28/10/2026

Ali Asgari e o retrato de um Irã além da guerra e dos noticiários

Pela primeira vez no Brasil e na América do Sul, o cineasta iraniano Ali Asgari veio participar do júri da 50ª Mostra e também exibir seu mais recente filme, Um Pouco de Esperança, que participou da competição do Festival de Veneza.

Na história, um médico (Misagh Zareh), que foi preso e proibido de clinicar por ter atendido manifestantes contra o governo, decide suicidar-se. Antes, irá comunicar sua decisão a cada um de seus irmãos e também à sua mãe, o que o leva a reavaliar sua atitude. O filme tem ainda duas sessões na Mostra (confira abaixo).

Nesta entrevista exclusiva a Neusa Barbosa, o cineasta fala sobre seu compromisso de retratar a realidade iraniana em todos os seus aspectos, do impacto da guerra contra os EUA na vida cotidiana do país e como consegue realizar seus filmes de maneira independente, produzindo-os em coprodução com outros países e exibindo-os apenas num circuito underground.

No Brasil, muito do que sabemos sobre o Irã vem do seu cinema. Na imprensa, há sempre um filtro, tanto no Brasil, quanto nos outros lugares. Pelos filmes, no entanto, temos uma noção do que são as pessoas e a sociedade iraniana. Portanto, considero que os filmes iranianos são muito importantes para o mundo. E o senhor ainda mora lá, neste momento em que seu país está no meio de uma guerra contra os EUA, uma situação muito dura.

Sim. Para nós, iranianos, filmar não é apenas filmar, porque vivemos num país em que tudo está ligado à política. Mesmo nossa vida cotidiana está conectada à política. Portanto, acho muito importante, como cineasta, captar este momento, documentando, de certa maneira, o que está acontecendo. Acredito que além de sermos artistas, somos como uma espécie de historiadores escrevendo a História à medida que acontece todos os dias. Por isso faço uma porção de filmes neste momento, para retratar a vida real. Penso que o público ocidental tem uma visão um tanto distorcida sobre o Irã e a vida lá. Por isso eu tento tanto retratar a vida cotidiana, como as pessoas vivem realmente, simplesmente. Como você diz, filmar é tão importante. É isso que gosto no cinema.

Todos os dias, lemos artigos na nossa imprensa descrevendo como é essa vida no Irã e muitas vezes temos a impressão de que não pode ser exatamente desse jeito, mesmo que saibamos que vocês tem problemas, com o governo inclusive.

Os noticiários mundiais estão sempre destacando esses problemas, a miséria, a guerra. Mas, ao mesmo tempo, as pessoas no Ira estão levando adiante sua vida normal, estão vivendo. E eu queria realizar um filme sobre essa vida, simplesmente sobre a vida.

Muito se fala também sobre a posição das mulheres na sociedade iraniana.

Sim. E eu sempre procuro colocá-las fora da posição de vítimas em que a imprensa ocidental procura sempre colocá-las. As mulheres neste meu filme (Um Pouco de Esperança) são poderosas, as irmãs, a mãe do protagonista. Como cineasta, é importante mostrar a realidade.

Assim como no filme você mostra pessoas protegendo as janelas por conta dos bombardeios norte-americanos.

Sim, porque isso é parte da nossa vida cotidiana. Ninguém sabe quando esses bombardeios vão ocorrer e como será no dia seguinte. Você está ali, tomando seu café e ouvindo as bombas caírem. Isso é parte da nossa vida, todos os dias. Todo mundo fica esperando pela guerra, todos os dias.

Soube que você teve que transferir as filmagens para a Turquia. Foi por causa dos bombardeios ou por problemas políticos?

Basicamente, começamos as filmagens no Irã e, por conta dos bombardeios, ficou impossível continuar. Havia bombardeios por toda parte. Não havia segurança para a equipe, éramos 20 pessoas. Eu me senti responsável por todos eles, por isso decidi levar todos para a Turquia e filmar lá. A maioria das cenas interiores foi feita na Turquia, as exteriores, no Irã.

Ao mesmo tempo, seu filme tem uma forte temática política, já que seu protagonista é um médico que é proibido de trabalhar por ter atendido manifestantes feridos em protestos contra o governo.

Sim. O filme aborda duas tragédias. Em janeiro ocorreu um massacre nas ruas no Irã. E as pessoas não estavam esperando uma outra tragédia, que foi a guerra. O filme está acontecendo neste período, enquanto a sociedade sofria uma grande depressão, uma grande tristeza. Eu estava realmente interessado em retratar este momento, em que muitas pessoas haviam perdido qualquer esperança no futuro. Me senti realmente responsável por fazer um filme sobre vida, sobre esperança, para retratar este momento tão específico no Irã.

