Filmes destacam sororidade e precariedade no trabalho
- Por Neusa Barbosa, do Recife
- 12/06/2025
- Tempo de leitura 3 minutos
Recife - A terceira noite competitiva do Cine PE foi marcada pelos temas da sororidade e da precarização do trabalho, esta aliada à invenção de formas de sobreviver no Brasil profundo. A empatia entre duas mulheres, amigas de longa data e vividas pelas atrizes Analu Prestes e Tânia Alves, dominou o longa da noite, Senhoritas, em que a diretora Mykaela Lotkin criou uma história centrada em personagens maduras não vitimadas pelo Alzheimer ou a morte e sim diante de um resgate da própria sexualidade e liberdade.
Num projeto que começou a ser idealizado há cerca de 10 anos, Senhoritas, que marca a estreia da diretora pernambucana, teve sua première mundial no Festival de Biarritz, em setembro de 2024, recebendo o Prix des Biarrots, concedido por um júri formado pelos moradores da cidade francesa. A história causou grande comoção junto ao público que lotou o Teatro do Parque, acompanhando a transformação de Lívia (Analu Prestes), uma arquiteta aposentada, casada há muitos anos com Rui (Genézio Barros) e ultimamente acomodada à rotina de avó de uma menina (Valentina Clause), com a volta de uma amiga da juventude, Luci (Tânia Alves).
Luci é um sopro de agitação nesta rotina morna, resgatando a natureza mais dinâmica da amiga, que passa a acompanhá-la em cursos de dança, festas, idas à praia, rompendo um invisível círculo vicioso que muito frequentemente limita tantas mulheres. Por isso mesmo, Senhoritas é o tipo do filme que tem forte possibilidade de identificação com o público, especialmente o feminino.
Além da composição nítida destas duas mulheres, em que a personagem de Lívia tem mais camadas a desdobrar, oferecendo a chance de a veterana Analu Prestes mostrar seus muitos recursos dramáticos, o filme tem a qualidade de mostrar o sexo entre pessoas maduras de maneira intensa e também delicada, desafiando um tabu que reserva essa parte da vivência em geral apenas aos intérpretes jovens. Outro mérito é não satanizar o personagem masculino mais importante, o marido Rui, a quem o também talentoso Genézio Barros dá vida de uma forma atenta, compreensiva e nunca maniqueísta, dentro de um roteiro que contempla também a sua complexidade.
Acima, da esquerda para a direita: Mykaela Plotkin, diretora de "Senhoritas", e as atrizes Analu Prestes, Clarissa Pinheiro
e Tânia Alves. Crédito: Felipe Souto Maior
Curtas
Na competição nacional de curtas, o vigoroso Tapando Buracos (PE), de Pally e Laura Fragoso, apresenta não só um relato sobre trabalho precário, no caso, de duas jovens (a própria Pally e Gabriela Cravicanela) cavadoras de buracos em estradas em troca de trocados no sertão pernambucano, mas também um enfrentamento do machismo levado às últimas consequências.
Vista no longa Serra das Almas, de Lírio Ferreira, Pally entrega uma energia visceral também neste curta, que ela roteirizou, especialmente numa sequência em que ela enfrenta um homem abusivo e que denota uma inspiração tarantinesca - uma admiração que ela assumiu na coletiva de imprensa de hoje.
Vindo de outra região, o curtaO Último Varredor (Mato Grosso), de Perseu Azul e Paulo Alípio, radiografa documentalmente uma outra profissão inusitada e marginal, a de varredor de restos de grãos de soja de caminhões, para revenda deles - um filme intensamente visual, que independe de diálogos e narração. O contraste entre a precariedade desta ocupação e a riqueza do agronegócio entra pelo filme de maneira lateral, através do som de programas de rádio, um recurso sutil que se mostra eficiente.
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