22/07/2026

Jafar Panahi sacode Cannes com um cheiro de Palma de Ouro para "Un Simple Accident"

Cannes - Há 15 anos, o diretor iraniano Jafar Panahi estava proibido de viajar ao exterior, uma das muitas restrições de quem, nesse período, foi condenado à prisão, esteve em solitária, fez greve de fome e foi proibido de filmar - o que não impediu que continuasse realizando obras comoIsto Não é Um Filme, Táxi Teerã, Três Faces e Sem Ursos, colhendo prêmios em festivais internacionais como Cannes e Berlim.

A proibição foi suspensa e Panahi pôde, na tarde desta terça (20), estar presente na concorrida sessão oficial de seu novo filme, Un Simple Accident (Um Simples Acidente), onde recebeu uma esperada consagração para um filme que se apresentou como o mais sólido concorrente até agora à Palma de Ouro, não só pela contundência de seu tema, a qualidade de sua realização como pelo detalhe de que Juliette Binoche é a presidenta do júri.

Em 2010, quando o cineasta foi preso no Irã e por isso impedido de vir a Cannes para integrar o júri, a atriz francesa ergueu um cartaz com o nome dele ao receber o próprio prêmio de interpretação, por outro filme iraniano, Cópia Fiel, de Abbas Kiarostami.

Toda essa circunstância trabalha a favor do filme, mas nada disso deve obscurecer o fato de que a obra fala por si só, em sua complexidade política e força dramática. No enredo, um homem, Vahid (Vahid Mobasseri), julga reconhecer um antigo algoz que o torturou na prisão - que se deu também por motivos políticos. A partir daí, fica obcecado com a captura do suposto agente, Eghbal (Ebrahim Azizi), recorrendo a outros ex-presos que sofreram em suas mãos, como a fotógrafa Shiva (Mariam Ashfari), uma noiva em seu vestido de casamento, Gol (Hadis Pakbaten)i, e outro homem, Hamid (Mohammed Ali Elyasmehr), para assegurar-se de que sua identidade, sobre a qual restam dúvidas.

Numa trama que se desenvolve entre uma caminhonete, as ruas da cidade e alguns lugares ermos, Panahi constrói seu drama ético, que suscita todo tipo de questão. Se de um lado é um thriller - este homem é ou não o agente Eghbal? -, também é um relato moral. Até que ponto é legítimo que vítimas exercitem o olho por olho, dente por dente, contra aqueles que, contra elas, impuseram agressões, execuções encenadas e ameaças, inclusive de estupro?

O cineasta dá voz às vítimas, que carregam cicatrizes profundas, porque os efeitos da tortura, de algum modo, nunca se dissipam completamente, especialmente os psíquicos. E cada uma tem seu entendimento sobre a vingança. Mas também, a certa altura, se dá voz a este agente do Estado, que perdeu uma perna lutando na Síria e tem uma noção bastante pessoal do que é servir ao governo. No auge da sua forma como roteirista e diretor, Panahi cria um filme denso, cheio de camadas, inclusive de humor - a noiva e a passagem pelo hospital são dois desses momentos exemplares, sem nunca comprometer o grande arco de valores sendo colocados em primeiro plano.

Coletiva

Tal como ocorreu no ano passado, a presença de um diretor iraniano perseguido na coletiva de imprensa foi o ponto alto desse tipo de evento, porque havia alguma dúvida se poderia ocorrer algum obstáculo de última hora ao comparecimento de Jafar Panahi. Em 2024, Mohammad Rasoulof, diretor de A Semente do Fruto Sagrado, que estava ameaçado de prisão e desaparecera, apareceu de surpresa em Cannes, depois de fugir do Irã e asilar-se na Alemanha.

Perseguido há 15 anos, Panahi teve permissão para viajar à França. Mas isso não significa que a própria filmagem de Un Simple Accident tenha ocorrido sem percalços. Mesmo filmando em parte dentro de uma caminhonete, também para atrair menos atenção, a equipe recebeu a visita de fiscais e se mobilizou para esconder o filme, prevenindo a hipótese de que fosse confiscado - conforme relatou o diretor na coletiva.

