19/10/2026

Segunda-feira tem Palma de Ouro, documentário sobre Musk e suspense com Grace Passô

A semana começa já com Fjord, a Palma de Ouro 2026, o alentado documentário de Alex Gibney sobre Elon Musk e a última sessão na Mostra do suspense brasileiro A Professora de Francês, de Ricardo Alves Jr., com Grace Passô à frente do elenco. Confira os detalhes:

Fjord

O diretor romeno Cristian Mungiu conquistou sua segunda Palma de Ouro com este drama sobre as contradições do enfrentamento entre fanatismo religioso e atuação estatal na proteção a crianças, escudada nos valores politicamente corretos modernos.

Vencedor de outra Palma em 2007 com 4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias, Mungiu analisa o atuante sistema estatal norueguês de proteção a crianças a partir do caso de uma família romena emigrada, que é ultrarreligiosa e educa os filhos com valores super-rígidos. No elenco, o ator romeno Sebastian Stan e a norueguesa Renate Reinsve, estrela de Valor Sentimental, formando o casal de pais que são expostos na mídia e submetidos a um julgamento que pode retirar-lhes a guarda dos cinco filhos, por impor-lhes regras duras de comportamento e supostamente submetê-los a castigos físicos.

Mungiu é extraordinariamente hábil em expor as contradições dos excessos - tanto da burocracia, quanto do fanatismo religioso, denunciando a ortodoxia onde quer que ela se localize, agravada pela apropriação moderna de todas as causas por movimentos nas redes sociais.

No centro de tudo, está esta família de imigrantes romenos - o que os torna alvos, inclusive, de uma certa xenofobia -, que educam os filhos com base na observância estrita da Bíblia, proibindo o uso de celulares, o youtube e videogames. Quando surge a suspeita de que batem nos filhos, começa uma investigação que parte de uma denúncia da escola e isso gera um turbilhão que desmonta o cotidiano familiar. Mas, no centro de tudo, resta a discussão: o que é mesmo melhor para as crianças? Quem é que pode responder? E nisto está o preciso trabalho de roteiro e direção pelo qual Mungiu é conhecido e exerce muito bem aqui, num filme feito na Noruega, em coprodução.

Num mundo assolado por diversas formas de fanatismo religioso e tentativas de sua contenção, Fjord mostra-se um filme muito relevante. (Neusa Barbosa)

19/10 - 18:00 - CULTURA ARTÍSTICA

26/10 - 20:10 - CINESESC

Musk

Não falta ambição ao documentário Musk, em que o veterano premiado diretor norte-americano Alex Gibney mergulha na figura poderosa e polêmica do milionário Elon Musk. Ele disseca em quase quatro horas de duração, a trajetória do polêmico empreendedor sul-africano, analisando suas investidas em foguetes, carros elétricos, IA e outras atividades que o tornaram trilionário.

Sem ter conseguido entrevistar o próprio protagonista, que se negou a falar, Gibney recorreu à IA para compor na tela o avatar de Musk, reproduzindo suas falas reais em diversas entrevistas. Além de um extenso material de arquivo, Gibney entrevista seu pai, a ex-mulher Justine, antigos colaboradores e jornalistas que acompanham as atividades de Musk e suas manobras para tomar a frente de empreendimentos - inclusive sua peculiar ligação com a política.

Sem nunca ter sido político, Musk aproximou-se tanto dos democratas, no governo Barack Obama, quando se tornou a primeira empresa privada a carregar materiais da NASA em seus foguetes, quanto mais ainda de Donald Trump, entrando decisivamente em sua campanha ao segundo mandato presidencial através de mobilizações no X, antigo Twitter, que ele havia adquirido. O X, aliás, tornou-se uma das mais eficientes ferramentas da atuação de Musk com sua peculiar gestão de algoritmos com objetivos de dominação da opinião pública com objetivos políticos.

O documentário dedica um tempo generoso à participação direta de Musk na administração Trump, através do DOGE, um órgão criado por ele e integrado por uma equipe de jovens que fez um estrago em sua obsessão por cortar custos a qualquer preço, eliminando programas de saúde e educação e agências como a USAID, colocando em perigo a assistência social a populações em risco, por conta de guerras e fome, além de paralisar pesquisas com vacinas na metade e temporariamente suspender apoio ao combate do Ebola na África.

Na segunda metade do filme, dedica-se tempo também às relações de Musk com governantes de extrema-direita no mundo, como Javier Milei e também Jair Bolsonaro, que é visto numa manifestação agradecendo a Musk. O documentário não deixa de lado também o lado pessoal da figura, um homem bastante tóxico em suas relações com diversas mulheres, pai de diversos filhos (são conhecidos 14, mas podem ser mais).