Ao mesmo tempo, você aborda um tema bastante polêmico, o suicídio. Não é um assunto fácil. Como vimos vários anos atrás em outro filme iraniano, Gosto de Cereja, de Abbas Kiarostami, numa abordagem bastante diferente. Como lhe ocorreu a ideia de fazer um filme sobre um projeto de suicídio?

A ideia veio do meu projeto de fazer um filme sobre vida e morte. Porque, no meio de tantos problemas, estávamos esquecendo como a vida é também bonita. Era muito importante para mim enfatizar esse aspecto. E também queria fazer um filme sobre morte. Porque, durante uma guerra, as pessoas estavam deprimidas, mas ao mesmo tempo, você as vê na rua, indo às compras, as crianças brincando. Era muito tocante para mim ver, ao lado dessa tragédia acontecendo, que a vida estava ganhando. Mas não sabia muito bem como ia abordar tudo isso. O massacre nas ruas aconteceu em janeiro. Falei com muitas pessoas sobre isso, especialmente amigos que são médicos. E um deles realmente estava pensando em suicídio. Estava proibido de trabalhar e não tinha mais nenhuma esperança. Durante esse massacre, não tínhamos acesso à internet no Irã, não podíamos saber exatamente o que estava acontecendo, mas os médicos estavam testemunhando os fatos, vendo as pessoas feridas, os cadáveres. Eles sim, podiam saber o que estava acontecendo. Foi um período terrível para os médicos. Por isso decidi transformar meu personagem num médico, testemunhando tudo o que estava acontecendo no Irã e retratar como e porque ele tomou sua decisão.

Ao mesmo tempo, ele decide antes falar com os membros de sua família e isso o leva ao encontro de outras coisas.

Sim, esse contato com a família e outras pessoas ao longo da história o levam a sentir que ele não é responsável apenas pela própria vida. A sua vida está conectada à vida de todos os outros. Nossa vida está conectada, não existimos sós na sociedade. O filme também questiona o sentido da responsabilidade. Somos responsáveis pelos outros.

Depois ele pode ver o que vai fazer. Talvez até mesmo a proibição de trabalhar possa ser revertida mais adiante.

Exato. É como a irmã caçula dele diz, alegria e tristeza andam lado a lado. Às vezes, você está triste, outras vezes, alegre. O importante é que você escolha a vida, apesar de tudo. O personagem do filme escolhe a vida. A guerra está ali, a repressão está ali, mas ele escolhe a vida porque ele tem estes pequenos momentos com sua mãe, com sua família, ele encontra nisso um valor importante, apesar de todas as dificuldades que o cercam.

No Irã, você é um cineasta independente, que faz filmes em coprodução com outros países. Como funciona isso?

Basicamente, no Irã não temos esses fundos para produção. Há alguns fundos, mas para produções mais comerciais, não para o tipo de filmes que eu faço. Por isso, tenho que recorrer à coprodução com outros países. São pequenas verbas, de vários lugares. Não quero esperar 3 ou 4 anos por um financiamento. Por isso, trabalho com diferentes coprodutores que colaboram comigo.

Mas você continua trabalhando no Irã, enquanto Mohammad Rasoulof (diretor de A Semente do Fruto Sagrado) teve que partir. Jafar Panahi já foi preso e impedido de filmar. Mas você continua lá, apesar das dificuldades.

Sim, temos que continuar. Filmar é difícil em qualquer lugar e lá me sinto conectado com a realidade, com a língua mesmo. Vejo cineastas que saem e ficam desconectados com a sociedade. Querem fazer filmes sobre outros assuntos fora de seu país e não têm uma ideia clara.

E consegue exibir seus filmes no Irã?

Não num circuito normal porque os cinemas no Irã são todos do governo. Se você faz um filme como os meus, eles não o exibem. E tudo está conectado ao governo. Mas nós mostramos os filmes da maneira como eu mostro numa obra minha, A Divina Comédia, em lugares bastante pequenos, num circuito underground. Às vezes, também colocamos os filmes online.

Sempre há formas de resistir.

Exatamente.

Esta é sua primeira vez na América do Sul, segundo me disse. Você tem referências do cinema brasileiro?

Sim, admiro muito Hector Babenco e Walter Salles, sempre sigo seu trabalho. Também gosto muito daquele filme de Anselmo Duarte (O Pagador de Promessas, vencedor da Palma de Ouro em Cannes 1962).

E consegue acompanhar o cinema internacional no Irã?

Sim. Como no Irã não há copyright, podemos ver todos os filmes em sites, com legendas. Mesmo filmes recentes, caso do filme de Alejandro Iñárritu, Digger. Chegam bem rápido!

