22/07/2026

Drama de Dominik Moll toca na ferida da repressão que ameaça a democracia

Cannes - Dois anos após A Noite do Dia 12, vencedor de seis prêmios César, o diretor Dominik Moll volta ao universo policial mais uma vez para mostrar o seu avesso com o concorrente à Palma de Ouro Dossiê 137 - dando oportunidade a mais uma excelente atuação da atriz francesa Léa Drucker, protagonista do premiado Custódia.

Léa interpreta Stéphanie, investigadora do IGPN, a corregedoria da polícia, que é encarregada de um dos inúmeros casos de violência de um batalhão de elite numa das manifestações dos Coletes Amarelos, em 2018. Dois integrantes do batalhão - normalmente, encarregado de operação antiterroristas - dispararam balas de borracha, que atingiram na cabeça um adolescente desarmado, Guillaume (Côme Peronnet).
O roteiro de Gilles Marchand toca numa ferida, ao expor uma discussão sobre a violência policial crescente que está sendo objeto de escrutínio na França, por suas implicações sobre a própria democracia. E o faz de maneira conscienciosa, abordando a questão de maneira não-maniqueísta.

Stéphanie é uma profissional extremamente rigorosa e ética, capaz de enxergar os dois lados da questão, já que é policial há 20 anos. Mas este caso, para ela, tem algum lado pessoal - ela nasceu em St. Diziers, lugar de origem do jovem ferido, de uma família de trabalhadores e que veio a Paris pela primeira vez naquela ocasião.

O filme cresce muito nesse esforço da investigadora para desvendar os detalhes do incidente, expondo também os mecanismos da própria instituição policial para proteger os seus. De certa maneira, sua personagem tem afinidade com o jovem procurador de Two Prosecutors, de Sergei Loznitsa. Ambos são idealistas e éticos, mas Stéphanie é mais experiente para conduzir os meandros de sua investigação. De todo modo, ambos encarnam um dos temas da competição deste ano - a possibilidade de sustentar a ética diante de um aparato estatal mais preocupado com a autopreservação do que com a proteção das liberdades individuais. E ambos são, igualmente, candidatos a premiações de atuação.

No deserto do Marrocos

Tomando seu título do nome da ponte que separa o inferno do paraíso, na tradição islâmica, Sirât, do diretor franco-espanhol Oliver Laxe, mergulha nos desertos do Marrocos para retratar um grupo de personagens à deriva num mundo não menos perdido. A viagem começa com Luis (Sergi López), um espanhol à procura da filha, que desapareceu há meses, supostamente vinda para uma dessas raves no deserto para onde acorrem pessoas de todos os lugares.

Em busca dessa filha perdida, Luis e seu filho caçula, Esteban (Bruno Núñez), embarcam numa jornada perigosa, acompanhando um grupo de nômades desgarrados, que se dirigem a uma outra dessas raves, no sul do país - no contexto da erupção de mais uma guerra.

Nesse road movie, a paisagem evidentemente é personagem determinante de uma trajetória em que a imensidão desse deserto árido e desvalido vai se impondo cada vez mais sobre o próprio destino dos personagens. Lutando contra a escassez de gasolina e alimentos e desviando-se dos pelotões do exército, o grupo se embrenha por estreitas e cada vez mais arriscadas estradas nas altas montanhas.

Nesse contexto, suas escolhas vão-se esgarçando, numa narrativa cada vez mais niilista, que parece ambicionar alguma espiritualidade e até um discurso sobre o estado de coisas no mundo - mas não é exatamente bem-sucedida. Diretor conhecido por O Que Arde, premiado na seção Un Certain Regard 2019, e Mimosas (2016), Laxe perde o foco nesse relato ralo e episódico, quase como seus personagens. O veterano ator Sergi López é, certamente, a principal razão para o filme ter sido produzido, tendo por trás os irmãos Pedro e Agustín Almodóvar.