Atravessar a extensa duração do filme pode ser um desafio, mas altamente compensador, já que o documentário de Gibney disseca uma das figuras mais essenciais para entender os males do nosso tempo. (Neusa Barbosa)

19/10 -19:30 - CINESYSTEM BELAS ARTES FREI CANECA 3
26/10 - 15:30 - CINESYSTEM BELAS ARTES FREI CANECA 1
29/10 - 17:15 - CINE BELAS ARTES SL 1 LEON CAKOFF

Primetime

Vindo do documentário, o jovem diretor Lance Oppenheim, de 30 anos, escala Robert Pattinson como protagonista da história, que traça o perfil de Chris Hansen, um jornalista que alcançou enorme notoriedade na emissora NBC, 20 anos atrás, à frente do programa To Catch a Predator - que criava armadilhas para atrair e depois expor pedófilos que procuravam suas vítimas online.

Há um enorme potencial nesta história, que focaliza um tema urgente - a pedofilia online - e também denuncia os mecanismos sensacionalistas do programa de TV, comandado por Hansen, que aparece ao vivo desmascarando os criminosos, atraídos por membros de sua equipe que se fazem passar por adolescentes, como o jovem ator Dan Plumb (Skyler Grisondo).

Com toda essa possibilidade de escavar os bastidores desse mundo da TV, em que a guerra pela audiência leva facilmente ao abandono de qualquer limite, a verdade é que o filme de Oppenheim não faz nada disso. Limita-se a criar uma obra com estética e voltagem de vídeo para internet, sem na verdade aprofundar o perfil de seus personagens, nem mesmo o protagonista Hansen. Muito menos sua produtora (Merritt Wever), uma personagem com potencial para discutir uma questão ética, mas isso não acontece realmente.

Afinal, Primetime se contenta com seu ritmo vertiginoso de videoclipe e se aproveita do hype em torno de Robert Pattinson para tentar fisgar o público jovem, o que aconteceu na première mundial do filme aqui em Veneza. Na abordagem do tema do jornalismo, Ink, de Danny Boyle, foi bem mais além no mesmo festival ao expor as entranhas da ascensão do jornal britânico sensacionalista The Sun. (Neusa Barbosa)

19/10 - 16:45 - CINESESC
20/10 - 21:40 - CULTURA ARTÍSTICA
25/10 - 13:00 - RESERVA CULTURAL - SALA 1
29/10 - 21:40 - ESPAÇO PETROBRAS DE CINEMA SALA 1

RRR: Revolta, Rebelião e Revolução

Inédito nos cinemas brasileiros, o filme indiano, vencedor do Oscar de canção original em 2023, só circulou aqui em plataformas e terá uma exibição especial única na Mostra por conta da homenagem ao seu diretor, S. S. Rajamouli, que vem receber o prêmio Leon Cakoff e participar de uma conversa com o público, no Solar Fábio Prado às 17h30.

A Professora de Francês

Com estreia mundial ocorrida no Festival de San Sebastián, na Espanha, o drama de Ricardo Alves Jr. parte de um roteiro de Germano Melo e capta dois temas fundamentais entrelaçados: a intolerância e o fanatismo religioso.

Grace Passô é a protagonista, Graça, uma professora de francês lésbica, que tem um relacionamento com a francesa Clara (Jehnny Beth). Quando seu pai, Raimundo (Rodger Rogério), tem um grave problema de saúde, ela volta à casa familiar, na periferia de Belo Horizonte, que ela não frequenta muito. O pai muitas vezes é cuidado pela família de vizinhos, cuja atenção se confunde com um certo controle da intimidade alheia - e que se torna um problema maior devido à sua adesão a um misterioso culto.

O jovem da família, Tomás (Pedro Goifman), torna-se cada vez mais o centro das celebrações religiosas desses vizinhos, comandadas pelo casal Saulo (Eduardo Moreira) e Lourdes (Elisa Lucinda), que por trás de sua aparente gentileza não ocultam a intolerância pela orientação sexual de Graça.

Obrigada a passar mais tempo na casa do pai, por conta de sua delicada saúde, Graça vê-se no centro de uma pressão cada vez maior daquela família, que oprime a filha Tainá (Bárbara Colen) e da qual faz parte também Tenório (Rômulo Braga), que não esconde uma frustração amorosa em relação a Graça.

