23/09/2026

Gramado abre com première brasileira em sessão lotada de "O Último Azul"

Gramado - A première brasileira de O Último Azul, de Gabriel Mascaro, em Gramado, proporcionou uma das melhores noites de abertura do festival (foto ao lado, com a equipe apresentando o filme), que deu a largada em sua 53ª edição. Vencedor do Grande Prêmio do Júri no mais recente Festival de Berlim, o filme teve uma sessão de honra, que incluiu a troca do tradicional tapete vermelho diante do Palácio dos Festivais por um tapete azul - honraria nunca vista por aqui.

Fora isso, o filme teve uma sessão lotada, que incluiu uma homenagem a Rodrigo Santoro - recebendo seu Kikito de Cristal (foto abaixo) por uma carreira que completa 32 anos (o ator faz 50 anos na próxima semana).

Todo este acolhimento fez sentido para um filme que está entre os 16 títulos que disputam a indicação para representar o Brasil na próxima edição do Oscar e está, desde já, podendo com justiça ser considerado um dos melhores filmes do ano. A estreia nos cinemas brasileiros está marcada para o dia 28 de agosto.

No filme, um drama distópico filmado na Amazônia, Denise Weinberg interpreta Tereza, uma mulher de 77 anos que, por uma política implantada num futuro próximo, deve ser recolhida a uma colônia, destino de todos os idosos, para não atrapalharem a produção dos mais jovens.

Rebelando-se contra esse destino inexorável, Tereza parte em busca de realizar o sonho de voar. No caminho, encontra o barqueiro Cadu (Rodrigo Santoro), um homem amargurado pela própria perda amorosa; Ludemir (Adanildo), um homem que lidava com ultra-leves, agora uma atividade clandestina; e Roberta (a atriz cubana Miriam Socarrás), chamada de “a freira do rio”, uma aventureira estrangeira que dispõe de um status especial.

Coletiva

Na coletiva do filme, o diretor Gabriel Mascaro contou que o roteiro, que ele assina com Tibério Azul, foi sendo desenvolvido ao longo de 10 anos. “A idéia era colocar corpos idosos em foco, numa sociedade que não autoriza esses corpos a se lançarem no mundo, que procura domesticá-los, coloca-os num registro ou de finitude ou de nostalgia”, afirmou.

A Amazônia, cenário do filme que entra também como uma personagem importante na trama, era conhecida do diretor pernambucano há muito tempo. Desde quando se graduou em Cinema, Gabriel, antes de realizar qualquer filme, integrou o projeto Vídeo nas Aldeias, de formação dos primeiros cineastas indígenas. Desde então, a região entrou em seu imaginário, mas só se concretizou agora, neste filme - que Mascaro considera uma ligação entre o Nordeste, sua origem, e o Norte do Brasil.

Rodrigo Santoro, por sua vez, comentou ter procurado injetar um “olhar na contramão” para seu personagem. “O barco, que normalmente significa liberdade, para Cadu é uma prisão. Ele está de luto e, no encontro com Tereza, ele conquista o direito de abraçar sua fragilidade”.

Denise Weinberg, que é a verdadeira protagonista do filme, por sua vez, comparou sua personagem a “uma esponja”. “Ela fica olhando, percebendo, se expandindo e, no final, explode como uma enchente amazônica”. A atriz ressaltou que gosta de trabalhar os silêncios e que a Amazônia lhe proporcionou poder contar com isso, por sua exigência de uma certa atitude de contemplação.

Crédito das fotos: Neusa Barbosa