Filme que mira Igreja Universal estreia em Gramado
- Por Neusa Barbosa, de Gramado
- 20/08/2026
- Tempo de leitura 3 minutos
Gramado - Concorrente talvez com maior potencial de polêmica neste festival, mais por conta do seu tema do que qualquer questão estética, Justino - Nos Bastidores do Reino, de José Eduardo Belmonte, mergulha nas entranhas de uma poderosa igreja neopentecostal cujo bispo-líder, Azevedo (interpretado com veneno por um Caio Blat quase possuído), enriquece e ganha poder à custa da exploração da fé de seus desavisados fiéis e também de seus pastores, como Mário Justino (Christian Malheiros). Expulso da igreja, ele denuncia sua via-crúcis.
Qualquer semelhança com algumas das poderosas igrejas neopentecostais que floresceram no Brasil nas últimas décadas não é mera coincidência. Embora no filme a igreja em questão seja designada como Campo Divino, na realidade trata-se da Igreja Universal do Reino de Deus e o bispo em questão é ninguém menos do que Edir Macedo. Por conta de sua citação nominal a partir do título,
Nos Bastidores do Reino: A Vida Secreta na Igreja Universal do Reino de Deus, as memórias de Mário Justino, publicadas pela Geração Editorial nos anos 1990, foram retiradas da gráfica e estiveram embargadas judicialmente por cerca de cinco anos. Agora, trinta anos depois, o livro foi republicado. O editor Luiz Fernando Emediato é um dos produtores do filme, que se inspira no livro e deve estrear nos cinemas apenas em 2027.
Saga incrível
Seduzido pelo discurso de Azevedo e outros pastores (interpretados por Bruno Garcia, Gustavo Vaz e Angel Ferreira), o menino pobre e incompreendido de uma comunidade carioca que era Justino encontra acolhida nessa igreja, em que também é explorado. Trabalha como vigia e faxineiro de uma de suas sedes a troco de casa e comida, sem registro em carteira, encantado pela crença de estar servindo a Deus.
Quando Azevedo descobre o talento natural de Justino para a pregação, este rapidamente ascende dentro de uma estrutura verdadeiramente empresarial, baseada na pressão ostensiva ao dízimo dos frequentadores. Uma das principais pautas de todas as pregações é, aliás, uma doutrinação que iguala a doação de bens materiais à igreja ao acesso ao reino dos céus. Bens esses que enriquecem os pastores, Azevedo mais do que todos os outros.
O filme acompanha essa jornada vertiginosa de Justino, dos 15 aos 27 anos, passando pelo sucesso financeiro, a obrigação de deixar de lado sua homossexualidade com um casamento arranjado com outra fiel, Graça (Larissa Nunes), o contato com drogas até cair em desgraça e ser abandonado pela igreja até uma quase morte, nos EUA.
Esta saga do personagem, que é muito maior no livro do que na tela, tem componentes de filme de máfia, guiada pela denúncia da estrutura de uma igreja que, como outras, vem tendo influência política crescente no Brasil, num notório projeto de poder que instiga o conservadorismo. Por isso mesmo, não é possível deixar de dar razão ao ator Bruno Garcia, quando na coletiva chamou aqueles pastores desonestos de “coiotes”, destacando também seu estímulo a uma intolerância religiosa contra os cultos de origem africana, o que inclusive é objeto de uma cena do filme. “Não se tem notícia de depredação de nenhuma igreja evangélica ou católica. Mas de terreiros, há muitas. Isso deveria estar sendo investigado mais a sério”, afirmou o ator.
Por tudo isso, mostra-se mais do que legítima, e até urgente, a intenção, destacada pelo diretor Belmonte na coletiva, de através do filme “falar mais do País, entender quem a gente é, retomando de volta uma tradição do Cinema Novo”.
Imagens
Cena do filme - Crédito: Divulgação
Larissa Nunes, Christian Malheiros, José Eduardo Belmonte, Nilson Rodrigues e Caio Blat - Crédito: Neusa Barbosa