O filme evolui no sentido de um drama de suspense que incorpora tintas de terror nessa obsessão religiosa que só se conforma com a submissão e o domínio absoluto e não enxerga limites. Ninguém se engane, esta é uma história de terror, que encontra, infelizmente, várias semelhanças com a realidade. (Neusa Barbosa)

ÚLTIMA SESSÃO:

19/10 - 16:45 - RESERVA CULTURAL - SALA 2

O Homem Mais Solitário da Cidade

No Festival de Berlim 2026, brilhou a passagem de um personagem idoso e inusitado, o blueseiro austríaco Al Cook, que é corpo e alma do filme O Homem Mais Solitário da Cidade, de Tizza Covi e Rainer Frimmel, que só não se chama documentário por poucos aspectos. O protagonista vive na tela realmente quem ele é na vida real, em seu próprio apartamento, cercado por seus livros, vídeos e discos de vinil, entre seus móveis antigos e com seu próprio figurino, como se se tratasse de um passageiro do tempo, congelado num passado ideal do qual ele nunca partiu.

Solitário depois da morte da mulher, ele se vê ameaçado de perder seu refúgio quando recebe uma notificação de despejo depois que seu prédio foi vendido para uma incorporadora. Confrontado com essa perspectiva, ele sonha finalmente em poder viajar para o Delta do Mississippi, nos EUA, lugar de origem de seus ídolos musicais da vida toda. Assim, o filme capta um dos dramas mais candentes de nossa época, em várias capitais europeias, inclusive, e que o filme coloca com todas as tintas humanistas, com riqueza de detalhes e um toque de humor e ternura que o tornam muito marcante. (Neusa Barbosa)

19/10 - 19:15 - CINESESC
21/10 - 17:30 - CINESYSTEM BELAS ARTES FREI CANECA 2
23/10 - 19:00 - CINE BELAS ARTES SL 1 LEON CAKOFF
25/10 - 22:05 - ESPAÇO PETROBRAS DE CINEMA SALA 2

American Doctor

O documentário começa com uma questão ética. A diretora malaia-americana Poh Si Teng conversa com um dos médicos que serão figuras centrais no longa, o cirurgião ortopedista estadunidense Mark Perlmutter, que está com um tablete e conta que ali há fotos de corpos de crianças pequenas assassinadas em ataques israelenses. Ele pede que a cineasta mostre aquelas imagens, é importante que todos vejam. Ela
por sua vez, tem receio, crê que aquilo irá ferir a dignidade dessas vítimas do genocídio. Mas Perlmutter insiste, diz que tem autorização dos pais, e que a dignidade dessas crianças já foi ferida há muito tempo por Israel. Isso, dito por um judeu, é potente na tela.

A partir disso, Si Teng deixa de lado qualquer pudor que poderia haver nesse sentido e dá voz a Perlmutter, Thaer Ahmad, médico emergencista palestino-estadunidense, e Feroze Sidhwa, traumatologista, também, estadunidense de ascendência paquistanesa. Dois deles são voluntários em Gaza, num hospital onde são recebidos civis com os mais diversos graus de ferimentos, e veem diante de si a todo momento o horror dos ataques contra crenças e adultos civis que não têm a menor chance de se defender.

Perlmutter e Sidhwa deixam o conforto de suas casas, de hospitais bem equipados, para trabalhar num pequeno hospital em Khan Younis – um lugar que, como mostram as imagens finais, foi covardemente atacado. A situação de Ahmad, no entanto, é ainda mais complexa. Ele não recebe autorização para entrar na Palestina exatamente por sua nacionalidade palestina. Isso o consome e frustra. Os depoimentos dele, diante dessa impossibilidade, são sinceros e comoventes.

Mas nada impressiona mais do que o trabalho de Perlmutter e Sidhwa ali, na linha de frente, convivendo com situações precárias, poucos insumos e limitações tecnológicas que poderiam salvar vidas. Fora isso, a dupla constantemente participa de entrevistas em canais de televisão nos EUA e Europa, nos quais a realidade do genocídio em Gaza é maquiada a favor de Israel.

As palavras mais sensatas vêm exatamente de Perlmutter, que encara as coisas como são: um genocídio perpetrado por um governo fascista. Ele tem esse, digamos, privilégio de usar tais termos por ser estadunidense e judeu. Certamente, ele sofre represálias da comunidade judaica e corre riscos, mas bem menos do que Sidhwa e Ahmad, se usassem essas palavras.

