08/09/2026

Lee Chang-dong eleva a competição com seu potente "Possible Love"

Veneza - O final de semana esquentou ainda mais a disputa pelo Leão de Ouro com a passagem do candidato sul-coreano Possible Love (foto ao lado). O novo filme do veterano e premiado Lee Chang-dong, que os brasileiros conhecem do potente Em Chamas (2018) e do delicado Poesia (2011), é um admirável enredo sobre as múltiplas relações que se formam entre dois casais de classes sociais diferentes, produzindo um filme envolvente e com muitas camadas.

O casal proletário é formado por Mi-ok (Jeon Do-yeon) e Ho-seok (Sul Kyung-gu), o mais rico, pela documentarista Ye-ji (Cho Yeo-jeong) e o executivo Sang-woo (Jo Iu-Sung). Eles se aproximam quando a documentarista leva adiante o projeto de resgatar as histórias por trás da fracassada greve numa empresa metalúrgica, que foi violentamente reprimida e causou o desemprego e vários traumas na vida de Ho-seok, cuja mulher é operária têxtil.

À medida que a cineasta e, depois, seu marido, se envolvem na vida dos dois trabalhadores, outras relações se formam, permitindo a Chang-dong abrir várias camadas, num filme muito denso, que explora as contradições do capitalismo, do sindicalismo, da luta de classes, enfim, interferindo evidentemente nas expectativas despertadas pela aproximação entre duas realidades muito diferentes, como são as dos dois casais.

Aliás, os mestres sul-coreanos têm sido precisos em realizar filmes que dissecam a crise atual do capitalismo, como Bong Joon-ho em Parasita e Park Chan-wook em A Única Saída. Com Possible Love, Chang-dong não ficou atrás.

Assinando o roteiro em parceria com Jungmi-oh, Chang-dong esmera-se em sua habitual perícia de extrair sentimentos e reflexões com uma densidade de que poucos diretores e roteiristas são capazes. Por isso, o filme impressiona e permanece na memória, fazendo valer a duração de suas quase 3 horas com a compensação de que se assistiu a uma obra extraordinária. Que o júri presidido por Maggie Gyllenhaal tenha sensibilidade e juízo para premiá-lo como merece. Um Leão de Ouro seria de se esperar.

O filme foi coproduzido pela Netflix e tem estreia global prevista para 6 de novembro deste ano.

Feminismo à dinamarquesa

Diretora conhecida por Rainha de Copas (2019) e uma das duas mulheres na competição de Veneza, a dinamarquesa May El-Thoukhy apresentou aqui um drama de época consistente e feminista em Woman Unknown. Contando com a interpretação afiada da protagonista Mathilde Arcel, ela conta a história de Marie, uma jovem arrumadeira que, após o final da II Guerra, emprega-se na casa de um industrial, o viúvo Christian Lind (Carsten Bjornlund), e prepara-se para casar com ele.

Este projeto de vida é ameaçado quando ela reencontra um velho conhecido e isto precipita o risco da descoberta de segredos do passado de Marie, que manteve um relacionamento com um soldado alemão.

A partir daí, ela tem que fazer escolhas difíceis não só para manter as aparências como para que esse segredo não venha à tona, num tempo de pós-guerra em que milícias da Resistência caçavam antigos colaboradores com os nazistas.

No roteiro assinado em parceria pela diretora e por Maren Louise Käehne, há um olhar saudavelmente feminista na maneira como enfoca os desafios de ser uma mulher pobre naquele tempo e lugar. Neste sentido, são notáveis sequências como a consulta de Marie no ginecologista; o olhar lançado pelo modista quando ela prova o vestido de noiva; e como os amigos de Lind a examinam num jantar. Todas estas cenas e mais a maneira como o filme demonstra como o colaboracionismo com os alemães foi tolerado quando praticado pelos industriais - mas não pela população em geral - tornam Woman Unknown um dos títulos mais interessantes da seleção deste ano. E um dos poucos a ter um papel feminino do peso do de Marie, que já tornam Mathilde Arcel uma forte candidata à Copa Volpi de interpretação.

Melodrama italiano

As credenciais de ter partido de um roteiro inacabado de Bernardo Bertolucci, morto em 2018, já tornavam The Echo Chamber, do italiano Andrea Pallaoro, um título promissor. Mas essas expectativas se diluíram bastante com o filme concreto, cujo roteiro foi finalizado por Ludovica Rampoldi e Ilaria Bernardini, e é falado em inglês.

Talvez nunca saberemos se alguns excessos que comprometem o andamento deste romance dificílimo entre o produtor musical Leo (Luca Marinelli) e a fisioterapeuta Anne (Alicia Vikander) sejam de responsabilidade das corroteiristas ou do próprio Bertolucci. O fato é que há bons momentos neste relacionamento complicado pelo vício em drogas que Leo está tentando deixar, contando com a dedicação de Anne para ajudá-lo - como suas comoventes idas ao apartamento de Leo, quando ele sai, para verificar se tudo está bem e também para conhecer melhor a vida de um homem com sérias dificuldades de lidar com a intimidade.

Tanto Alicia Vikander quanto Luca Marinelli são atores que é um prazer ver atuando. Assim como a veterana Susan Sarandon, fazendo uma participação especial como Ava May, uma velha cantora que deixou a carreira há anos e que o produtor estimula a lançar um novo álbum. Por causa deles, The Echo Chamber
não é totalmente perdido. O enorme problema é o final dado a este drama, com um exagero melodramático que compromete a estrutura e até a credibilidade - ouviram-se alguns risos na sessão de imprensa e eles não foram descabidos, pelo tom de novelão.