Concorrente argentino aborda a ditadura pelo olhar de uma criança
- Por Plínio Ribeiro Jr., de Berlim
- 15/02/2011
- Tempo de leitura 2 minutos
Um dos primeiros candidatos ao Urso de Ouro apresentado no Berlinale Palast foi El Premio, estreia em longa-metragem da argentina Paula Markovitch, que se passa na Argentina de 1976 e tem como centro do foco narrativo Ceci Edelstein, uma menina de 7 anos que vive numa casa perto da praia.
Mais do que personagem central, Ceci é um verdadeiro alter-ego de Paula, já que o roteiro espelha-se nas vivências e na visão de mundo que a diretora teve durante sua infância, vivida em plena ditadura. A cena inicial é mais do que emblemática; nela, vemos Ceci, sozinha, com patins nos pés, a caminhar na beira do mar, ou melhor, a tentar patinar na areia. Movimentos a esmo que resultam numa frustração ao chegar em casa
: "Não se pode patinar aqui".
: "Não se pode patinar aqui".
O espectador deduz que havia então uma realidade anterior onde era possível patinar e que contrasta com aquela que o filme retrata. Onde aquela família vivia antes? Quem é o pai de Ceci? E onde ele está? Nada disso se sabe e a partir daí já se entra em contato com a maestria da diretora em dar ao filme uma veracidade sensível, altamente coerente com a visão de uma criança alheia ao contexto sócio-político de seu país.
Esse microcosmo inicial, formado pela dualidade entre o huis-clos da cabana onde mãe e filha moram e a imensidão inóspita da praia em pleno inverno, é rompido quando a mãe decide mandá-la para a escola. Vai ser a ocasião de Ceci interagir com outras crianças, mas também com a realidade política do seu país por meio de cerimônias cívicas que permeiam o dia-a-dia escolar.
Para se ter uma ideia da dimensão autobiográfica do filme, ele não apenas foi filmado onde Paula passou a infância, San Clemente de Tuyú, mas a escola e a sala de aula mostradas são, de fato, as mesmas frequentadas por ela.
Aos poucos, o universo ligeiro e lúdico das crianças cruza-se com o clima de tensão que faz parte da vida cotidiana de uma sociedade na qual a censura e a privação de direitos individuais é cada vez mais presente.
A atuação do elenco infantil impõe uma naturalidade e veracidade que impressionam, com grande destaque para Paula Galinelli Hertzog, intérprete de Ceci (a atriz foi selecionada a apenas poucos dias do início das filmagens). No decorrer do filme, ela deixa para trás as hesitações do começo e passa a confrontar a si mesma, a mãe, bem como as fissuras entre aquilo que ela acreditava ser a realidade
com o que se descortina. É um filme simples, mas repleto de qualidades, tanto estéticas, quanto interpretativas, incluindo o roteiro enxuto e não-maniqueísta, bem como na relevância em lidar com este passado que ainda apresenta cicatrizes aparentes.
com o que se descortina. É um filme simples, mas repleto de qualidades, tanto estéticas, quanto interpretativas, incluindo o roteiro enxuto e não-maniqueísta, bem como na relevância em lidar com este passado que ainda apresenta cicatrizes aparentes.
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