SESSÕES:

28/10 - 21:00 - RESERVA CULTURAL - SALA 2
29/10 - 15:00 - CINESESC

OUTRAS ATRAÇÕES NA PROGRAMAÇÃO

Medley

O universo da juventude não é estranho ao cinema da diretora gaúcha Ana Luiza Azevedo – pelo contrário. Seu primeiro longa,
Antes que o mundo acabe (2009), já lidava com esse universo. Agora com Medley, ela volta a observar a juventude por um prisma do passado para falar do presente.

Roteirizado por Keka Reis, o longa é protagonizado por Mel Maia, no papel da adolescente Lola, uma jovem nadadora que vive em conflito com a mãe (Mariana Lima), que esconde o que aconteceu com o pai, de quem a jovem pouco se lembra. Depois de uma briga entre elas, a protagonista se isola no sítio do tio, que está viajando, no interior do Rio de Janeiro.

“Há, no filme, uma vivência da maternidade como uma questão muito forte que me interessou”, conta a cineasta ao Cineweb, explicando que o convite partiu da produtora do filme, Mara Lobão. “Além disso, era um desafio, para mim, filmar no Rio de Janeiro. Era uma equipe nova para mim e foi um aprendizado.”

A cineasta explica que o filme se passa algumas décadas atrás, quando não havia a tecnologia de hoje, e isso foi fundamental para a construção da dramaturgia. “Os personagens, por exemplo, deixam recados em secretárias eletrônicas, como se fossem monólogos, e acho muito interessante construir os laços entre mãe e filha a partir dessas mensagens.”

A tecnologia, aliás, é um elemento que chamou a atenção da diretora na preparação do elenco. “Embora alguns jovens não tivessem exatamente experiência com o cinema, ninguém hoje em dia, na idade deles, é novato diante da câmera. Diferente do meu primeiro longa, que é de 2009, hoje todo mundo tem uma familiaridade com a câmera.”

Ela também ressalta a importância de duas atrizes empenhadas e sérias nos papeis principais, e destaca que Maia e Lima se entregaram às personagens. “Sempre pensei na Mariana como a mãe, mas a Mel foi uma descoberta muito boa, que se mostrou muito comprometida com o trabalho desde nosso primeiro encontro. Hoje não vejo mais outra atriz como Lola.” (Alysson Oliveira)

28/10 - 13:00 - RESERVA CULTURAL - SALA 2

Mu-Ki-Ra

Coprodução entre Espanha e Colômbia, a animação Mu-Ki-Ra se destaca inicialmente por seu colorido vibrante em tons fortes, de cores quentes como rosa, vermelho e laranja. Mas o longa de Estefanía Piñeres vai muito além disso em suas raízes e representações latinas.

“O público infantil cresce vendo animações que vêm de fora, e não é o caso de que os filmes sejam ruins. A Pixar faz coisas incríveis, mas não são sobre o mundo em que as crianças latino-americanas vivem e conhecem. Minha vontade era falar de tradições e personagens daqui”, explica em entrevista ao Cineweb.

A trama se passa numa terra assombrada por um monstro, que captura um menino, e sua irmã, de 13 anos, precisa realizar um ritual para trazê-lo de volta. A partir dessa premissa, a cineasta, que assina o roteiro com María Barro Guntín, explora tradições orais do continente, além de uma fantasia que fala ao coração das crianças daqui.

“Tentei, com o filme, descobrir os limites da representação animada. Foram dez anos trabalhando nesse longa, e muita coisa foi se transformando. A equipe e eu fomos mudando elementos conforme o trabalho avançava. Mesmo com o baixo orçamento, buscamos superar as limitações com criatividade.”

Há cinco anos, não se produzia uma animação na Colômbia, e Piñeres celebra que as primeiras exibições do seu filme foram feitas em centros culturais e escolas nas periferias de cidades colombianas. “Foi uma grande alegria que o filme tenha chegado a essas crianças, pois foi feito para elas. No Brasil, a exibição que a Mostra promove nos CEUs contribui para isso também.”

Além de ser exibido na Mostra, Mu-Ki-Ra chegará aos cinemas brasileiros em 2027. (Alysson Oliveira)

28/10 - 10:00 - CIRCUITO SPCINE CEU JAÇANÃ
28/10 - 10:00 - CIRCUITO SPCINE CEU PARQUE NOVO MUNDO
28/10 - 10:00 - CIRCUITO SPCINE CEU QUINTA DO SOL
28/10 - 10:00 - CIRCUITO SPCINE CEU SÃO RAFAEL
28/10 - 16:00 - CIRCUITO SPCINE CENTRO CULTURAL OLIDO