No policial "Papagaios", Gramado coloca em discussão masculinidade doentia
- Por Neusa Barbosa, de Gramado
- 18/08/2025
- Tempo de leitura 3 minutos
Gramado - O concorrente carioca Papagaios, de Douglas Soares (foto abaixo, durante coletiva), colocou em foco uma história tensa, com um forte componente policial e que revela o talento do jovem Ruan Aguiar, dividindo a tela com o sempre impecável veterano Gero Camilo.
A ambiguidade começa pelo título do filme, onde há um papagaio real, Papo, mascote do personagem Tunico (Gero Camilo), este um curioso “papagaio de pirata” profissional. Já sexagenário, Tunico se mantém informado dos eventos de impacto no Rio de Janeiro, capazes de atrair cobertura midiática, para colocar-se diante de fotógrafos e câmeras de televisão. Para isso, conta com o apoio de amigos fiéis, compondo uma espécie de clube informal de veteranos sem muito o que fazer senão viver das sobras dessa espécie de subcelebridade militante de Tunico - que chega a ser entrevistado em programa de televisão, pela apresentadora Claudete Troiano.
A trajetória de Tunico se cruza com a de Beto (Ruan Aguiar), jovem quieto, misterioso, que está sempre próximo de algum tipo de desastre - como um que ocorre logo no começo do filme, num parque de diversões. É voyeurismo de tragédias ou Beto tem algo a ver com esses acidentes? Os espectadores do filme logo saberão a verdade, mas isto não altera a tensão crescente do filme, em função da construção de uma narrativa que privilegia os dois atores habitarem seus personagens por inteiro, introduzindo uma sutil pulsão de morte quase nelsonrodriguiana. Um clima que o filme sustenta em sua opção por mostrar imageticamente, mais do que em diálogos, o que os personagens estão fazendo e pensando.
Coletiva
Interpretando seu primeiro protagonista no cinema, Ruan Aguiar destacou na coletiva de imprensa a dificuldade de interpretar um personagem extremamente silencioso, com “não mais do que umas 17 falas”. Isto representou um grande desafio pois Ruan vinha de experiências “extremamente verborrágicas”, como as novelas de TV, como a recente Fuzuê. O ator sai-se bem nesta mudança, já que se mostra capaz de sustentar o turbilhão interno do personagem, sobre cujo passado nada se sabe, somente com seu olhar, linguagem corporal e atitudes por boa parte do tempo.
Vindo pela primeira vez a Gramado, o veterano Gero Camilo destacou que, ao fazer este filme, estava “cansado do cinema”. Pensava até em desistir. O motivo é que, para ele, “cinema é luta de classes”, tanto em termos da dificuldade de acesso aos meios de realização, seja em função da localização regional, ou não ter “os corpos normalmente valorizados”. Mas, aos poucos, o ator conta que “seu coração foi se abrindo de novo” e que ele saiu deste filme “com uma energia nova para continuar nesta luta”.
Ao seu lado, o cantor Léo Jaime, também parte do elenco como ele mesmo, disse que se sentia igual em relação ao cinema. “É a luta do topo contra a base”, definiu. Ao mesmo tempo, o cantor disse ter ficado feliz em ter participado deste projeto, já que acredita no poder da coletividade, e que se sentiu “honrado em ser um artista que merece um samba-enredo em Curicica” - referindo-se à homenagem que recebe ficticiamente no filme, ambientado nesse bairro popular da zona oeste do Rio. Na verdade, Jaime lamentou que os artistas, “pessoas que constroem nossa sensibilidade”, não sejam lembrados para dar nomes de praças, ruas e avenidas com tanta frequência. E ironizou que se sentirá homenageado se seu nome batizar “um banheiro químico no Baixo Gávea. Mas com iluminação, por favor”.
Na foto acima, o diretor e a equipe do filme.
Crédito das imagens do diretor e da equipe: Neusa Barbosa; foto do filme: Divulgação
