriz africana, das culturas indígenas e da psicanálise, seguindo o fio dos sonhos.
Da esq. para direita Maria Carlota Bruno (produtora), Marcelo Gomes (diretor), Letícia Simões (corroteirista), Sidarta Ribeiro (neurocientista e personagem do filme) e Maria do Rosário Caetano
Sonho e política
No interessante debate desta manhã de domingo, Sidarta Ribeiro opinou ter visto no filme “um diálogo entre arte e ciência como um modo de chegar à ancestralidade brasileira”. Ele se assume como o tipo do cientista que rejeita a rigidez e a onipotência do meio científico em geral para afirmar que “não existe uma ciência, existem várias. Ser racional no século 21 é abraçar as contradições e inclusive a ignorância, o que não se sabe”. Sidarta enxerga, inclusive, uma complementariedade no recurso ao que chama de “caótico, inconsciente” no contexto das descobertas, que serão depois organizadas no contexto das justificativas.
Marcelo Gomes, por sua vez, descreve seu filme como “uma viagem de autoconhecimento, que me abriu muitas portas para acessar o inconsciente”. Como seus companheiros nessa jornada, ele recorreu, além de Sidarta, aos depoimentos do escritor e pensador indígena Aílton Krenak, ao psicanalista Waldemar Magaldi, à artista plástica Ana Flávia, à mãe de santo Beth de Oxum e também à sua própria mãe, que tem uma participação extremamente sagaz e saborosa.
Mais uma vez, Sidarta vê no filme um caminho político. “O projeto do país colonizado e colonizador acabou de fracassar. É um momento mágico de poder refundar o País. Isto passa por sair desse modelo eurocêntrico e o filme vai nessa direção. Que as pessoas se aldeiem e aquilombem, porque estamos longe de poder honrar esse legado afro-indígena”.
Para o cientista, o próprio sucesso de um filme como Ainda Estou Aqui, de Walter Salles, que já ultrapassou dois milhões de espectadores, vai na mesma direção. “Este sucesso está nessa mesma linha, sonhando um outro futuro temos que olhar para o nosso passado”.
Homenagens
Como é tradição no festival mais longevo do país, a noite inaugural foi aberta com diversas homenagens, algumas póstumas, como ao cineasta Vladimir Carvalho - cujo nome agora batiza o tradicional Cine Brasília, sede do festival -, a atriz e professora Mallu Moraes e o cineasta Pedro Anísio. Outras homenageadas foram a documentarista Delvair Montagner, lembrada pela Associação Brasiliense de Cinema e Vídeo, e a atriz Zezé Mota, que recebeu o troféu Candango pelo conjunto de sua carreira, 49 anos depois de ter obtido seu primeiro prêmio no mesmo festival, como melhor atriz por Xica da Silva, de Cacá Diegues, que terá uma exibição especiall nesta noite de domingo.