Nos EUA, depois de voltar de Gaza, o trio se reúne com outros ativistas e vai ao Congresso em busca de apoio para o corte nos envios de dinheiro e armamento para Israel, mas a jornada parece destinada a ser infrutífera, o que não os faz desistir, no entanto. Esses relatos em primeira pessoa de médicos que estão ali, que presenciam, inclusive, ataques a Gaza e ao próprio hospital onde estão, são estarrecedores.

American Doctor levanta, involuntariamente, outra questão fora da tela. O longa estreou no Festival de Sundance, no começo do ano, onde causou certo barulho, foi muito bem recebido, e depois passou em outros pequenos eventos, mas ainda não recebeu nem metade da atenção de Naza, por exemplo. Não é o caso de se colocar um filme contra o outro, ou dizer qual é o melhor
– nada disso. Mas, aparentemente, até as narrativas sobre palestinos e o genocídio só ganham mais destaque, são ouvidas com mais atenção quando são feitas por israelenses. É algo a se pensar. (Alysson Oliveira)

19/10 - 20:00 - CINESYSTEM BELAS ARTES FREI CANECA 4
20/10 - 13:15 - SOLAR SALA PETROBRAS

Nação Ubuntu - A Voz dos Silenciados

O cineasta Paulo Henrique Fontenelle é conhecido por seus documentários sobre artistas musicais, como Loki – Arnaldo Baptista e Cássia, sobre Cássia Eller. Mas em Nação Ubuntu – A Voz dos Silenciados, ele volta sua câmera para o campo de refugiados de Dzaleka, no Malawi, que fica em Dowa, a cerca de 40 km da capital, Lilongwe. É, ao mesmo tempo, um filme diferente na obra do cineasta, mas também se encaixa perfeitamente ao trazer expressões musicais dos refugiados.

Fontenelle conta que a primeira vez que visitou o campo, a convite da produtora Iafa Britz, foi no começo de 2020, ficando impactado com o que viu. “Ficamos dez dias fazendo pesquisas, e eu fiquei muito impressionado com as histórias, que eram de muita dificuldade, mas também de esperança. Fiz algumas entrevistas e conheci melhor a realidade daquele lugar, marcada pela violência, homofobia e preconceito contra mulheres”, explica o cineasta em entrevista ao Cineweb.

Apenas cinco anos depois, ele conseguiu voltar, levando consigo uma pequena equipe. “Tudo havia mudado, eram outras pessoas, graças ao projeto de quatro jovens ali do campo que resgataram a antiga filosofia Ubuntu, melhorando a vida de todos. É perceptível nas imagens o antes [em 2020] e o depois [2025], como eles estavam mais saudáveis, mais felizes, física e emocionalmente muito melhores.”

Ao centro do filme estão os quatro jovens responsáveis pelo resgate da filosofia: Maick Mutej, Prince Kalolo, Felly B. Zihalirwa e Frank Kabamba. “Tentamos ao máximo nos integrar ao grupo, ter curiosidade pelas suas histórias. O conteúdo humano é muito forte e, além disso, cinco refugiados também fizeram parte da equipe do filme.”

Ele aponta que Nação Ubuntu – A Voz dos Silenciados toca em assuntos muito sensíveis, poucas vezes mostrados na mídia. “Não temos noção das coisas que acontecem nos países africanos, dos projetos que dividem as sociedades locais, instaurando caos e tensão. O filme, no entanto, busca mostrar também a solidariedade e trazer um pouco de esperança abordando uma sociedade mais justa.”

A música, como se vê no documentário, é uma expressão central para essas pessoas, e para Fontenelle uma questão importante aos seus filmes. “Eu brinco que faço cinema, porque não consegui ser músico. A trilha sonora é sempre uma preocupação para mim. Encontrar essas pessoas que faziam música no campo mudou os rumos do filme.”

Atualmente, o cineasta, que também dirigiu uma série premiada sobre a Escola Base,
finaliza uma série sobre Roberto Menescal. Além disso, acaba de anunciar o lançamento de uma série sobre Renato Russo para o ano que vem. “Cada filme é uma aventura, você nunca sai o mesmo que entrou. Cássia e Loki foram emocionantes, guardei um pouco de cada um desses artistas dentro de mim.”

Cássia Eller, uma figura central em sua filmografia, também está nos planos para 2027, com o relançamento, no cinema, do seu documentário de 2014. Fontenelle também trabalha como consultor no longa dramático sobre a cantora, que tem direção de Diego Freitas e traz Luísa Arraes como protagonista. (Alysson Oliveira)

19/10 - 21:30 - RESERVA CULTURAL - SALA 1
21/10 - 13:30 - ESPAÇO PETROBRAS DE CINEMA SALA 1