Lembrando o período em que esteve preso, parte do tempo de olhos vendados, e havia sido proibido de filmar, Panahi destacou que, em todo esse tempo, seu método de filmar não mudou, mas que a maneira de enfrentar as restrições do governo foi aderir ao que chama de “cinema clandestino” - mesmo agora, que ele não está mais proibido de filmar, ele entende que nenhum de seus projetos seria aprovado pelo governo. Portanto, ele pretende continuar a praticar esse cinema clandestino.

Perseguição

As restrições do regime iraniano contra os artistas, no entanto, continuam. Panahi contou que, depois do anúncio de que o filme viria a Cannes, sobretudo nas duas semanas anteriores, vários membros da equipe, como as atrizes Hadis e Mariam, foram chamadas para interrogatórios e pressionadas. Ebrahim Azizi contou que recebeu telefonemas estranhos de números desconhecidos. Um corroteirista do filme foi preso.

Nada disso demove o cineasta e os seus atores de continuar resistindo. Panahi afirmou: “É um absurdo e até surrealista que se coloquem artistas na prisão. Ao fazer isso, lhes damos ideias, lhes abrimos um mundo novo”. Seu próprio filme, segundo ele, nasceu de inúmeras conversas com pessoas que conheceu na prisão. “Na verdade, não fomos nós que criamos o filme, foi a República Islâmica. Então, eles devem saber que, quando prendem um artista, devem assumir as consequências”, ironizou.

Perguntado sobre os riscos de novas perseguições depois de voltar de Cannes, Panahi respondeu: “Meu retorno pode ser perigoso, mas pouco importa. Não faço nada que eu faça que outros iranianos não façam, nada de heróico”. Na mesma linha, a atriz Mariam Ashfari declarou: “Devemos lutar para que a nossa pátria melhore, para que esse país que nos pertence saia dessa situação”.

Ditadura egípcia

Premiado em Cannes 2022 com o troféu de roteiro por Garoto dos Céus, o diretor sueco-egípcio Tarik Saleh completa sua trilogia política sobre o Cairo, iniciada com The Nile Hilton Incident (2017) com Eagles of the Republic - em que ele vai mais longe na crítica ao regime ditatorial egípcio, mencionando diretamente o presidente Abdel Fattah Al-Sissi (interpretado pelo ator libanês Fares Fares, seu intérprete habitual).

A trama, fictícia, baseia-se sem disfarce em fatos reais. Se no enredo atual, um famoso galã do cinema egípcio, George Fahmy (Fares Fares) é cooptado para interpretar Al-Sissi numa cinebiografia totalmente chapa-branca, na vida real isto aconteceu numa série de TV.

Convocar sem possibilidade de recusa o ator mais famoso do cinema egípcio, um tipo alto e sem a menor semelhança física com o ditador, baixinho, é o menor dos problemas. A história foca muito mais na cooptação gradativa de Fahmy, até então um astro rico, mimado e sem militância política e que se vê irresistivelmente comprometido numa trama que inclui conspiração e tentativa de assassinato e coloca em risco ele mesmo e sua família.

Com um andamento mais convencional do que Un Simple Accident, sem dúvida o filme de Saleh - que foi filmado na Turquia - comunica-se tematicamente com o relato de Panahi, numa correspondência bastante positiva na programação.

Escritora italiana

Não andou tão bem o concorrente italiano à Palma Fuori, em que o veterano diretor Mario Martone realiza uma cinebiografia informal da escritora Goliarda Sapienza (Valeria Golino), uma outsider na vida e na literatura e que teve seus méritos literários reconhecidos mais postumamente.

O foco do enredo está numa breve passagem da escritora pela prisão de Rebibbia, em Roma, depois de condenada por vender jóias roubadas. Nesse período, ela conheceu mulheres que se tornaram suas referências, tanto de amizade quanto de paixão - que o filme pudicamente não retrata claramente. Sua amiga mais próxima é a jovem Roberta (Matilda De Angelis), com quem mantém uma relação instável, mas há também a impulsiva Barbara (Elodie).

Num filme sobre personagens anticonvencionais, faltou um olhar mais flexível e, inclusive, feminino. Valeria Golino é uma intérprete refinada e sutil, mas se ressente de um roteiro que não explora devidamente muitas das nuances possíveis. A verdadeira Goliarda aparece numa imagem, no fim, que sugere isso e muito mais.