22/09/2026

O indigesto charme da burguesia, segundo Karim Aïnouz

Berlim - Karim Aïnouz, o diretor brasileiro de Motel Destino e A Vida Invisível, desembarcou na competição berlinense com a segunda produção internacional de sua carreira, Rosebush Pruning. Falado em inglês, o drama ostenta no elenco a mistura de alguns dos mais promissores jovens atores do mundo - caso de Callum Turner, Jamie Bell, Elle Fanning, Lukas Gage e Riley Keough - ao lado de veteranos classudos como Tracy Letts, Elena Anaya e a surpreendente Pamela Anderson.

A inspiração da história, que retrata a destruição de uma rica família norte-americana, radicada na Espanha, veio de De Punhos Cerrados (1965), o primeiro filme do premiado italiano Marco Bellocchio. Mas não se trata de nenhum remake. Como comentou na coletiva desta manhã de sábado (14), Karim queria fazer um filme sobre família. Ainda na pandemia, surgiu esse contato com Bellocchio e a ideia de fazer um novo enredo a partir do filme de 1965, que o diretor brasileiro reviu várias vezes.

Os dois mantiveram contato via Zoom e Bellocchio deu várias sugestões - como mudar o sexo de uma das personagens da família, o que lhe permitiu, segundo ele, “falar mais do patriarcado”. Entrou na jogada o roteirista grego Efthymis Filipou, parceiro habitual de Yorgos Lanthimos em filmes como A Lagosta e O Sacrifício de um Cervo Sagrado, inserindo no enredo elementos mais contundentes de sexo e violência em relação ao original. O que, segundo o roteirista, “não pretende chocar ninguém”. O que ele tenta, segundo diz, “é escrever histórias que possam acontecer em qualquer lugar e que procurem descrever a espécie humana”.

Ponto de vista

Perguntado sobre o que muda o filme o fato de ter sido dirigido por um brasileiro, Karim disse: “ponto de vista”. E completou: “Esta é a crônica de uma família norte-americana. Se o filme tivesse sido dirigido por um norte-americano, ele faria diferente. Eu trago comigo uma vida vivida em diversos lugares. Muda a língua, mas a alma é a mesma”.

O cineasta acha que a comunidade cinematográfica internacional hoje “está mais aberta e curiosa” sobre quem vem de fora, do sul global, como ele, “trazendo mais oxigênio a diversos modos de fazer cinema. É um momento animador”.
Apoio público
Respondendo a outra pergunta, o diretor brasileiro manifestou seu apoio incondicional ao suporte público para a realização de filmes. “Venho de um país onde, se não existisse esse apoio público, o cinema simplesmente não existiria”, destacou. No caso de Rosebush Pruning, também vieram de fundos públicos da Alemanha e Inglaterra recursos importantes para a realização do filme.

Origem do fascismo

Como aconteceu desde a primeira coletiva do festival, a do júri, sempre surgem perguntas sobre a política norte-americana. O ator Tracy Letts preferiu responder que “o filme fala por si”. No seu entender, “a extrema disparidade de renda leva a maus comportamentos e provavelmente isso cria o fascismo. Isto está muito claro neste filme”.