20/08/2026

O criativo labirinto cinematográfico de Carlos Segundo

Gramado - Carlos Segundo constrói sua cinematografia original como um inventário de estranhezas. Foi assim nos curtas Sideral (2021) e Big Bang (2022) e também no longa Fendas (2019). Agora, em Leite em Pó, longa da competição, ele aperfeiçoa este caminho, semeando incertezas para o espectador como um campo repleto de pequenas surpresas, que irão se abrindo no percurso.

Não deixa de ser instigante este caminho, que procura despertar os instintos do público, tantas vezes solicitado ao conformismo ou a uma satisfação plena de suas expectativas, o que lhe dá segurança para atravessar. Não aqui. A trajetória do protagonista, Vicente (Vinícius de Oliveira), será sempre incerta e, por isso mesmo, nunca se sabe o que esperar de seu próximo encontro e aventura.

Se é o luto que deflagra esta trajetória, com a morte da avó Helena (Zezita Matos), não se trata de retratá-lo de uma forma usual - até porque Helena continuará habitando o filme através de seu caderno de memórias, encontrado pelo neto e desencadeador de descobertas pouco edificantes sobre a história da família, onde há um certo avô militar norte-americano, um dos tantos que veio para Natal, onde havia uma base militar,l na II Guerra Mundial.

Lançado ao mundo, tendo de encontrar meios de garantir a própria sobrevivência longe da proteção da avó, Vicente, um roqueiro frustrado, tenta vender álbuns de fotografia para o estúdio chefiado por Jane (Titina Medeiros, em um de seus últimos filmes). Uma tarefa inglória, mas que fornece ao filme o dispositivo para encontrar pessoas muito diferentes, que desatam no protagonista várias etapas do próprio amadurecimento: a arquiteta Iara (Rejane Faria), uma comerciante trans, uma cabeleireira vitimizada pela violência doméstica, uma mulher e um gay dispostos a uma noitada erótica.

Cada um desses encontros, ao invés de fechar a narrativa, abre as portas para o que o próprio diretor chamou, na coletiva de imprensa, de um “percurso labiríntico”, em que ele admite o interesse de incluir símbolos e signos que permitam a um caleidoscópio se formar, acompanhando a jornada de Vicente, confrontado com a obrigação de se reinventar.

No elenco, a presença sempre luminosa de Antonio Pitanga, que se reencontrou no set com Zezita Matos, 60 anos depois de Menino do Engenho (1965), de Walter Lima Jr.

Documentário

Dirigido por Micaele Xucuru, Chico Ludermir e Sérgio Borges, o documentário Empeleitada coloca ao centro a construção de uma casa de taipa na comunidade Xucuru, no Agreste pernambucano, enfatizando o esforço coletivo que embasa toda a vida comunitária, base da cultura indígena. A construção, que depende de todos os membros da comunidade, torna-se também um símbolo de resistência local na luta por seu território, que culminou na morte de lideranças como o cacique Xikão, em 1998, na região de Pedra d’Água, cujo trabalho foi continuado por seu filho.