“Notas Sobre um Desterro” revisita o genocídio palestino com olhar de dentro
- Por Neusa Barbosa, de Ouro Preto
- 28/06/2026
- Tempo de leitura 2 minutos
Ouro Preto - Integrante da Mostra Competitiva Nacional, o documentário Notas sobre um Desterro, de Gustavo Castro (PR), revisita a trágica situação dos palestinos na Cisjordânia e em Gaza a partir de um olhar de dentro.
Em 2018, o diretor viajou à região, mantendo contato com famílias, como os Latif - que inclusive tem laços com o Brasil. Ruayda Rabah, a mãe da família, é brasileira e radicou-se em Kobar, povoado da Cisjordânia, com o marido Mohammad Abdel Latif, que viveu 14 anos no Brasil. O pai de Ruayda também foi um integrante da diáspora palestina, ocorrida após a criação do Estado de Israel, em 1948, e mais ainda depois da Guerra dos Seis Dias, em 1967, mas retornou, depois de 30 anos, ao seu país, onde finalmente morreu. Ruayda e Mohammad continuaram, então, a cuidar da propriedade familiar, repleta de oliveiras que o pai dela plantou.
A partir desta família, o cineasta tem acesso a outros palestinos, tendo a brasileira como tradutora, o que permite ao filme humanizar um povo cuja imagem chega ao mundo todo através das redes sociais, nas angustiantes cenas de bombardeios e massacres que se intensificaram após 7 de outubro de 2023.
Reinventando todo seu documentário a partir dessa data, pela guerra e o cerco israelense que o impediu de voltar à região, o cineasta recorreu a diversos materiais de arquivo, inclusive da ONU, para incluir um contexto para o lancinante drama palestino. Cria, assim, uma linha do tempo que acompanha as tentativas permanentes de sua expulsão e apagamento a partir de 1917, quando o colonialismo britânico e francês dividiu as terras do antigo império otomano. Nesse processo, destaca o ativo papel do sionismo internacional, que tem impedido uma divisão do território entre palestinos e judeus, como constava do plano original da ONU em 1948 e do fracassado acordo de paz de Oslo em 1993.
Colocando-se ativamente na narração que acompanha todo o documentário - que inclui diversas entrevistas, como de Ualid Rabah, diretor da Federação Árabe Palestina do Brasil e irmão de Ruayda -, Gustavo Castro faz um documento potente sobre este que é um dos mais insolúveis genocídios de nosso tempo, destacando o chocante detalhe que muitas de suas imagens são produzidas, em tempo real, pelas próprias vítimas, muitas delas, crianças, mulheres, profissionais de saúde e jornalistas.
Gustavo Castro, diretor, e Juliana Sanson, produtora do filme "Notas sobre um Desterro"
Crédito: Neusa Barbosa
