05/06/2026

Cine PE sofre impacto da morte de seu criador mas mantém atividade até domingo, 7

Recife - O clima de comemoração do trigésimo aniversário do Cine PE foi abalado pela súbita morte de seu criador e diretor, Alfredo Bertini, após complicações decorrentes de um transplante de fígado. Apesar do evidente impacto na notícia, o festival, no entanto, continua suas atividades, até domingo (7), com seus organizadores acreditando que esta é a melhor forma de homenagear o legado de seu fundador.

Na programação, o longa concorrente veio de Brasília: Mapas, de Rafael Lobo, que evoca um toque fantástico para acompanhar a busca por uma cicloativista desaparecida em trilhas da capital brasileira. Uma professora universitária, Júlia (Beta Rangel), e um estudante de mestrado, Sérgio (Caíque Copque), são unidos por um acaso: ela atinge sua bicicleta. O incidente os aproxima e conduz na busca dessa ciclista desaparecida, Rebeca, que eles não conheciam, mas cuja história fragmentada exerce sobre ambos um estranho fascínio.

O roteiro, de Rafael Lobo e Lucas Gehre, incorpora a arquitetura peculiar da capital brasileira para compor o que o diretor chamou de uma espécie de “road movie dentro da cidade”, a partir das ruínas de um prédio abandonado nas imediações da UnB, local de estudo e trabalho de Júlia e Sérgio. É a partir das sugestões levantadas por esse lugar, além de uma ilha guardando as ruínas de uma antiga vila operária submersa no lago Paranoá, onde há vestígios da passagem de Rebeca, que o filme tenta construir uma espécie de suspense existencial, em que as buscas interiores da professora e do estudante se entrelaçam com as pistas da estudante desaparecida - que é uma espécie de metáfora, também, do apagamento de tantas figuras na história e na memória de Brasília.

O filme tem uma boa produção técnica, na fotografia (de Emília Silberstein) e no som (Olivia Hernández), mas perde um pouco de sua força numa narrativa à qual falta algum ritmo dramático. É uma boa idéia relacionar as buscas dos personagens aos fantasmas mal-explicados da própria construção de Brasília, obra de grande porte que consumiu as vidas de muitos candangos anônimos - que a aparição de um velho morador de uma floresta evoca de maneira competente.

Curtas

O curta pernambucano da noite foi Salam, de Bruna Tavares, que resgata a figura de uma jovem muçulmana, Gabi Ramos, em Afogados de Ingazeiras, no sertão de Pernambuco.

Solitário representante de Rondônia, o curta A Ascensão da Cigarra, de Ana Clara Ribeiro, também recorreu a uma mistura de linguagens e climas para retratar uma jovem (Amanara Brandão), que vive de escrever textos para cartões de uma funerária ao mesmo tempo que mergulha em questões de auto-afirmação, que têm como figura simbólica a cigarra - metáfora de quem procura sobreviver como artista e também do processo de amadurecimento de uma mulher.

Um Certo Cinema Brasileiro, de Fábio Rogério (SE), recorre ao uso de materiais de arquivo, disponibilizados pelo CTAV e também de trecho de um curta de Ana Carolina (Anatomia do Espectador), retratando entrevistas de espectadores de cinema no Brasil nos anos 1970, que faziam filas para ver A Dama do Lotação e Lúcio Flávio, Passageiro da Agonia, revelando suas expectativas e contradições ao ver esses filmes. Sonia Braga também aparece nessas raras imagens da época, que revelam a persistência de uma relação conflituosa entre o espectador brasileiro e o cinema produzido no País.