Mostra chega ao fim com documentário inédito “Tudo Pode Ser Visto”
- Por Neusa Barbosa e Alysson Oliveira
- 29/10/2026
- Tempo de leitura 5 minutos
O documentário inédito Tudo Pode Ser Visto, de Nathan Fielder e Lance Oppenheim, encerra a 50ª Mostra na quinta-feira, 29 de outubro, no Teatro Cultura Artística, logo depois da cerimônia de premiação, que começa às 18h. A sessão será acessível somente aos espectadores que compraram ingressos previamente online. O filme estreia no Brasil em 26 de novembro.
Exibido como filme-surpresa no Festival de Telluride, o documentário acompanha os últimos dias de liberdade de Elizabeth Holmes, condenada por fraude depois de ter-se tornado bilionária com sua empresa de saúde, a Theranos, que anunciava ter criado um aparelho capaz de realizar centenas de exames a partir de uma gota de sangue. Holmes foi condenada a 11 anos e 3 meses de prisão, além da restituição financeira às vítimas.
Desde seu lançamento nos cinemas norte-americanos, em 16 de outubro, Tudo Pode Ser Visto já arrecadou mais de US$ 15 milhões.
DUAS ATRAÇÕES DO ÚLTIMO DIA:
Cotton Fever
Ao falar deste que é seu primeiro longa, o cineasta estadunidense Daniel Blake Schwartz é desarmadoramente sincero. “O filme nasce das minhas experiências com drogas e minha sobriedade”, confessa. Além de fazer cinema, ele se dedica a auxiliar outras pessoas em reabilitação através de organizações de assistência a dependentes químicos em Boston, onde vive.
“Comecei tardiamente na carreira artística. Por muito tempo fui dependente químico, mas encontrei no cinema uma maneira de continuar sóbrio. Não fui à escola de cinema, aprendi a fazer filmes com uma câmera nas ruas de Boston.”
Seu segundo projeto foi o curta Cotton Fever, de 2022, que agora ele expandiu num longa, que faz um painel cru da realidade de personagens enfrentando o vício. Um casal, que espera o primeiro filho, tenta manter a sobriedade. Já outro casal de jovens vive nas ruas, enquanto um assistente social ajuda diversas pessoas, mas tem dificuldades de se conectar com seu irmão. Essas são apenas algumas das linhas narrativas construídas por Blake Schwartz a partir das pessoas que conheceu.
“Eu passei por todas as fases da epidemia das drogas, tive contato com as mais diversas pessoas, enfrentando problemas parecidos com os meus, ou até piores. Eu queria trazer o máximo de autenticidade ao filme.”
Para isso, explica, inspirou-se nos primeiros filmes do cineasta britânico Mike Leigh, que, com seu estilo colaborativo, construiu seus longas com apoio do elenco. “Não tínhamos muito dinheiro para a produção, então buscamos fazer tudo juntos e buscar saídas criativas para as limitações.”
A fotografia, assinada por Tom Acton Fitzgerald, foi premiada no Festival de Tribeca, sendo marcante em sua luminosidade e capacidade de observar os personagens. “Foi uma parceria muito importante, tanto que ele é um dos produtores do filme. Para mim, esse é um filme muito espiritual, no sentido de tratar da condição humana, da busca pela conexão, enfim, de temas que tocam a todos. Tentei trazer personagens muito humanos, e o trabalho com Tom foi fundamental para isso”. (Alysson Oliveira)
29/10 - 17:00 - CIRCUITO SPCINE LIMA BARRETO - CCSP
A Providência e a Guitarra
Quando leu o conto A Providência e a Guitarra, de 1878, do escocês Robert Louis Stevenson, o cineasta português João Nicolau viu ali a possibilidade de falar da autonomia da arte no presente. Para isso, partiu da adaptação do texto para o cinema, trazendo um novo elemento: personagens no século XXI espelhando a narrativa do passado.
“Não me interessa, no entanto, fazer um mero espelhamento entre passado e presente. Isso é óbvio demais, por isso minha ideia era fazer o que chamo de flashbacks do futuro e deslocar a trama,” explica em entrevista ao Cineweb.
O filme acompanha, no passado, Léon e Elvira Berthelini (Pedro Inês e Clara Riedenstein), um casal de trovadores no Portugal do século XIX, sem dinheiro mas com muita picardia e amor pela sua arte. No presente, a banda punk Desgraça também sofre as mesmas dificuldades, mas, logo na sua primeira cena, numa entrevista num programa de rádio, revela as diferentes visões de mundo e da arte que possuem seus integrantes, o que introduz uma tensão no grupo.
“Para construir os dois tempos, pensamos muito na estética como forma de diferenciar. O passado é mais rico visualmente, com uma fotografia mais requintada e os diálogos mais cuidados. No presente, a fotografia é mais crua, mais direta, sem tanta preocupação, e as falas, coloquiais.”
Para chegar a essa dinâmica, Nicolau conta que os ensaios foram fundamentais. “O filme nasce nos ensaios, é ali que vejo sua verdade.” Como A Providência e a Guitarra traz músicas tocadas em cena, era fundamental que houvesse essa preparação. O diretor, que escreveu as canções com arranjos de João Lobo, confessa que não queria gravá-las antes, entendendo que deveriam ser executadas na frente da câmera.
Pedro Inês concorda que os ensaios foram fundamentais para a construção dos personagens e do filme. “Foi um momento de preocupação com o texto e as músicas. O restante, a parte técnica, ficava aos cuidados do João”, conta. Ele destaca também que esse momento foi importante para a construção de um senso de coletividade entre o elenco.
“É o meu filme com maior elenco”, explica o cineasta, que tem em seu currículo John From e Technoboss. “A busca pelo entrosamento coletivo é a ideia central do filme, raramente há cenas com personagens sozinhos na frente da câmera.” (Alysson Oliveira)
29/10 - 13:45 - CINESYSTEM BELAS ARTES FREI CANECA 4
